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Segunda-feira, 12 de Outubro 2026
A educação que o próximo presidente encontrará
Coluna do Laôr

A educação que o próximo presidente encontrará

Mais importante do que promessas eleitorais é perguntar se o Brasil conseguirá transformar acesso, currículo, professores, avaliação e gestão em aprendizagem real

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Tenho acompanhado as discussões públicas sobre educação que começam a aparecer à medida que o debate nacional se aproxima das eleições de 2026. Procuro fazê-lo menos interessado na disputa entre nomes e mais atento a uma questão que, para mim, deveria atravessar qualquer projeto de país: o que precisará ser feito para que nossas crianças e jovens efetivamente aprendam?

Essa pergunta parece elementar. Mas talvez seja justamente por isso que seja tão importante.

A educação brasileira é grande demais para caber em slogans eleitorais. Segundo o Censo Escolar 2025, são cerca de 46 milhões de matrículas na educação básica, das quais 25,8 milhões estão no ensino fundamental. O país também chegou a 10,1 milhões de estudantes matriculados em tempo integral. 

Portanto, qualquer política educacional nacional opera sobre uma estrutura gigantesca, heterogênea e federativa. Há diferenças entre regiões, estados, municípios, redes e escolas. Isso significa que uma boa intenção formulada em Brasília não se converte automaticamente em aprendizagem dentro de uma sala de aula em Florianópolis, Manaus, Araras, Sobral ou qualquer outro município brasileiro.

É nesse ponto que considero necessário mudar a pergunta.

Em vez de perguntar apenas quanto será investido em educação, deveríamos perguntar também: o que deverá mudar na experiência concreta de aprendizagem do estudante?

Acesso não pode ser confundido com aprendizagem

O Brasil realizou avanços importantes que precisam ser reconhecidos.

Os dados mais recentes do Inep mostram crescimento do Ideb entre 2023 e 2025. Considerando redes públicas e privadas, o indicador passou de 6,0 para 6,3 nos anos iniciais do ensino fundamental e de 5,0 para 5,3 nos anos finais. O Saeb 2025 envolveu aproximadamente 5,9 milhões de estudantes de 73.767 escolas. 

São informações relevantes. Mas indicadores educacionais precisam servir como instrumentos de diagnóstico, não como substitutos da aprendizagem.

O próprio Ideb combina duas dimensões: fluxo escolar e desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática. Portanto, melhorar aprovação é importante, assim como elevar proficiências. Mas nenhuma medida isolada consegue explicar toda a complexidade do processo educacional. 

Essa distinção deveria ocupar espaço maior no debate público.

Uma criança pode estar matriculada e aprender pouco. Pode permanecer na escola e acumular lacunas. Pode avançar de ano sem dominar conhecimentos que serão pré-requisitos para aprendizagens posteriores.

Na perspectiva da Análise do Comportamento, essa discussão ganha uma formulação particularmente objetiva: se o estudante ainda não aprendeu, precisamos investigar as condições de ensino às quais ele foi exposto.

Isso não significa responsabilizar isoladamente o professor. Muito menos culpabilizar o aluno.

Significa analisar currículo, sequência de ensino, oportunidades de responder, feedback, materiais, tempo pedagógico, formação docente, avaliação e condições institucionais. A literatura da Análise do Comportamento aplicada à educação há décadas chama atenção justamente para a relação entre condições de ensino e aprendizagem. 

O professor precisa voltar ao centro

Ao observar as diferentes discussões sobre o futuro da educação brasileira, considero que existe uma pergunta incontornável:

quem fará a transformação acontecer dentro da escola?

Currículos não ensinam sozinhos. Plataformas não ensinam sozinhas. Inteligência artificial não ensina sozinha. Material didático, avaliação externa e infraestrutura tampouco produzem automaticamente aprendizagem.

Todos esses elementos podem ser importantes. Mas precisam encontrar um profissional capaz de transformá-los em situações efetivas de ensino.

Por isso, qualquer projeto nacional de educação precisará enfrentar seriamente formação inicial, formação continuada, condições de trabalho, desenvolvimento profissional e atração de bons profissionais para a docência.

Francisco Imbernón já defendia que as mudanças sociais e educacionais exigem redefinir a profissão docente e compreender a formação como elemento essencial do desenvolvimento profissional. 

Essa discussão continua extremamente atual.

Formar professores não pode significar apenas oferecer cursos. Formação precisa modificar repertórios profissionais e ampliar a capacidade de diagnosticar dificuldades, planejar intervenções, avaliar evidências de aprendizagem e reorganizar o ensino.

Mais tempo pode ajudar. Mas tempo precisa virar oportunidade de aprender

Outro tema que aparece com frequência nas discussões educacionais é a ampliação da jornada.

O avanço brasileiro é significativo: entre 2021 e 2025, o percentual de matrículas presenciais em tempo integral na rede pública passou de 15,1% para 25,8%. 

É uma transformação relevante.

Mas existe uma pergunta pedagógica que precisa acompanhar a expansão: o que fazemos com esse tempo adicional?

Tempo escolar é condição. Aprendizagem é resultado de interações.

Se aumentarmos a permanência do estudante sem melhorar currículo, práticas pedagógicas, acompanhamento e oportunidades efetivas de aprendizagem, teremos ampliado horas, não necessariamente ampliado aprendizagem.

A educação integral ganha potência quando o tempo adicional significa mais experiências culturais, científicas, artísticas, esportivas e acadêmicas; quando permite acompanhamento individualizado, recomposição das aprendizagens, projetos investigativos e desenvolvimento de competências que dificilmente cabem em uma jornada reduzida.

O Brasil também precisa discutir currículo

Há ainda outra questão pouco atraente eleitoralmente, mas decisiva pedagogicamente: o que todos os estudantes brasileiros precisam aprender?

Currículo não pode ser simplesmente uma lista extensa de conteúdos.

Gimeno Sacristán lembra que o currículo se realiza efetivamente nas práticas escolares. Entre o currículo prescrito e aquilo que o estudante aprende existe uma extensa cadeia de mediações: materiais, organização escolar, formação dos professores, planejamento, avaliação e interação pedagógica. 

Curriculo uma reflexão sobre a prática.pdf

Isso ajuda a explicar por que reformas curriculares, isoladamente, raramente produzem transformações rápidas.

A pergunta nacional deveria ser menos “qual documento curricular teremos?” e mais “como garantiremos que o currículo chegue à sala de aula e se converta em aprendizagem?”.

Precisamos aprender a acompanhar aprendizagem, não apenas resultados

Talvez um dos maiores desafios do próximo ciclo educacional brasileiro esteja na utilização inteligente dos dados.

Avaliações externas são indispensáveis. O Saeb produz informações sobre desempenho e fatores contextuais e permite análises para escolas, redes, municípios, estados e país. 

Mas uma avaliação realizada periodicamente não pode ser o único momento em que descobrimos que um estudante não aprendeu.

A escola precisa desenvolver capacidade para produzir evidências durante o processo.

Isso significa avaliações diagnósticas, acompanhamento contínuo, análise dos erros, identificação de pré-requisitos ausentes e intervenção rápida.

A literatura sobre ensino sem erro mostra algo especialmente interessante: erros persistentes podem produzir não apenas dificuldades acadêmicas, mas também respostas emocionais e esquiva da tarefa ou do próprio contexto de ensino. 

Portanto, esperar anos para descobrir que um estudante acumulou lacunas é pedagogicamente caro.

Educação não pode recomeçar a cada eleição

Depois de acompanhar propostas, entrevistas, anúncios e debates públicos sobre educação, chego a uma conclusão que independe de candidatura, partido ou posição ideológica.

O Brasil precisa transformar educação em política de Estado.

Governos precisam naturalmente estabelecer prioridades. Isso faz parte da democracia. Mas alfabetização, aprendizagem matemática, formação de professores, redução das desigualdades, permanência escolar, currículo, avaliação e desenvolvimento profissional docente não deveriam recomeçar do zero a cada quatro anos.

Talvez esse seja um bom critério para acompanharmos o debate educacional de 2026 sem transformá-lo em torcida.

Não perguntar apenas quem promete mais.

Perguntar como as propostas pretendem transformar recursos em condições de ensino; condições de ensino em boas práticas; boas práticas em aprendizagem; e aprendizagem em oportunidades para crianças e jovens.

O próximo presidente encontrará uma educação brasileira que avançou em diversas dimensões e que continua carregando desafios históricos. Os dados mais recentes mostram simultaneamente expansão do tempo integral, redução da distorção idade-série e melhora dos indicadores de desempenho. 

Reconhecer avanços não significa ignorar problemas. Reconhecer problemas não exige desconsiderar avanços.

É justamente essa maturidade que deveria orientar o debate.

Porque, passada a eleição, desaparecerão jingles, programas eleitorais, pesquisas e palanques.

Os estudantes continuarão entrando nas escolas todas as manhãs.

E, independentemente de quem estiver no Palácio do Planalto, a pergunta continuará exatamente a mesma:

eles estão aprendendo?

FONTE/CRÉDITOS: Laôr Fernandes de Oliveira
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira

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Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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