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Quinta-feira, 16 de Abril 2026
Aprender é mudar o que se faz: reflexões para a sala de aula a partir do behaviorismo

Coluna do Laôr
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Aprender é mudar o que se faz: reflexões para a sala de aula a partir do behaviorismo

Depois da leitura de William Baum, uma constatação incômoda — e necessária — sobre como ensinamos e por que tantos alunos não aprendem.

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Após a leitura do livro de William M. Baum, fiquei com uma ideia martelando a cabeça: talvez estejamos falando demais sobre aprendizagem e observando pouco o que, de fato, muda na vida do aluno depois da aula.

Não se trata de desvalorizar o planejamento, o currículo ou a intencionalidade pedagógica. Ao contrário. A reflexão que emerge é mais profunda — e mais exigente: ensinar só faz sentido quando produz mudança concreta no modo como o estudante age, resolve problemas, se relaciona com o conhecimento.

Todo o resto é boa intenção.

Quando aprender deixa de ser um conceito abstrato

Uma das ideias que mais provoca desconforto em professores é simples de enunciar: aprender não é “entender”, “achar interessante” ou “ir bem na prova”. Aprender é passar a fazer algo que antes não se fazia, ou fazer melhor, com mais autonomia e precisão.

Isso muda o eixo da prática docente. A pergunta central deixa de ser “dei o conteúdo?” e passa a ser:

o que meus alunos conseguem fazer agora que não conseguiam antes?

Se a resposta for vaga, genérica ou baseada apenas em percepções subjetivas, o alerta está dado.

A sala de aula ensina o tempo todo — mesmo sem querer

Outra reflexão inevitável diz respeito ao ambiente escolar. A sala de aula não é neutra. Ela ensina continuamente, não apenas pelo conteúdo, mas pelas consequências que produz.

Os alunos aprendem, por exemplo:

  • quando vale a pena participar;
  • quando é melhor ficar em silêncio;
  • quando errar traz constrangimento;
  • quando acertar passa despercebido.

Nada disso é acidental. São regularidades do ambiente.

Se um estudante interrompe a aula repetidamente e sempre recebe atenção imediata, a sala está ensinando que interromper funciona. Se outro se esforça, mas nunca recebe retorno claro, a mensagem é igualmente pedagógica — ainda que indesejada.

O erro como espelho do ensino

Uma mudança de olhar especialmente potente diz respeito ao erro. Em vez de tratá-lo como falha do aluno, a leitura provoca uma inversão de responsabilidade: o erro passa a ser um sinal de que a situação de ensino não foi suficientemente ajustada.

Quando muitos erram do mesmo modo, o problema raramente é individual. Está na tarefa, na sequência didática, no salto excessivo entre o que se espera e o que foi ensinado.

Isso não significa proteger o aluno do erro a qualquer custo, mas usar o erro como dado pedagógico, não como julgamento moral. Errar, nesse sentido, informa. Humilhar, não.

Motivação não é ponto de partida

Talvez uma das reflexões mais libertadoras para o professor seja esta: alunos não precisam estar motivados para começar a aprender. A motivação surge quando aprender começa a dar certo.

Quando a tarefa é possível, progressiva e produz sensação de avanço, o engajamento aparece. Quando é confusa, punitiva ou distante do repertório do estudante, a evasão — física ou simbólica — é previsível.

Esperar motivação antes de ensinar é como esperar que alguém goste de nadar antes de entrar na água.

O papel silencioso do professor

Nesse modo de pensar, o professor deixa de ser um animador, um controlador ou um simples transmissor. Passa a ser algo mais sutil — e mais poderoso: um organizador de ambientes de aprendizagem.

Alguém que:

  • define claramente o que espera que o aluno faça;
  • cria condições para que isso seja possível;
  • ajusta o percurso quando o resultado não aparece.

Ensinar, então, não é convencer pelo discurso, mas estruturar situações em que aprender se torne o caminho mais provável.

Um convite à honestidade pedagógica

Essa leitura não oferece receitas rápidas nem frases de efeito. Oferece algo mais raro: um convite à honestidade. Se os alunos não estão aprendendo, talvez não seja falta de esforço deles — nem de dedicação dos professores —, mas de coerência entre o que se ensina, como se ensina e o que se espera como resultado.

É desconfortável. Exige revisão de práticas, não apenas de discursos.

Mas também é libertador.

Porque, no fim das contas, quando o aluno muda, a aprendizagem aconteceu. E quando isso não ocorre, o desafio não é explicar melhor — é ensinar de outro modo.

FONTE/CRÉDITOS: BAUM, William M. Compreender o Behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. Tradução brasileira. Porto Alegre: Artmed, 2006.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira
Comentários:
Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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