A formação de professores atravessa um dos períodos mais complexos de sua história recente. Nunca se falou tanto em inovação pedagógica, currículo e materiais didáticos; nunca, paradoxalmente, o professor esteve tão pressionado por prescrições externas e tão pouco reconhecido como sujeito intelectual do ensino. É nesse contexto que se torna indispensável refletir sobre a relação entre formação docente, uso do material didático e profissionalidade, à luz das contribuições de Francisco Imbernón e das análises contemporâneas sobre as significações docentes atribuídas ao livro didático.
Imbernón parte de um ponto central: a docência já não pode ser concebida como mera transmissão de conhecimentos estáveis. O professor do século XXI atua em um cenário marcado pela incerteza, pela diversidade cultural, por profundas desigualdades sociais e por rápidas transformações no conhecimento. Formar professores, portanto, não significa apenas capacitá-los tecnicamente, mas prepará-los para interpretar contextos, tomar decisões pedagógicas e reconstruir continuamente sua prática.
Essa concepção desloca o foco da formação baseada em receitas para uma formação centrada na reflexão crítica. E é exatamente nesse deslocamento que o material didático passa a ocupar um lugar estratégico — não como substituto da ação docente, mas como mediador de processos formativos e pedagógicos.
O livro didático entre o apoio e a tutela
Análises recentes sobre o uso do livro didático evidenciam um dado recorrente: os professores reconhecem o material como recurso relevante para a organização do trabalho pedagógico, mas, ao mesmo tempo, tendem a utilizá-lo de forma operacional, muitas vezes reduzindo-o a um conjunto de atividades a serem cumpridas. Essa utilização revela menos uma escolha consciente e mais um reflexo da formação recebida.
Quando o professor não dispõe de espaços formativos que problematizem o material didático — suas concepções de ensino, aprendizagem e avaliação — o livro passa a assumir um papel normativo. Ele deixa de ser um instrumento de mediação e se transforma em roteiro fechado, orientando o que ensinar, quando ensinar e como ensinar, independentemente do contexto da turma.
Imbernón alerta que esse processo é sintoma de uma docência fragilizada. A profissionalidade docente se esvazia quando o professor deixa de decidir e passa apenas a executar. Nesse sentido, o uso acrítico do material didático não é uma falha individual do professor, mas uma consequência direta de modelos de formação que desconsideram o caráter intelectual da docência.
Formação docente e sentido pedagógico do material
Ao analisar as significações atribuídas pelos professores ao livro didático, observa-se que muitos o percebem como apoio à prática, mas poucos o reconhecem como objeto de reflexão pedagógica. Isso indica uma lacuna importante: o material didático raramente é tematizado nos processos de formação continuada como elemento central da ação docente.
Imbernón defende que a formação precisa acontecer a partir da escola, ancorada nos problemas reais da prática. Quando o material didático não entra nesse debate, ele passa a ser usado sem questionamento, reforçando práticas tradicionais que contradizem os próprios discursos curriculares contemporâneos.
Perguntas fundamentais deixam de ser feitas:
- Que concepção de aluno esse material pressupõe?
- Que formas de aprender ele privilegia?
- Que possibilidades de adaptação ele oferece ao professor?
Sem esse exercício crítico, o livro didático ensina pouco sobre ensinar e muito sobre obedecer.
Entre a mudança e a autonomia
A grande contribuição do pensamento de Imbernón está em recolocar o professor como profissional autônomo, capaz de investigar sua prática e de tomar decisões pedagógicas fundamentadas. O material didático, nesse horizonte, não perde importância — ao contrário, ganha densidade — desde que seja apropriado criticamente.
Os estudos sobre o uso do livro didático indicam que, quando há formação consistente, o professor o utiliza de forma flexível, articulando-o ao contexto sociocultural dos alunos, promovendo interação, diálogo e construção de sentidos. Quando essa formação não existe, o mesmo material tende a empobrecer a prática pedagógica.
O desafio, portanto, não está em escolher entre usar ou não o livro didático, mas em formar professores capazes de atribuir sentido pedagógico a esse uso.
Formar para decidir
Formar professores em tempos de incerteza, como propõe Imbernón, é formar profissionais capazes de decidir — e não apenas de aplicar orientações. O material didático, quando integrado a processos formativos reflexivos, pode ser um potente aliado da docência. Quando isolado da formação crítica, torna-se apenas mais um mecanismo de controle do trabalho docente.
A qualidade da educação não depende do livro em si, mas da formação de quem o utiliza. E essa é, talvez, a lição mais incômoda — e mais necessária — para os sistemas educacionais contemporâneos.
Folha de Florianópolis
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