A trajetória do catarinense Ezequias Gabriel Rodrigues, 24 anos, é daquelas que ultrapassam o esporte e chegam ao coração. Nascido em Blumenau e criado em Ituporanga, ele cresceu em meio à ausência do pai, dificuldades financeiras e uma batalha silenciosa dentro de casa: a depressão profunda vivida pela mãe, que sustentava sozinha quatro filhos trabalhando como faxineira em dois empregos.
Apesar da dor que carregava, a mãe de Ezequias nutria um amor especial pelas artes marciais. Via na luta a disciplina e a força que sempre admirou — valores que enxergou no filho desde as primeiras aulas. Foi ela quem o transformou em “herói” antes mesmo de ele se tornar atleta profissional, vibrando com cada evolução, acreditando até quando ele próprio duvidava.
Ao lado dela, a irmã mais velha se tornou o porto seguro da família, protegendo Ezequias nos anos mais duros da infância.
A vida do jovem também foi marcada por desafios de saúde. Aos 11 anos, enfrentou um grave quadro de apendicite que o deixou meses internado, incluindo um mês na UTI. Os médicos foram categóricos: ele jamais poderia realizar esforço físico intenso. Mas a determinação do menino criado por uma mãe guerreira falou mais alto.
Aos 14 anos, a depressão materna atingiu níveis extremos. Ezequias viveu episódios traumáticos ao tentar impedir que a mãe tirasse a própria vida. Sem estrutura emocional e sentindo-se sem saída, tomou uma decisão desesperada: fugiu de casa.
Caminhou de Ituporanga até Blumenau — sozinho, a pé, sob frio, chuva e noites sem abrigo — até contrair pneumonia. Ainda assim, seguiu adiante. Encontrou acolhimento na casa de uma tia, que o adotou por dois anos; depois, outra tia abriu novamente as portas para ele. Aos 17, viveu sozinho, aprendendo a sobreviver com o mínimo.
Com 18 anos, decidiu reescrever a própria história e ingressou no Exército. Entre mais de 300 jovens, foi o melhor em aptidão física, destacando-se pela disciplina e resistência — características que dariam forma ao atleta que estava prestes a se revelar.
Depois da experiência militar, mergulhou nas artes marciais. Começou na capoeira, passou pelo Muay Thai e, mais tarde, evoluiu para o MMA. Hoje, é tricampeão catarinense de boxe chinês, campeão brasileiro e vencedor de diversos torneios nacionais, consolidando-se como um dos talentos mais promissores da nova geração.
Uma das cenas mais marcantes para quem acompanha sua carreira acontece fora do octógono: sua mãe no corner. A mesma mulher que, um dia, lutou contra a vontade de viver, agora vibra, orienta e cuida do filho que transformou dor em força e força em vitória.
Agora, Ezequias vive um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Ele foi confirmado no *Arena Global*, evento que acontece no dia 7 de fevereiro, no Rio de Janeiro, considerado um dos maiores palcos de MMA do país e vitrine nacional e internacional para novos campeões.
Para esta fase decisiva, o atleta busca patrocinadores que desejam associar seus nomes a histórias reais de superação, disciplina e fé. Marcas que queiram apoiar um jovem que saiu do fundo do poço e hoje caminha rumo ao topo.
Porque, como a própria vida de Ezequias mostra, onde existem amor e sacrifício, nasce um campeão capaz de mudar destinos — inclusive o próprio.
Folha de Florianópolis
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