A chegada do verão traz-me sempre Santa Catarina, seja nas boas recordações, seja nas percepções atuais. Amo Florianópolis, onde vivi férias inesquecíveis. Porém meus primeiros contatos com o estado ocorreram em Blumenau e peço licença para abrir minhas crônicas com algumas lembranças.
Meu pai fora um empresário que mantinha negócios com um fabricante de pastilhas e lonas para freios de Blumenau. Visitávamos a cidade com alguma frequência. Eu era jovem e aqueles ares de país estrangeiro me fascinavam na arquitetura, nos modos, na culinária. O contato com as raízes alemãs me ensinou cedo um sentido de organização, decoração primorosa, tratamento cordial. Alguns locais ficaram para sempre na memória : o restaurante Frosin no alto na colina com sua bandinha alemã de alta empolgação, o joelho de porco servido no prato, os olhos azuis dos garçons e fregueses. Havia uma aura de luz aos logos de uma jovem. De lá, ainda passávamos no Zum Weissen Rossel ( ou algo parecido), na época um bar animado de um cavalinho branco para terminar a noite. E era um tal de experimentar vinhos, cervejas e whiskies… estava com meus pais e provar das bebidas na época era um teste de afirmação de crescimento.
E como a vida era iluminada aos 14 anos, havia o fascinante mundo dos cristais Blumenau, com sua loja imensa no centro, repleta de licoreiras, copos, jarras lapidadas a mão nos tons de verde, azul, vermelho… um arco íris reluzente para todos os lados. Jamais sai de lá sem levar algumas peças, que são um tesouro pessoal em minha sala até hoje. Pouco as uso mas admiro-as ainda como pedras preciosas da fabricação e da memória artesanal.
Lendo sobre as enchentes que destroem cidades em Santa Catarina e em todo o país, lembrei-me da residência dos diretores da fábrica que meu pai representava: um morava perto do Centro, na parte baixa próxima ao rio Itajaí-Açu. O outro diretor morava numa casa no alto de uma colina e eram necessárias voltas e voltas íngremes até o alto. O primeiro era chamado de pato pois, devido às enchentes, vivia dias submerso em água de ano em ano. Curioso: sua casa tinha dois andares: o primeiro para os dias normais e o segundo andar para levar os móveis quando chovia. Já os que moram em colinas são chamados de cabritos porque sobem morros 365 dias por ano.
Assim, entre cavalinhos brancos, patos e cabritos, ao som de alegres bandas alemães, conheci Catarina.
Blumenau, tempos depois, salvou-me de um golpe. Conto na próxima crônica. De Blumenau sigo para Floripa, mas essa lembrança será tecida a mão como rendas artesanais.
Folha de Florianópolis
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