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Sexta-feira, 09 de Outubro 2026
O futuro do varejo passa pela centralização das operações
Coluna de Natanael Lima

O futuro do varejo passa pela centralização das operações

Grandes e pequenas redes varejistas estão transformando suas operações com tecnologia, inteligência artificial e gestão centralizada para reduzir custos, aumentar a eficiência e melhorar a segurança.

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O fim das centrais de monitoramento em cada loja: por que o varejo está mudando esse jogo?

 

Com perdas bilionárias, margens pressionadas e dificuldade para contratar profissionais, redes supermercadistas estão repensando a maneira de proteger suas operações. E a centralização do monitoramento tem muito mais a oferecer do que simplesmente reduzir custos.

O varejo brasileiro convive com um desafio que parece não ter fim: vender mais, operar com margens cada vez mais apertadas e, ao mesmo tempo, enfrentar o crescimento das perdas, fraudes e furtos.

Os números ajudam a entender o tamanho desse problema. Segundo a Pesquisa Nacional de Prevenção de Perdas, divulgada pela ABRAPPE, o índice médio de perdas no varejo passou de 1,51% para 1,65%, representando mais de R$ 42 bilhões. Quando olhamos especificamente para o varejo alimentar, a situação é ainda mais preocupante. Nos supermercados convencionais, por exemplo, o índice chegou a 2,5%.

Para colocar isso em perspectiva, imagine um supermercado que fatura R$ 100 milhões por ano. Aplicando esse percentual, estamos falando de R$ 2,5 milhões em perdas anuais. Dinheiro que poderia estar sendo investido em expansão, tecnologia, pessoas ou simplesmente contribuindo para melhorar a rentabilidade do negócio.

E vale lembrar que as perdas não acontecem apenas por furtos. Elas também envolvem falhas operacionais, erros de processos, fraudes e desvios que muitas vezes passam despercebidos pela gestão.

Diante desse cenário, uma transformação vem ganhando força nas redes supermercadistas: a centralização do monitoramento de segurança.

Mas por que tantas empresas estão seguindo esse caminho?

O modelo tradicional já não acompanha as necessidades do varejo

Durante muitos anos, o padrão foi relativamente simples. Cada loja possuía sua própria estrutura de segurança, com operadores acompanhando diversas câmeras distribuídas em vários monitores.

O problema é que manter uma pessoa observando dezenas de imagens durante horas não significa necessariamente ter uma operação eficiente.

Na prática, grande parte desse monitoramento acaba sendo reativa. Quando acontece um furto, uma fraude ou algum incidente mais grave, começa a busca pelas gravações para tentar entender o que aconteceu.

E é justamente nesse momento que surge outro problema bastante comum: descobrir que a imagem não foi gravada, que uma câmera estava inoperante ou que o sistema apresentou alguma falha sem que ninguém percebesse.

Imagine uma ocorrência grave, envolvendo um crime ou uma situação que ganhe repercussão pública, e a empresa descobrir que não possui as imagens necessárias para esclarecer os fatos. Além do prejuízo operacional, existe um risco enorme para a reputação de uma marca construída ao longo de décadas.

Em outras situações, as gravações até existem, mas localizar um determinado trecho leva horas ou dias, seja pela limitação do software, pela baixa qualidade das imagens ou pela falta de manutenção dos equipamentos.

É por isso que segurança não pode mais ser tratada apenas como instalação de câmeras e acompanhamento de monitores. Estamos falando de gestão, disponibilidade, inteligência e capacidade de resposta.

O furto não termina necessariamente na primeira ocorrência

Outro desafio recorrente no varejo é a reincidência de furtos.

Quem já conseguiu furtar determinada loja sem ser identificado pode voltar a agir no mesmo estabelecimento ou até em outras unidades da rede. Muitas vezes, essas pessoas já conhecem a dinâmica da operação, os horários de maior movimento e as vulnerabilidades da segurança.

Quando cada loja possui um sistema independente, essas informações ficam isoladas. Uma ocorrência identificada em determinada unidade pode não chegar ao conhecimento das demais.

Com uma plataforma centralizada, esse cenário muda. A rede passa a compartilhar informações de segurança, acompanhar ocorrências e utilizar recursos de inteligência artificial para identificar situações suspeitas e gerar alertas preventivos.

O reconhecimento facial, quando utilizado com critérios adequados de segurança, privacidade e conformidade com a legislação, também pode contribuir para esse processo.

O grande diferencial está na capacidade de transformar informações isoladas em inteligência para toda a operação.

E os furtos internos? Quem está olhando para eles?

Quando falamos em perdas, é natural que a primeira preocupação seja o furto cometido por clientes. Mas existe outro problema que merece a mesma atenção: os desvios internos.

Furtos envolvendo colaboradores, fraudes operacionais e até situações de conluio entre pessoas de dentro e de fora da empresa fazem parte dos desafios enfrentados pelas equipes de prevenção de perdas.

Nesse contexto, manter toda a estrutura de monitoramento sob responsabilidade exclusiva da própria loja pode trazer vulnerabilidades adicionais.

A proximidade entre operadores de segurança e colaboradores da unidade, embora não represente necessariamente um problema, pode facilitar conflitos de interesse e dificultar a identificação de determinadas irregularidades.

A centralização permite uma atuação mais independente, com procedimentos padronizados, maior rastreabilidade e uma visão corporativa das ocorrências.

Não se trata de desconfiar das equipes, mas de construir processos mais seguros, transparentes e menos dependentes de relações locais.

A conta que muitos não colocam na ponta do lápis

Além da eficiência operacional, existe um fator que costuma chamar bastante atenção quando apresentamos esse modelo às redes varejistas: o custo da operação.

Vamos considerar um exemplo relativamente conservador de uma rede com 30 supermercados.

Se cada unidade possui três operadores de monitoramento, distribuídos entre os turnos, estamos falando de 90 profissionais.

Considerando um custo médio mensal de R$ 6 mil por colaborador, incluindo salários, encargos e demais despesas trabalhistas, chegamos a uma conta expressiva.

R$ 540 mil por mês, ou aproximadamente R$ 6,5 milhões por ano, somente com a equipe de monitoramento.

Agora imagine essa mesma rede operando com uma central única, utilizando software de gestão, inteligência artificial, automação de alertas e procedimentos padronizados.

Dependendo das características da operação, das responsabilidades da equipe e do nível de automação, é possível trabalhar com uma estrutura significativamente mais enxuta.

Em um cenário ilustrativo de redução de 90 para 30 operadores, o custo anual de pessoal cairia de aproximadamente R$ 6,5 milhões para R$ 2,2 milhões.

Estamos falando de uma economia potencial superior a R$ 4 milhões por ano, considerando apenas despesas com pessoal e sem descontar os custos de implantação e manutenção da central.

É importante destacar que esses números representam uma simulação. Cada rede possui particularidades que precisam ser avaliadas, como horários de funcionamento, protocolos de segurança, quantidade de câmeras e atividades atribuídas aos operadores.

Ainda assim, o exemplo mostra o tamanho da oportunidade.

E essa discussão ganha ainda mais relevância quando consideramos outro problema enfrentado pelo varejo brasileiro: a dificuldade de contratar e reter mão de obra.

A centralização não elimina a necessidade de pessoas. Ela permite que profissionais sejam direcionados para atividades de maior valor, deixando tarefas repetitivas e determinados processos de monitoramento sob responsabilidade da tecnologia.

 

 

A verdadeira transformação vai muito além da redução de custos

Embora a economia seja um dos principais atrativos, limitar a centralização a uma simples redução de despesas seria ignorar seus maiores benefícios.

Com uma plataforma adequada, a empresa passa a ter uma visão completa da infraestrutura de segurança de todas as unidades.

É possível identificar preventivamente um gravador que deixou de armazenar imagens, um HD que apresenta falhas, uma câmera inoperante ou um equipamento que precisa de atualização.

Parece simples, mas pense na diferença entre descobrir uma falha antes de um incidente e perceber o problema somente depois de precisar da gravação.

Também existe uma mudança importante na manutenção. Em vez de acionar técnicos emergencialmente após uma falha, a empresa consegue planejar intervenções, reduzir deslocamentos desnecessários e evitar custos adicionais.

Outro benefício está na velocidade das investigações. Com informações concentradas em uma única plataforma, a equipe pode pesquisar ocorrências, cruzar dados e consultar imagens de diferentes lojas com muito mais agilidade.

E quando adicionamos inteligência artificial a essa estrutura, ampliamos ainda mais as possibilidades, com alertas automáticos, identificação de comportamentos suspeitos, análise de filas, integração com pontos de venda e outras aplicações voltadas à prevenção de perdas e à eficiência operacional.

A segurança deixa de atuar apenas depois do problema e passa a contribuir para evitá-lo.

O que começa a aparecer depois da centralização do monitoramento?

Um dos relatos mais interessantes que ouvimos de varejistas após a centralização é justamente sobre aquilo que antes não era percebido.

Situações classificadas como simples erros operacionais começam a revelar falhas de processos. Desvios antes tratados como perdas desconhecidas passam a ser investigados com mais precisão. Em alguns casos, irregularidades envolvendo colaboradores também são identificadas, permitindo que a empresa adote as medidas cabíveis.

Isso acontece porque a centralização não entrega apenas imagens. Ela proporciona visibilidade sobre a operação.

E quanto maior a capacidade de enxergar o que acontece dentro das lojas, melhores são as condições para corrigir processos, orientar equipes e tomar decisões.

Tecnologia barata nem sempre representa economia

Existe, porém, um cuidado indispensável nessa transformação: a escolha da tecnologia.

O software de gerenciamento de gravações será o coração da operação. É ele que vai integrar dispositivos, gerenciar informações, disponibilizar imagens, gerar alertas e permitir que a estrutura funcione de maneira coordenada.

Por isso, escolher uma plataforma olhando apenas para o menor preço pode comprometer todo o projeto.

É fundamental avaliar a capacidade do fabricante, a estabilidade da solução, a segurança das informações, as possibilidades de integração, o suporte técnico e a preparação dos parceiros envolvidos.

Também é necessário planejar cuidadosamente a transição, garantindo que a mudança de modelo não comprometa a continuidade da operação.

O investimento precisa ser analisado pelo custo total da operação e, principalmente, pelo retorno que será capaz de entregar ao longo dos anos.

O futuro da segurança no varejo já começou

Grandes redes supermercadistas já estão avançando na centralização do monitoramento, e esse movimento também vem ganhando força entre as redes menores e regionais. Independentemente do porte da empresa, o varejo está percebendo que centralizar a segurança deixou de ser apenas uma tendência e passou a ser uma estratégia para reduzir perdas, melhorar processos e aumentar a eficiência operacional.

O ponto principal é entender que centralizar não significa apenas reunir câmeras e operadores em uma única sala. Significa integrar informações, padronizar procedimentos, antecipar riscos e transformar a segurança em uma ferramenta estratégica de gestão.

Durante muito tempo, o varejo investiu em câmeras para descobrir o que aconteceu depois que o prejuízo já estava feito. Hoje, a tecnologia permite ir muito além.

A pergunta que fica para o varejista não é mais quantas câmeras ele possui ou quantas pessoas estão olhando para os monitores. É quanto sua operação consegue prevenir, identificar e resolver com a estrutura que já tem.

Porque, no fim das contas, o melhor sistema de segurança não é aquele que mostra como a perda aconteceu, mas aquele que ajuda a evitar que ela aconteça.

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Natanael Lima

Publicado por:

Natanael Lima

Natanael é Gerente de Desenvolvimento de Negócios e especialista em soluções para varejo e operações logísticas.

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