Florianópolis tem uma característica que poucas capitais brasileiras carregam com tanta força. A geografia não perdoa. A ilha concentra deslocamentos em poucos corredores, com gargalos previsíveis, alternativas limitadas e dependência de acessos que funcionam como funil. Em cidades assim, mobilidade não é um tema de conforto. Ah, não é memso! É infraestrutura econômica e capacidade de funcionamento do cotidiano.
Quando se observa o debate global sobre mobilidade urbana, fica claro que as cidades que melhoraram de forma consistente mudaram a pergunta. Saíram do como fazer o trânsito fluir mais rápido e foram para como garantir acesso com previsibilidade e segurança. Essa virada coloca o transporte coletivo e a mobilidade ativa no centro do nosso pensar sobre, reduz conflitos viários, melhora a gestão do espaço público e trata o carro como um modo importante, mas não soberano. Conceitos como Evitar, Mudar, Melhorar consolidaram essa lógica ao defender, ao mesmo tempo, urbanismo que reduz deslocamentos, migração para modos mais eficientes e melhoria do que continuará circulando.
Esse pano de fundo importa para Florianópolis porque a cidade não pode vencer a equação apenas ampliando capacidade viária. O custo é alto, o espaço é limitado e a solução tende a ser temporária. O caminho mais sólido é combinar planejamento, regulação e operação, especialmente em períodos de pico, eventos e temporada.
Floripa está em processo de revisão do seu Plano de Mobilidade, o que é uma janela relevante para qualificar diagnóstico, prioridades e investimentos. Mas existe um tipo de travamento urbano que não depende de obra estrutural nem de esperar o fim de um ciclo de planejamento. Depende de governança de rotas e regras claras para veículos grandes.
Episódios recentes envolvendo ônibus de turismo em vias estreitas expuseram o tamanho do problema. Um único veículo mal manobrado e estacionado tem poder de interromper completamente o tráfego em bairros com ruas de baixa capacidade, criando efeito dominó no entorno, aumentando risco operacional para serviços essenciais e gerando perda de tempo e produtividade para a cidade inteira. O debate público costuma se reduzir à culpa do motorista ou à falta de atenção do visitante. Esse enquadramento é insuficiente. Se um erro individual consegue paralisar um trecho urbano inteiro, o sistema está sem proteção.
A prefeitura já possui uma base institucional para tratar disso. O Selo Turismo Legal foi criado para organizar e regulamentar a circulação de ônibus de turismo, com cadastro, diretrizes de circulação, estacionamento e fiscalização. Na prática, esse instrumento reconhece que ônibus de turismo precisam de gestão diferenciada e que a cidade deve definir onde podem circular, onde devem parar e quais condutas geram penalidade.
Nos episódios recentes, parte da discussão pública recaiu sobre aplicativos de navegação. É compreensível. Quando um ônibus entra em uma rua inadequada e paralisa um bairro, a pergunta imediata é quem indicou aquele caminho. Mas essa abordagem erra o alvo. Nenhuma cidade pode depender do algoritmo de um aplicativo para impor restrições viárias e proteger vias sensíveis.
Na prática, o Waze foi concebido para navegação de veículos leves e não oferece roteamento específico para ônibus ou caminhões. Por isso, a resposta não é mandar seguir o app. A cidade precisa definir e publicar rotas e restrições próprias para veículos grandes, e fiscalizar seu cumprimento.
A solução correta é inversa. Primeiro, o município define e publica restrições viárias e rotas permitidas para veículos grandes, com critérios técnicos como raio de curva, largura de via, horários de restrição e sensibilidade de bairros. Depois, essas restrições precisam virar informação utilizável em campo, tanto para quem opera quanto para quem fiscaliza. Parcerias com plataformas entram como canal de distribuição e atualização de informação, não como substituto da política pública.
O programa Waze for Cities existe para cooperação entre governos e a plataforma, incluindo troca de dados sobre incidentes, interdições e condições de tráfego, com possibilidade de integrar informações oficiais ao ambiente usado pelos motoristas. O Google Maps também opera com camadas e atributos de vias, o que, quando bem alimentado por dados oficiais, reduz o risco de roteamento inadequado em situações específicas. O ponto central é que plataformas são espelhos. Refletem a inteligência do território quando essa inteligência é formalizada e atualizada pelo poder público.
Para Florianópolis, um caminho prático e realista pode ser estruturado em três frentes simultâneas. A primeira é uma rede oficial de circulação de ônibus de turismo, vinculada ao Selo Turismo Legal, com rotas permitidas, trechos proibidos, horários e pontos formais de embarque e desembarque. A segunda é a criação de um mapa público de restrições e rotas, com atualização frequente e base técnica, para que operadores, hotéis, agências, guias e transportadoras tenham uma referência única. A terceira é fiscalização orientada por risco, concentrada em entradas estratégicas, rotas críticas e bairros com histórico de bloqueios, com protocolo de resposta rápida para evitar que uma ocorrência simples se transforme em paralisia.
Essa agenda protege o próprio turismo. O visitante não ganha nada ao se ver preso num bairro, bloqueando a vida de moradores e correndo o risco de virar conflito. O setor também não ganha quando a operação irregular de alguns se torna argumento para desorganizar o mercado e aumentar a hostilidade local. Quando entidades do setor cobram fiscalização e criticam condutas fora das regras, estão pedindo profissionalização do ambiente.
Uma cidade madura não espera o próximo travamento para reagir. Assume que certos riscos são previsíveis e constrói barreiras institucionais contra eles. Florianópolis tem condições de fazer isso agora, com custo relativamente baixo e benefício imediato. Gerenciar rotas de veículos grandes é uma medida simples em aparência, mas com impacto profundo na previsibilidade urbana. Em uma ilha onde poucas vias sustentam muito da vida econômica, previsibilidade é crescimento.
Jogo que segue…
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
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Folha de Florianópolis
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