Desde pequenos, os meninos aprendem o que não podem ser.
Não podem chorar.
Não podem ter medo.
Não podem abraçar a boneca, preparar comidinha no fogão de plástico, embalar um bebê imaginário.
Não podem cuidar.
Oferecem-lhes carrinhos, armas de brinquedo, bolas.
Dizem: “isso é coisa de homem”.
E eles crescem acreditando que amar é possuir; que proteger é controlar; que ser forte é não sentir. Crescem acreditando que a dureza é virtude e que a sensibilidade é um defeito a ser corrigido.
Ninguém lhes ensina que cuidar também é força.
Que o toque pode ser abrigo, e não ameaça.
Que amar é respeitar a liberdade do outro.
Então, eles crescem, viram homens, e quando a mulher decide ir, quando ela diz não, quando ela escolhe existir para além deles, algo estilhaça por dentro. Não foi só o amor que acabou.
Foi a ideia de domínio que se perdeu.
E é aí que a masculinidade, construída sobre areia, desmorona.
Chamam de amor, mas é medo.
Chamam de ciúme, mas é insegurança.
Chamam de paixão, mas é controle.
E, em vez de aprenderem a lidar com a frustração, com a rejeição, com o abandono (coisas tão humanas) explodem. Porque ninguém lhes ensinou a respirar fundo.
A nomear a dor.
A sair para longe.
A procurar ajuda.
A se recolher em silêncio até que a tempestade passe.
Não, isso nunca lhes foi ensinado.
Enquanto isso, meninas aprendem cedo a cuidar.
Do irmão menor, da boneca, da casa, das emoções alheias.
Aprendem a pedir desculpas mesmo sem culpa.
Aprendem a ser delicadas para sobreviver.
Aprendem a diminuir a voz, o corpo, o mundo.
E o mundo, cruel e irônico, continua pedindo que elas cuidem, até mesmo, daqueles que as machucam.
Talvez, a violência contra a mulher comece muito antes do primeiro tapa, do primeiro grito, da primeira ameaça. Talvez, comece naquela infância em que ensinaram aos meninos tudo sobre vencer, mas nada sobre cuidar. Tudo sobre dominar, mas nada sobre sentir.
E agora, entre sirenes, notícias e nomes de mulheres que viram números, uma pergunta permanece ecoando no ar, pesada como um luto coletivo:
Em que momento ensinaram os homens a ferir, quando poderiam tê-los ensinado a cuidar?
Folha de Florianópolis
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