Aguarde, carregando...

Domingo, 18 de Outubro 2026
Menos horas, mais preços: a conta do fim da escala 6x1
Coluna da Jaqueline Metzner

Menos horas, mais preços: a conta do fim da escala 6x1

A emenda garante o salário e deixa os preços livres: quem paga o domingo extra?

Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

O Senado aprovou por 75 votos a 1 a emenda que acaba com a escala 6x1, e o Congresso promulgou o texto na sexta-feira 16. São 14,8 milhões de trabalhadores formais diretamente alcançados, segundo o Ministério do Trabalho, com dois dias de folga por semana e salário garantido em lei. A medida virou festa nas redes e consenso no plenário, com governo e oposição disputando quem aplaude mais forte. Falta uma voz nesse coro: a do caixa do supermercado, do vestuário, dos serviços.

O teto semanal cai de 44 para 40 horas, uma redução de mais de 10% no tempo de trabalho, com o salário integral preservado. Se a produção não aumentar na mesma proporção, o custo de cada item se eleva, tornando natural o encarecimento dos produtos. Esse efeito cascata se acumula à medida que cada setor enfrenta o mesmo dilema, já que o aumento do custo impacta diretamente a formação do preço final. As estimativas sobre esse impacto divergem no tamanho, mas não no sinal. A CNC, que representa o comércio e os serviços, calcula uma folha salarial 21% mais cara e um repasse de até 13% aos preços. Já a CNI projeta uma alta média de 6,2% na inflação e uma perda de R$ 76 bilhões no PIB. Até mesmo o Ipea, vinculado ao governo, admite um custo extra de trabalho de 7,8% na média, chegando a 10% nos setores mais afetados. Quando otimistas e pessimistas concordam que o preço vai subir, a discussão passa a ser sobre o tamanho da fatura, e não sobre a sua existência.

m

A armadilha está no que a lei congela e nos impactos que ela deixa. O salário nominal fica travado pela Constituição; os preços seguem livres. Se o repasse ficar entre os 6,2% da CNI e os 13% da CNC, o trabalhador ganha um dia de descanso e perde, em poder de compra, uma fatia do salário que a emenda acabou de garantir. O domingo extra será pago no mercado e no almoço de domingo. O Ipea rebate que o impacto no custo total fica entre 1% e 6,6%, e que o empresário pode absorver a diferença na margem de lucro. Pode. A pergunta é por que faria isso em setores que operam com margens estreitas, como alimentação, comércio e vigilância, justamente os mais expostos à nova regra.

O estudo do Ipea lembra que a Constituição de 1988 reduziu a semana de 48 para 44 horas sem dano ao emprego, e que aumentos reais do salário mínimo não geraram desemprego. Mas agora é outro contexto. A pesquisadora Marilane Teixeira, da Unicamp, sustenta que as projeções empresariais são alarmistas e que o debate é político. Tudo isso é verdade e ainda assim não fecha a conta. A economia de 1988 era fechada e convivia com inflação elevadíssima, absorvendo custos de outro jeito. Hoje, a produtividade brasileira está estagnada há anos; apostar que ela vai saltar por mero decreto é um ato de fé, desprovido de embasamento técnico.

Os setores que trabalham em 6x1 são de impacto na vida de toda a população: transporte aéreo, alojamento, alimentação e comércio têm quase metade dos profissionais nessa escala. Ali, o tempo na cadeira é parte do produto. E o próprio Ipea admite que empresas com até nove funcionários, que empregam um quarto dos assalariados formais, podem precisar de apoio estatal para se adaptar. Quando o estudo do governo pede socorro para o pequeno negócio, o custo muda de endereço e vira gasto público.

O trabalhador merece o descanso a mais. Merece também saber quem paga por ele, ou se ele mesmo irá pagar a conta na gôndola. Quando a lei trava o salário e solta os preços, a folga é financiada pelo próprio trabalhador, toda semana, na hora de comprar o que precisa. Chamar isso de conquista é fácil. Explicar a conta da inflação no próximo ano é que vai dar trabalho.

FONTE/CRÉDITOS: Eliane Jaqueline D. Metzner
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Gerado com IA

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
Eliane Jaqueline D. Metzner

Publicado por:

Eliane Jaqueline D. Metzner

Eliane Jaqueline Metzner é planejadora financeira e possui a certificação CFP®, concedida pela Planejar. Mentora organizacional, educadora financeira, escritora de finanças pessoais e formadora de gerentes no mercado financeiro.

Saiba Mais

/Dê sua opinião

De onde você acessa o Portal Folha de Florianópolis? (Where do you access the Folha de Florianópolis Portal from?)

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do Folha de Florianópolis no seu app favorito de mensagens.

Whatsapp
Entrar
Folha de Florianópolis ( sua empresa aqui)
Folha de Florianópolis (Sua empresa aqui)

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Folha de Florianópolis
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )