Durante muito tempo, falar em dados educacionais foi quase um sinônimo de planilhas frias, relatórios extensos e reuniões que terminavam com aquela frase clássica: “precisamos melhorar os resultados”. A pandemia escancarou o problema. Os dados estavam lá — frequência, avaliações diagnósticas, defasagens, evasão —, mas a aprendizagem real dos estudantes continuava escapando por entre os dedos.
O artigo “Gestão Escolar: Transformando Dados em Aprendizagens”, de Luís Fernando Lopes, diretor do SESI de Álvares Machado (SP), toca exatamente nesse ponto sensível: dados não ensinam ninguém sozinhos. Quem ensina — ou deixa de ensinar — são as decisões que a gestão toma a partir deles.
E aqui entra uma lente poderosa, ainda pouco explorada na gestão escolar brasileira: a Análise do Comportamento.
Dados não mudam comportamentos. Contingências, sim.
Na perspectiva da Análise do Comportamento, inspirada em autores como B. F. Skinner, comportamento muda quando mudam as contingências — isto é, as relações entre o que as pessoas fazem, em que contexto fazem e o que acontece depois.
Traduzindo isso para a escola:
não adianta saber que os alunos erram frações se o erro continua sendo seguido por punição simbólica (nota baixa, exposição, rótulo) ou por nenhuma consequência pedagógica clara.
O artigo de Lopes é certeiro ao mostrar que a liderança escolar precisa assumir o papel de designer de ambientes. Dados servem para responder perguntas práticas como:
- O que exatamente os alunos estão fazendo quando “não aprendem”?
- Em quais condições o erro aparece?
- O que professores e estudantes recebem como consequência quando tentam algo novo?
Sem essas perguntas, o dado vira só estatística. Com elas, vira ferramenta de intervenção.
Pós-pandemia: o problema não é só conteúdo, é história de reforçamento.
A pandemia não criou as dificuldades de aprendizagem — ela intensificou histórias de fracasso já em curso. Muitos estudantes voltaram à escola com repertórios fragilizados e, pior, com uma longa história de contato com o erro sem apoio adequado.
Do ponto de vista comportamental, isso explica fenômenos que gestores reconhecem bem:
- desmotivação;
- esquiva de tarefas acadêmicas;
- resistência às avaliações;
- ansiedade frente a disciplinas como matemática e língua portuguesa.
O artigo mostra que uma gestão sensível entende que esses comportamentos não são “falta de vontade”, mas respostas aprendidas. E resposta aprendida se modifica com novas contingências, não com discursos motivacionais.
O papel estratégico do gestor: menos controle, mais programação.
Um dos méritos centrais do texto é recolocar o gestor escolar no lugar certo:
não como fiscal de resultados, mas como articulador de práticas pedagógicas baseadas em evidências.
Isso implica decisões simples — e poderosas:
- usar dados diagnósticos para programar ensino, não para classificar alunos;
- apoiar professores na análise do erro como informação pedagógica;
- criar rotinas de acompanhamento em que o avanço, mesmo pequeno, seja reconhecido;
- alinhar avaliação, planejamento e formação docente em torno da aprendizagem real.
Na linguagem da Análise do Comportamento: trata-se de reforçar práticas eficazes, e não apenas cobrar resultados finais.
Simplicidade que gera resultado (e menos sofrimento).
Talvez a maior contribuição do artigo seja sua defesa implícita da simplicidade. Não se trata de implantar sistemas complexos ou modismos importados. Trata-se de fazer bem o básico:
- observar com atenção;
- decidir com base em evidências;
- ajustar práticas continuamente.
Quando dados passam a orientar como ensinar — e não apenas o quanto foi aprendido —, a escola deixa de correr atrás do prejuízo e passa a construir trajetórias de sucesso.
É gestão com sensibilidade, ciência e chão de escola.
E, convenhamos, depois de tudo o que vivemos, isso não é pouco.
Folha de Florianópolis
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