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Segunda-feira, 27 de Abril 2026
Ensinar não é improvisar: por que a programação de ensino ainda importa (e muito)

Coluna do Laôr
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Ensinar não é improvisar: por que a programação de ensino ainda importa (e muito)

Quando o ensino é planejado a partir do comportamento real dos alunos, aprender deixa de ser aposta e passa a ser projeto.

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Em muitas escolas brasileiras, o ensino ainda depende excessivamente de um fator pouco confiável: a improvisação bem-intencionada. Planeja-se o calendário, escolhe-se o material didático, organiza-se a rotina escolar — mas, no cotidiano da sala de aula, o ensino frequentemente acontece sem uma programação clara das aprendizagens que se espera produzir.

O artigo “Programação de Ensino no Brasil”, que inspira esta reflexão, nos convida a olhar com mais atenção para um ponto sensível da prática docente: ensinar não é apenas expor conteúdos, mas organizar condições para que o aluno aprenda. E isso não acontece por acaso.

A programação de ensino, tal como discutida no artigo, não é sinônimo de engessamento, nem de perda da autonomia docente. Ao contrário: trata-se de planejar o ensino a partir de objetivos claros, sequências bem definidas e acompanhamento contínuo do desempenho do aluno. É, antes de tudo, um compromisso com a aprendizagem real — não apenas com o cumprimento do currículo.

Quando o aluno “não aprende”, o que exatamente não funcionou?

Essa é uma pergunta que raramente aparece nos conselhos de classe. Com frequência, atribui-se o fracasso ao aluno: falta de interesse, lacunas anteriores, dificuldades emocionais. O artigo nos lembra que o foco precisa se deslocar: se o aluno não aprendeu, é preciso analisar como o ensino foi programado.

Um exemplo simples ajuda a ilustrar. Imagine uma turma de alfabetização em que parte dos alunos ainda não reconhece letras, mas as atividades avançam para leitura de palavras completas. O problema não está na criança, mas na sequência de ensino, que desconsiderou pré-requisitos fundamentais. Programar o ensino é justamente evitar esse tipo de salto no escuro.

Programar o ensino é ensinar passo a passo

O artigo é claro ao destacar que a aprendizagem ocorre de forma gradual. Ensinar bem exige:

  • definir objetivos observáveis (o que o aluno deve ser capaz de fazer);

  • organizar etapas progressivas;

  • oferecer feedback constante;

  • ajustar o ensino com base nas respostas reais dos estudantes.

Na prática, isso pode significar algo bastante concreto: antes de avançar em frações, garantir que todos dominem a noção de divisão; antes de cobrar interpretação de texto, assegurar fluência leitora. Parece óbvio — mas, na rotina pressionada da escola, nem sempre é feito.

O papel do professor muda — e se fortalece

Um ponto central do artigo é que a programação de ensino não reduz o professor a executor, como muitos temem. Pelo contrário: exige um docente mais atento, analítico e autor do próprio trabalho. É o professor quem observa, ajusta, decide quando avançar ou retomar.

Essa perspectiva dialoga diretamente com a formação docente contemporânea. Não se trata de seguir roteiros prontos, mas de pensar o ensino como uma tecnologia pedagógica, construída a partir do conhecimento sobre como os alunos aprendem.

E os secretários de educação com isso? Tudo.

Para gestores públicos, a mensagem é igualmente direta: não há política educacional eficaz sem investimento na programação do ensino. Materiais didáticos, formações continuadas e avaliações externas só fazem sentido quando articulados a uma lógica clara de ensino-aprendizagem.

Quando redes inteiras operam sem essa coerência, o resultado é conhecido: baixos índices, frustração docente e alunos que avançam de série sem dominar o básico. Programar o ensino é uma decisão técnica, mas também política.

Ensinar bem dá trabalho — e vale a pena

O artigo nos lembra de algo essencial: bons resultados educacionais não são fruto de carisma, vocação ou esforço isolado, mas de planejamento cuidadoso e análise constante do processo de ensinar.

Talvez a pergunta mais incômoda que ele nos deixe seja esta:

Se sabemos tanto sobre como as pessoas aprendem, por que ainda ensinamos como se aprender fosse uma questão de sorte?

Responder a isso exige coragem — e mudança.

FONTE/CRÉDITOS: NALE, Nivaldo. Programação de ensino no Brasil: o papel de Carolina Bori. Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Carlos, SP. Artigo científico, s.d.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira
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Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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