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Segunda-feira, 08 de Junho 2026
Gestão escolar: quando dados deixam de ser números e viram aprendizagem

Coluna do Laôr
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Gestão escolar: quando dados deixam de ser números e viram aprendizagem

À luz da Análise do Comportamento, transformar dados em aprendizagem exige menos heroísmo e mais desenho inteligente de contingências. A boa notícia? Isso está ao alcance de qualquer escola.

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Durante muito tempo, falar em dados educacionais foi quase um sinônimo de planilhas frias, relatórios extensos e reuniões que terminavam com aquela frase clássica: “precisamos melhorar os resultados”. A pandemia escancarou o problema. Os dados estavam lá — frequência, avaliações diagnósticas, defasagens, evasão —, mas a aprendizagem real dos estudantes continuava escapando por entre os dedos.

O artigo “Gestão Escolar: Transformando Dados em Aprendizagens”, de Luís Fernando Lopes, diretor do SESI de Álvares Machado (SP), toca exatamente nesse ponto sensível: dados não ensinam ninguém sozinhos. Quem ensina — ou deixa de ensinar — são as decisões que a gestão toma a partir deles.

E aqui entra uma lente poderosa, ainda pouco explorada na gestão escolar brasileira: a Análise do Comportamento.

Dados não mudam comportamentos. Contingências, sim.

Na perspectiva da Análise do Comportamento, inspirada em autores como B. F. Skinner, comportamento muda quando mudam as contingências — isto é, as relações entre o que as pessoas fazem, em que contexto fazem e o que acontece depois.

Traduzindo isso para a escola:

não adianta saber que os alunos erram frações se o erro continua sendo seguido por punição simbólica (nota baixa, exposição, rótulo) ou por nenhuma consequência pedagógica clara.

O artigo de Lopes é certeiro ao mostrar que a liderança escolar precisa assumir o papel de designer de ambientes. Dados servem para responder perguntas práticas como:

  • O que exatamente os alunos estão fazendo quando “não aprendem”?
  • Em quais condições o erro aparece?
  • O que professores e estudantes recebem como consequência quando tentam algo novo?

Sem essas perguntas, o dado vira só estatística. Com elas, vira ferramenta de intervenção.

Pós-pandemia: o problema não é só conteúdo, é história de reforçamento.

A pandemia não criou as dificuldades de aprendizagem — ela intensificou histórias de fracasso já em curso. Muitos estudantes voltaram à escola com repertórios fragilizados e, pior, com uma longa história de contato com o erro sem apoio adequado.

Do ponto de vista comportamental, isso explica fenômenos que gestores reconhecem bem:

  • desmotivação;
  • esquiva de tarefas acadêmicas;
  • resistência às avaliações;
  • ansiedade frente a disciplinas como matemática e língua portuguesa.

O artigo mostra que uma gestão sensível entende que esses comportamentos não são “falta de vontade”, mas respostas aprendidas. E resposta aprendida se modifica com novas contingências, não com discursos motivacionais.

O papel estratégico do gestor: menos controle, mais programação.

Um dos méritos centrais do texto é recolocar o gestor escolar no lugar certo:

não como fiscal de resultados, mas como articulador de práticas pedagógicas baseadas em evidências.

Isso implica decisões simples — e poderosas:

  • usar dados diagnósticos para programar ensino, não para classificar alunos;
  • apoiar professores na análise do erro como informação pedagógica;
  • criar rotinas de acompanhamento em que o avanço, mesmo pequeno, seja reconhecido;
  • alinhar avaliação, planejamento e formação docente em torno da aprendizagem real.

Na linguagem da Análise do Comportamento: trata-se de reforçar práticas eficazes, e não apenas cobrar resultados finais.

Simplicidade que gera resultado (e menos sofrimento).

Talvez a maior contribuição do artigo seja sua defesa implícita da simplicidade. Não se trata de implantar sistemas complexos ou modismos importados. Trata-se de fazer bem o básico:

  • observar com atenção;
  • decidir com base em evidências;
  • ajustar práticas continuamente.

Quando dados passam a orientar como ensinar — e não apenas o quanto foi aprendido —, a escola deixa de correr atrás do prejuízo e passa a construir trajetórias de sucesso.

É gestão com sensibilidade, ciência e chão de escola.

E, convenhamos, depois de tudo o que vivemos, isso não é pouco.

FONTE/CRÉDITOS: LOPES, Luís Fernando. Gestão escolar: transformando dados em aprendizagens. School Management: Turning Data into Learning. Diretor de escola SESI – Álvares Machado/SP, 2024.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira
Comentários:
Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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