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Sábado, 05 de Setembro 2026
Governar também é escolher o que não fazer
Coluna do Guga Dias

Governar também é escolher o que não fazer

Uma lista de boas intenções não é uma estratégia de governo. Priorizar exige reconhecer limites, ordenar escolhas e aceitar que toda decisão pública deixa outras possibilidades para depois.

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A essência da estratégia é escolher o que não fazer.

Michael E. Porter

Na sexta-feira, 28 de agosto, começou o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Durante 35 dias, candidatos e partidos disputarão a atenção de milhões de eleitores com propostas, compromissos e promessas condensados em poucos minutos ou segundos. É uma exigência própria da campanha. Problemas complexos precisam ser comunicados de maneira simples e compreensível.

O risco começa quando a lógica da campanha passa a substituir a lógica do governo.

Durante uma eleição, quase tudo pode ser apresentado como prioridade. Saúde, educação, segurança, infraestrutura, habitação, geração de empregos, mobilidade, inovação, proteção social e redução de impostos são demandas legítimas. Cada grupo social possui razões concretas para defender aquilo que considera mais urgente. O candidato, por sua vez, tem um incentivo evidente para responder positivamente ao maior número possível dessas expectativas.

Mas, se tudo é prioridade, nada é prioridade.

Governar é administrar recursos escassos. Dinheiro é apenas o mais visível deles. Também são limitados o tempo, a capacidade técnica das equipes, a estrutura administrativa, a atenção dos gestores, a possibilidade de contratar e fiscalizar obras, a capacidade de coordenação entre órgãos e até o capital político necessário para implementar mudanças difíceis.

Por isso, uma proposta de governo não deveria ser avaliada apenas pelo que promete realizar. Também deveria ser examinada pela ordem que estabelece entre objetivos concorrentes.

Michael Porter escreveu, ao discutir estratégia empresarial, que sua essência está em escolher o que não fazer. A ideia não pode ser transportada mecanicamente para a administração pública. Governo não é empresa e possui obrigações constitucionais, legais e sociais das quais não pode simplesmente abrir mão. Saúde, educação, segurança, assistência e tantas outras funções públicas não podem ser abandonadas porque um governante decidiu concentrar esforços em outra área.

Ainda assim, existe uma lição importante naquele raciocínio. Mesmo entre deveres legítimos e políticas desejáveis, alguém precisará decidir o que receberá mais recursos, o que começará primeiro, o que poderá esperar e o que, naquele momento, não será realizado.

A própria arquitetura do orçamento público reconhece essa necessidade. O Plano Plurianual organiza diretrizes, objetivos e metas de médio prazo. A Lei de Diretrizes Orçamentárias estabelece metas e prioridades para o exercício seguinte. A Lei Orçamentária Anual estima receitas e fixa despesas. Não se trata apenas de burocracia. Esses instrumentos existem porque governar exige transformar intenções em escolhas compatíveis com recursos, prazos e capacidade de execução.

É nesse ponto que surge um conceito econômico simples e frequentemente esquecido no debate eleitoral, o custo de oportunidade. Quando um recurso é utilizado em determinada finalidade, ele deixa de estar disponível para outra. A construção de uma obra pode ser necessária e socialmente valiosa. Ainda assim, ela mobiliza dinheiro, pessoas, processos administrativos e tempo que não poderão ser empregados simultaneamente em todas as demais demandas.

Reconhecer isso não significa defender menos investimento público. Significa exigir escolhas mais transparentes.

O eleitor deveria poder perguntar não apenas o que um candidato pretende fazer, mas também o que vem primeiro, por quê e com quais recursos. Se forem apresentadas dez prioridades, qual delas terá precedência quando houver conflito entre orçamento e promessa? Qual resultado será perseguido antes dos demais? O que poderá ser adiado? Que política existente perderá espaço para que uma nova seja financiada?

Essas perguntas são menos sedutoras do que slogans, mas muito mais próximas da realidade de governar.

Também ajudam a diferenciar prioridade de preferência. Um governante pode considerar determinada política importante e, ainda assim, concluir que outra necessidade é mais urgente. Prioridade não é aquilo que alguém considera valioso. Prioridade é aquilo que se decide colocar antes de outra coisa que também possui valor.

Essa distinção exige maturidade política porque escolher produz descontentamento. Toda prioridade cria uma fila. Toda decisão de acelerar uma política significa, em alguma medida, desacelerar outra. O governante que promete satisfazer simultaneamente todos os interesses pode parecer mais generoso durante a campanha, mas provavelmente está apenas adiando para o mandato o conflito que não quis enfrentar diante do eleitor.

E há uma consequência democrática nisso. Escolhas públicas não deveriam permanecer escondidas dentro da máquina administrativa depois da eleição. Se um candidato pretende priorizar determinada área, precisa explicar os critérios dessa escolha. Se pretende alterar prioridades durante o mandato, precisa justificar a mudança. A sociedade não precisa apenas saber onde o dinheiro foi gasto. Precisa compreender por que algumas decisões vieram antes de outras.

Talvez seja esse um dos testes mais úteis para os próximos dias de campanha. Diante de cada nova promessa, vale perguntar se estamos ouvindo apenas uma boa intenção ou uma verdadeira prioridade.

No artigo anterior desta série, a pergunta era se quem promete sabe como fazer. Agora podemos avançar um passo. Mesmo que saiba fazer, sabe escolher o que fazer primeiro?

A capacidade de governar começa muito antes da execução. Começa quando alguém aceita que recursos são finitos, necessidades são concorrentes e decisões têm consequências. Liderar o Estado não é dizer sim a tudo. É assumir publicamente a responsabilidade por escolhas difíceis, inclusive por aquilo que precisará esperar.

Governar bem também é saber dizer não.

Jogo que segue...

Guga Dias
Arquiteto de Mentalidade e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias

FONTE/CRÉDITOS: Fontes: TSE — Eleições 2026; Ministério do Planejamento — PPA; Tesouro Nacional — PPA, LDO e LOA; Michael E. Porter, “What Is Strategy?”, Harvard Business Review, 1996.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem criada com inteligência artificial para uso do autor

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Guga Dias

Guga Dias, Budista, advogado, especialista em Propriedade Intelectual (desde 1986) e Empresário, com especialização em Propriedade Intelectual pela WIPO (World Intellectual Property Organization), Pós-graduando em Gestão Pública e Gestão do...

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