Outubro Rosa: o câncer do corpo e o câncer da sociedade
Por Fatima Rozz | Mentora das Emoções | Reprogramação Emocional| Expansão da Consciência | Palestrante.
Neste Outubro Rosa, quero convidar você a olhar para o câncer por uma perspectiva que vai além do diagnóstico, dos exames e dos tratamentos. Quero propor uma reflexão sobre algo que muitas vezes deixamos em segundo plano: a relação entre o corpo, as emoções e a maneira como vivemos.
O câncer é uma doença complexa, que surge de alterações nas células e envolve múltiplos fatores, como predisposição genética, envelhecimento, exposições ambientais, hábitos de vida e outros elementos biológicos. Não existe uma única explicação para todos os casos, e as pesquisas ainda investigam como os diferentes fatores interagem no desenvolvimento e na evolução da doença.
Por isso, é importante deixar algo claro: sentir raiva, tristeza, medo ou mágoa não significa que uma pessoa desenvolverá câncer. Da mesma forma, ninguém deve se sentir culpado por ter adoecido, como se suas emoções fossem responsáveis pela doença. O câncer não é um castigo, uma falha emocional ou uma consequência comprovada da falta de perdão.
Mas reconhecer isso não significa ignorar a importância das emoções na nossa saúde.
O que acontece no corpo quando vivemos sob estresse constante?
Nosso organismo possui mecanismos naturais para responder aos desafios. Quando enfrentamos uma situação de perigo, pressão ou preocupação, o cérebro ativa sistemas que preparam o corpo para reagir. O coração pode acelerar, a respiração mudar, os músculos ficarem tensos e determinadas substâncias serem liberadas na corrente sanguínea.
Entre elas estão o cortisol, a adrenalina e a noradrenalina.
O cortisol é um hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais. Ele participa da regulação do metabolismo, da pressão arterial, da resposta inflamatória e da adaptação do organismo ao estresse. A adrenalina e a noradrenalina ajudam a preparar o corpo para agir diante de situações exigentes.
Essas substâncias não são inimigas da saúde. Elas são necessárias para a nossa sobrevivência. O problema pode surgir quando os mecanismos de alerta permanecem ativados de maneira frequente ou prolongada, sem tempo suficiente para recuperação.
O estresse crônico pode estar associado a alterações no sono, aumento da pressão arterial, dificuldades digestivas, mudanças no metabolismo e alterações na regulação do sistema imunológico. Também pode contribuir para a ansiedade, a exaustão e a adoção de hábitos prejudiciais à saúde.
Além disso, pesquisas em laboratório investigam como os hormônios do estresse e determinadas respostas inflamatórias podem influenciar o comportamento de algumas células tumorais. Entretanto, resultados experimentais não significam que o estresse cause necessariamente câncer ou que reduzir o estresse impeça o seu desenvolvimento.
A relação entre estresse e câncer em seres humanos continua sendo estudada, e as evidências ainda não permitem afirmar que o estresse emocional seja uma causa direta comprovada da doença.
Essa distinção é fundamental. Precisamos falar sobre o que a ciência já conhece, sem deixar de investigar aquilo que ainda está sendo descoberto.
E o que acontece quando o corpo encontra momentos de tranquilidade?
Quando desaceleramos, descansamos adequadamente, respiramos com mais calma e encontramos maneiras saudáveis de lidar com as dificuldades, podemos favorecer a regulação do sistema nervoso e reduzir a ativação excessiva das respostas ao estresse.
O organismo passa a ter melhores oportunidades de recuperar seu equilíbrio fisiológico. O sono pode melhorar, a tensão muscular diminuir e a ansiedade se tornar mais administrável.
Nesse processo, diferentes substâncias participam do funcionamento do corpo e do cérebro.
A serotonina é um neurotransmissor envolvido na regulação do humor, do sono e do apetite. A dopamina participa da motivação, da aprendizagem, da atenção e da sensação de recompensa. As endorfinas são substâncias produzidas pelo organismo que atuam na modulação da dor e podem contribuir para sensações de bem-estar. A ocitocina participa de processos relacionados aos vínculos sociais, ao contato afetivo e a determinadas respostas ao estresse.
Essas substâncias são frequentemente chamadas, de maneira popular, de “hormônios da felicidade”. Porém, essa expressão é uma simplificação: nem todas são hormônios, e nenhuma delas, isoladamente, determina se uma pessoa será feliz ou saudável.
O importante é compreender que nosso bem-estar depende de uma rede complexa de processos biológicos, emocionais, sociais e comportamentais.
Não precisamos viver felizes o tempo todo. Precisamos ter condições de sentir, reconhecer e atravessar as diferentes emoções sem permanecer constantemente em estado de sofrimento.
As emoções podem ajudar durante o tratamento do câncer?
Sim, o cuidado emocional pode ter um papel importante durante o tratamento, principalmente na qualidade de vida, no enfrentamento do diagnóstico e na capacidade de lidar com as dificuldades que surgem ao longo do caminho.
Receber um diagnóstico de câncer pode despertar medo, insegurança, raiva, tristeza e preocupação com o futuro. A pessoa pode enfrentar mudanças na rotina, no corpo, nos relacionamentos, no trabalho e na vida financeira.
Nesse momento, oferecer apoio emocional não é um detalhe. É uma forma de cuidado.
A psicoterapia, o acolhimento familiar, os grupos de apoio, as práticas de relaxamento e a meditação podem ajudar a reduzir a angústia e a ansiedade. Quando necessário, o acompanhamento psicológico e psiquiátrico também pode fazer parte do cuidado integral.
A literatura científica investiga, ainda, como o estresse prolongado, os hormônios relacionados a ele e os mecanismos imunológicos podem se relacionar com a progressão de determinados tumores. Existem resultados promissores em pesquisas experimentais, mas ainda não há evidências suficientes para afirmar que o equilíbrio emocional, por si só, impeça a progressão do câncer, aumente a sobrevida ou substitua qualquer tratamento oncológico.
Portanto, cuidar das emoções não significa prometer cura. Significa reconhecer que a pessoa precisa ser cuidada por inteiro, e não apenas por meio de seus exames e sintomas físicos.
O tratamento médico adequado continua sendo indispensável. O acompanhamento emocional pode complementar, nunca substituí-lo.
O câncer do corpo e o câncer da sociedade
Mas, quando escolhi o título desta reflexão, também pensei em outro tipo de adoecimento: aquele que se manifesta nas relações humanas.
Vivemos em uma sociedade que frequentemente valoriza a produtividade acima do descanso, a aparência acima da essência e a competição acima da colaboração. Em muitos ambientes, as pessoas sentem que precisam demonstrar força o tempo inteiro, esconder suas fragilidades e alcançar resultados a qualquer custo.
Vejo um adoecimento nas rivalidades desnecessárias, nas mentiras, na inveja transformada em perseguição, na falta de empatia e na necessidade de diminuir o outro para se sentir maior.
Esse é o câncer da sociedade ao qual me refiro: uma metáfora para os comportamentos que corroem a confiança, destroem vínculos e enfraquecem a convivência humana.
Não estou comparando essas atitudes a uma doença oncológica real, mas chamando a atenção para algo que também precisa de cuidado: a maneira como nos tratamos.
Quantas pessoas sorriem em público e sofrem em silêncio? Quantas carregam ressentimentos durante anos? Quantas se acostumaram a viver em alerta, com medo de desagradar, perder, falhar ou não serem suficientes?
E quantas confundem sucesso com exaustão, como se descansar fosse sinal de fraqueza?
Precisamos rever essa cultura. Uma sociedade mais saudável começa quando aprendemos a respeitar os limites, reconhecer os próprios erros, estabelecer relações honestas e compreender que ninguém precisa destruir o outro para crescer.
Perdoar também pode ser um caminho de liberdade
Falar de emoções é falar de sentimentos que nem sempre são agradáveis. Raiva, medo, tristeza, ciúme e frustração fazem parte da experiência humana. Nenhuma emoção precisa ser tratada como inimiga.
A questão é o que fazemos com aquilo que sentimos.
A raiva pode nos mostrar que um limite foi ultrapassado. O medo pode nos alertar para um risco. A tristeza pode revelar uma perda que precisa ser elaborada. A frustração pode nos ajudar a rever expectativas e escolhas.
O problema não é sentir. É não encontrar recursos para compreender o que sentimos e decidir como agir.
O perdão também merece uma reflexão cuidadosa. Perdoar não significa justificar abusos, esquecer o que aconteceu, retomar uma relação prejudicial ou abrir mão dos próprios limites. Em alguns momentos, o primeiro passo é reconhecer a dor e proteger a si mesmo.
E existe um perdão particularmente difícil: o perdão a nós mesmos.
Perdoar-se por escolhas passadas, reconhecer que fizemos o melhor que conseguimos com os recursos que tínhamos e aprender com nossos erros pode abrir espaço para uma relação mais respeitosa conosco.
Não precisamos transformar toda dor em algo positivo. Algumas experiências simplesmente doem. O que podemos fazer é buscar apoio, elaborar o que aconteceu e construir maneiras mais saudáveis de seguir em frente.
Desacelerar também é uma escolha de saúde
Acredito que precisamos reaprender a descansar sem culpa, respirar sem pressa e compreender que nosso valor não está condicionado à quantidade de tarefas que conseguimos realizar.
Dormir bem, movimentar o corpo conforme nossas possibilidades, alimentar-se adequadamente, manter vínculos afetivos saudáveis, reservar momentos de tranquilidade e procurar ajuda quando necessário são atitudes que favorecem a saúde e o bem-estar.
A meditação e os exercícios de respiração podem ajudar algumas pessoas a lidar melhor com o estresse. A psicoterapia pode oferecer recursos para compreender padrões emocionais e modificar comportamentos. O acompanhamento médico permite investigar sintomas, prevenir doenças quando possível e tratar adequadamente os problemas de saúde.
Não existe uma única prática capaz de resolver tudo. O cuidado precisa respeitar a história, as necessidades e os limites de cada pessoa.
Foi a partir dessa visão que desenvolvi a Mentoria ROZZ e o trabalho Os Sete Segredos do Equilíbrio das Emoções e do Corpo. Minha proposta é contribuir para que as pessoas compreendam melhor suas emoções, desenvolvam mais consciência sobre seus comportamentos e encontrem formas mais equilibradas de lidar com os desafios da vida.
Como mentora das emoções, acredito que o autoconhecimento pode nos ajudar a fazer escolhas mais conscientes, estabelecer limites, melhorar nossas relações e reconhecer quando precisamos de apoio especializado.
Não prometo que o equilíbrio emocional impeça doenças, nem que uma técnica emocional cure o câncer. Defendo algo que considero igualmente importante: o direito de cada pessoa receber cuidado integral, com responsabilidade, respeito e dignidade.
Neste Outubro Rosa, que o cuidado vá além de uma campanha
O Outubro Rosa nos lembra da importância da conscientização, da prevenção, da avaliação médica e do diagnóstico oportuno do câncer de mama.
Mas também pode nos convidar a olhar com mais atenção para a pessoa que existe por trás de cada diagnóstico, para os medos que nem sempre são verbalizados e para a importância de oferecer presença, escuta e apoio.
Que possamos cuidar do corpo sem esquecer as emoções, acolher as emoções sem negligenciar o corpo e compreender que a saúde envolve muito mais do que a ausência de uma doença.
Que possamos substituir a rivalidade pela colaboração, o julgamento pela escuta e a indiferença pelo respeito.
A vida não exige que sejamos fortes o tempo inteiro. Ela também precisa de pausas, acolhimento, vínculos e humanidade.
Cuidar de si não é egoísmo. Cuidar das emoções não é fraqueza. E cuidar uns dos outros é uma responsabilidade que transforma a sociedade.
Neste Outubro Rosa, meu convite é simples: cuide do seu corpo, respeite suas emoções, procure ajuda quando precisar e não deixe para amanhã o cuidado que você merece hoje.
Folha de Florianópolis
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