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Quinta-feira, 16 de Abril 2026
Ensinar é Organizar Contingências: o que Baum nos ensina sobre aprendizagem em sala de aula

Coluna do Laôr
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Ensinar é Organizar Contingências: o que Baum nos ensina sobre aprendizagem em sala de aula

Da teoria behaviorista à prática docente: como transformar ensino em aprendizagem efetiva

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Ensinar não é explicar bem. Ensinar é produzir mudança duradoura no comportamento do aluno. Essa afirmação, desconfortável para alguns e libertadora para outros, está no coração da análise behaviorista do comportamento humano — e ganha clareza exemplar na obra Compreender o Behaviorismo, de William M. Baum. Ao longo do livro, Baum desmonta mitos profundamente enraizados na educação e recoloca o foco onde ele sempre deveria ter estado: nas relações entre ambiente, comportamento e consequências.

Para o professor, essa perspectiva não é apenas teórica. Ela é, sobretudo, prática. E prática no sentido mais concreto possível: o que faço em sala de aula aumenta ou diminui a probabilidade de meus alunos aprenderem?

Aprender não acontece “dentro” do aluno — acontece na relação

Baum é incisivo ao afirmar que o behaviorismo não nega pensamentos, sentimentos ou intenções, mas os compreende como parte de um sistema mais amplo de interação com o ambiente (Baum, Compreender o Behaviorismo). Aprender, nessa visão, não é um evento interno misterioso; é uma mudança observável no repertório do indivíduo, produzida por contingências bem organizadas.

Em sala de aula, isso muda tudo.

Quando um aluno “não aprende”, a pergunta central deixa de ser “o que há de errado com ele?” e passa a ser “que contingências estão operando aqui?”. Baum nos convida a olhar para o ensino como um arranjo ambiental: estímulos apresentados, respostas exigidas e consequências produzidas.

O erro pedagógico clássico: confundir exposição com ensino

Um dos equívocos mais frequentes na prática docente é supor que explicar é ensinar. Baum ajuda a desmontar essa armadilha ao reforçar que comportamento só se mantém quando é seguido por consequências relevantes (Baum, Compreender o Behaviorismo).

Exemplo prático

O professor explica frações por 40 minutos, resolve exercícios no quadro e pergunta: “Entenderam?”. O silêncio reina. Na semana seguinte, a prova revela o desastre.

Do ponto de vista behaviorista, isso não é surpresa: os alunos quase não emitiram respostas durante a aula e, quando emitiram, não receberam consequências sistemáticas.

Alternativa comportamental

– O professor apresenta pequenos problemas de fração.

– Solicita respostas frequentes (oral, escrita, em pares).

– Reforça imediatamente aproximações corretas.

– Ajusta o nível de dificuldade progressivamente.

Aqui, o ensino passa a modelar o comportamento do aluno, exatamente como Baum descreve ao tratar de seleção por consequências.

Reforço não é “elogio vazio” — é engenharia do aprendizado

Baum é cuidadoso ao diferenciar reforço de recompensa arbitrária. Algo só é reforçador se, de fato, aumenta a probabilidade de a resposta ocorrer novamente (Baum, Compreender o Behaviorismo).

Na escola, isso exige sofisticação.

Exemplo prático

Dizer “muito bem” para todos, o tempo todo, perde função.

Mas reconhecer publicamente uma estratégia correta, permitir escolher um desafio seguinte ou dar feedback específico (“você organizou bem os dados antes de calcular”) pode ter efeito poderoso.

O professor deixa de ser um juiz de acertos e erros e passa a ser um arquiteto de contingências.

Avaliação: instrumento de punição ou de aprendizagem?

Baum é particularmente crítico às práticas sociais baseadas em controle aversivo. Quando o comportamento é mantido principalmente por punição, seus efeitos colaterais são previsíveis: esquiva, ansiedade, desmotivação (Baum, Compreender o Behaviorismo).

Na escola, isso se traduz em alunos que:

  • evitam participar,
  • “dão branco” em provas,
  • odeiam determinadas disciplinas.

Exemplo prático

Avaliações surpresa, notas sem devolutiva e exposição pública do erro produzem controle aversivo.

Uma avaliação behaviorista, ao contrário:

  • informa ao professor o que precisa ser ensinado novamente;
  • informa ao aluno o que já domina e o que precisa ajustar;
  • orienta a reorganização das contingências.

Avaliar, aqui, é ensinar de novo — e melhor.

Motivação não é traço interno, é produto do ambiente

Baum desmonta outro mito caro à escola: o da “falta de motivação” como característica pessoal. Na análise do comportamento, motivação é função das condições ambientais e das consequências disponíveis (Baum, Compreender o Behaviorismo).

Se o aluno só encontra punição, fracasso e comparação social, a desmotivação é um resultado esperado — não uma falha moral.

Exemplo prático

– Matemática apresentada apenas como prova e erro.

– Pouco reforço para progresso.

– Alta exposição ao erro público.

Resultado: esquiva.

Solução: reorganizar o ambiente para que aprender seja funcional e reforçador.

O professor como analista do comportamento

A grande contribuição de Baum para a educação talvez seja esta: o professor não precisa ser um “motivador nato” ou um “explicador brilhante”. Ele precisa ser um bom observador das relações entre sua prática e o comportamento dos alunos.

Ensinar, nessa perspectiva, é:

  • definir comportamentos-alvo claros;
  • organizar condições para que eles ocorram;
  • reforçar sistematicamente avanços;
  • ajustar o ambiente quando o aprendizado não acontece.

É ciência aplicada à sala de aula — sem misticismo, sem culpa e sem improviso.

Conclusão: menos discursos, mais contingências eficazes

Compreender o Behaviorismo, de William M. Baum, oferece ao professor algo raro: um mapa conceitual sólido para entender por que certas práticas funcionam — e outras falham repetidamente. Ao deslocar o foco do “aluno ideal” para o ambiente real, o behaviorismo devolve ao professor poder de intervenção e responsabilidade ética.

Ensinar bem não é um dom. É um trabalho técnico, sensível e profundamente humano — quando bem fundamentado.

E, como diria Baum, comportamento muda quando o ambiente muda. A escola também.

FONTE/CRÉDITOS: BAUM, William M. Compreender o Behaviorismo: ciência, comportamento e cultura. Porto Alegre: Artmed, 2006.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira
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Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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