Ninguém nos ensina a nos despedir em paz.
No Dia de Finados, uma reflexão sobre a morte, e o medo da perda e a importância da educação emocional para atravessar o luto sem deixar de viver.
Por Fatima Rozz
Mentora das Emoções | Reprogramação Emocional | Expansão da Consciência
O dia 2 de novembro foi uma data delicada para muitas pessoas. O Dia de Finados nos convida a recordar aqueles que partiram, visitar túmulos, reviver lembranças e sentir a saudade de quem já não está fisicamente ao nosso lado. Para alguns, é um momento de profunda tristeza; para outros, também é uma oportunidade de celebrar as memórias, reconhecer o amor vivido e agradecer pela história compartilhada.
Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: quem nos ensinou a lidar com a morte e com a partida de alguém que amamos?
Sabemos que a morte faz parte da vida. Desde cedo, descobrimos que as pessoas nascem, crescem, envelhecem e um dia partem. Entretanto, conhecer essa realidade não significa estar emocionalmente preparado para enfrentar.
Como reagir quando recebemos a notícia de que alguém querido morreu? Como acolher o choque, a angústia e a sensação de que o mundo parou? Como atravessar os primeiros dias sem conseguir compreender o que aconteceu? E como continuar vivendo quando a ausência parece ocupar todos os espaços?
Em situações de sofrimento intenso, algumas pessoas podem apresentar crises de ansiedade, desmaios ou outras reações físicas que exigem atenção e, em determinados casos, atendimento médico. A perda pode nos atingir de maneiras que nunca imaginamos. Mesmo quando uma doença já anuncia uma despedida próxima, aceitar emocionalmente a partida de alguém que amamos continua sendo um desafio.
A morte é uma das poucas certezas da existência humana. Não sabemos quando, como ou em quais circunstâncias ela chegará. Ainda assim, passamos boa parte da vida convivendo com o medo de que esse momento aconteça.
Temos medo de perder nossos pais, nossos filhos, nossos companheiros, nossos amigos. Também temos medo da nossa própria morte. E, quando pensamos nela, surgem outras perguntas: o que existe depois da vida? Para onde vamos? Existe um céu, um inferno ou alguma outra forma de continuidade? O que acontece com a nossa consciência quando o corpo deixa de viver?
As respostas variam conforme as crenças, as religiões e as experiências de cada pessoa. Não temos uma resposta universalmente comprovada para todas essas questões. Mesmo assim, muitas vezes crescemos ouvindo explicações que podem despertar esperança, mas também culpa, insegurança e medo.
É possível que, antes mesmo de enfrentarmos uma perda real, já estejamos sofrendo antecipadamente pela possibilidade de perdê-la.
Eu sou uma mulher dos porquês. Desde criança, questiono, observo e procuro compreender aquilo que nem sempre recebe uma explicação. Reconheço que, muitas vezes, minhas perguntas poderiam incomodar quem preferia aceitar as coisas como eram. Mas foram justamente esses questionamentos que me trouxeram até aqui e despertaram em mim o desejo de escrever sobre um assunto tão necessário.
Por que temos tanta dificuldade em falar sobre a morte? Por que aprendemos tantas habilidades para enfrentar a vida profissional, construir relacionamentos e conquistar objetivos, mas quase nunca recebemos orientações sobre como lidar com a despedida, o luto e a saudade?
Na minha visão, como profissional que estuda as emoções e trabalha com reprogramação emocional, essa falta de preparação merece atenção. Acredito que o medo da perda pode influenciar profundamente a maneira como vivemos, nos relacionamos e reagimos às situações do cotidiano.
Quando o medo se torna constante, podemos deixar de aproveitar o presente, desenvolver inseguranças nos relacionamentos e até tentar controlar aquilo que não está sob nosso controle. Em algumas pessoas, a angústia também pode se transformar em irritação, raiva ou afastamento emocional.
Quantas vezes deixamos de aproveitar um momento feliz porque estamos preocupados com algo ruim que talvez aconteça? Quantas vezes olhamos para alguém que amamos e, em vez de simplesmente viver aquele encontro, sentimos medo de um dia não podermos mais repeti-lo?
O problema não está em amar profundamente nem em reconhecer que a vida é passageira. O sofrimento aumenta quando a possibilidade de perder alguém passa a ocupar tanto espaço que nos impede de viver plenamente enquanto essa pessoa ainda está conosco.
E essa reflexão me leva a outro momento importante: a gestação.
Sou mãe e conheço, pela minha própria experiência, a intensidade das emoções que acompanham a espera de um filho. Durante a gravidez, podem surgir preocupações com a saúde do bebê, com o parto e com a possibilidade de alguma complicação. A mãe também pode sentir medo de não sobreviver ao parto ou de não poder acompanhar o crescimento da criança.
Diante disso, questiono: quanto desse medo poderia ser acolhido e compreendido com mais cuidado desde o início da vida?
Não podemos afirmar que o medo da mãe seja automaticamente transmitido às células do bebê ou que uma criança carregue biologicamente todas as preocupações vividas durante a gestação. Entretanto, sabemos que o ambiente emocional, o cuidado e as experiências iniciais fazem parte do desenvolvimento humano. Por isso, considero importante que as famílias tenham acesso a informações e apoio para lidar com suas emoções, sem culpa e sem julgamentos.
Talvez precisemos começar a conversar sobre a finitude muito antes de enfrentarmos uma perda. Não para viver pensando na morte, mas para compreender que ela faz parte da existência e que não precisamos permitir que o medo de um acontecimento futuro determine a maneira como vivemos o presente.
Em pleno 2026, acredito que ainda precisamos ampliar os espaços de educação emocional nas famílias, nas escolas e nas comunidades. Poderíamos aprender, desde cedo, a reconhecer nossos sentimentos, falar sobre a perda de maneira respeitosa, acolher quem está de luto e compreender que cada pessoa atravessa esse processo de uma forma diferente.
A família, a escola, as comunidades religiosas e os profissionais preparados para acolher o sofrimento podem contribuir para essa aprendizagem. Não se trata de ensinar alguém a não sentir dor, mas de oferecer recursos para que essa dor possa ser compreendida e vivida com apoio.
Minha mãe costuma dizer uma frase que me faz refletir: “A morte só tem a desculpa: era a hora, acabou.”
Essa expressão simples me lembra que existem limites que não conseguimos controlar. Independentemente da maneira como interpretamos a morte, precisamos reconhecer que nem tudo está em nossas mãos.
Na minha visão pessoal, também encontro conforto na ideia de que cada pessoa deixa uma história, marcas, aprendizados e vínculos que continuam fazendo parte de quem permanece. Para aqueles que acreditam que viemos ao mundo com uma missão, a partida pode ser compreendida como o encerramento de uma etapa dessa jornada.
Essa é uma perspectiva de fé e consciência, não uma explicação que precise ser aceita por todos. Cada pessoa tem o direito de construir sua própria compreensão sobre a vida e a morte.
O que considero essencial é que possamos substituir, sempre que possível, a culpa pela compreensão, o desespero pelo acolhimento e o medo constante pela valorização do tempo que temos.
Isso não significa que devemos agradecer pela perda enquanto ainda estamos em choque, nem que precisamos encontrar imediatamente um sentido para ela. Cada pessoa tem seu tempo. Há despedidas que exigem silêncio, acolhimento, apoio familiar e acompanhamento profissional.
É justamente nesse ponto que entra o meu trabalho.
Como mentora das emoções, acredito na importância de desenvolver recursos emocionais antes que as situações mais difíceis aconteçam. A reprogramação emocional, dentro da minha abordagem de trabalho, busca ajudar as pessoas a reconhecer padrões de pensamento e reação, compreender seus sentimentos e construir maneiras mais saudáveis de lidar com os desafios pessoais e profissionais.
Não prometo que alguém deixará de sofrer ao perder uma pessoa amada. Seria desumano esperar que o amor não deixasse saudade. Também não acredito que chorar, sentir falta ou desejar mais tempo ao lado de quem partiu seja sinal de fraqueza.
O luto é uma experiência humana que merece respeito. Não existe uma fórmula única para vivê-lo, nem um prazo universal para superar uma perda.
O que proponho é que possamos desenvolver equilíbrio emocional antes de precisarmos dele nos momentos mais difíceis. Que aprendamos a reconhecer nossos medos, conversar sobre nossas angústias e procurar ajuda quando necessário. Assim, quando uma despedida acontecer, teremos mais recursos para atravessar aquele período sem precisarmos enfrentar tudo sozinhos.
Penso nisso como uma forma de preparação para a vida. Assim como existem planos funerários que ajudam as famílias a organizar questões práticas relacionadas à morte, também podemos investir antecipadamente no cuidado com as nossas emoções. São preparações diferentes, mas ambas nos convidam a olhar com responsabilidade para uma realidade que nem sempre queremos encarar.
A mentoria emocional e o acompanhamento terapêutico adequado podem fazer parte desse cuidado, respeitando as necessidades de cada pessoa e os limites de cada abordagem. Quando o sofrimento é intenso ou persistente, a ajuda de um psicólogo ou de outro profissional de saúde mental habilitado também pode ser fundamental.
Quero deixar claro que estar emocionalmente preparado não significa não sofrer. Significa, dentro das possibilidades de cada pessoa, desenvolver condições para reconhecer a dor, aceitar ajuda, respeitar o próprio tempo e, gradualmente, voltar a encontrar espaço para a vida.
Também quero compartilhar uma reflexão sobre as emoções que faz parte da minha visão profissional. Não considero que sentir medo, raiva ou tristeza torne alguém inferior ou menos evoluído. Todas as emoções têm uma função e podem ser intensas. O que precisamos aprender é a reconhecer o que sentimos, compreender o que essas emoções sinalizam e escolher como agir diante delas.
Não precisamos transformar a tristeza em alegria imediatamente, nem esconder a raiva ou negar o medo. Precisamos aprender a escutar nossas emoções sem permitir que elas determinem, sozinhas, todas as nossas escolhas.
Neste Dia de Finados, meu convite é para que você olhe para a vida com mais consciência.
Se seus pais ainda estão aqui, aproveite a presença deles. Se seus filhos estão ao seu lado, esteja presente de verdade. Se existe alguém a quem você deseja dizer que ama, não espere uma ocasião especial. Se há uma conversa importante que vem sendo adiada, reflita sobre a possibilidade de iniciá-la com respeito e responsabilidade.
Não podemos controlar o tempo de permanência das pessoas em nossas vidas. Mas podemos cuidar da qualidade do tempo que compartilhamos com elas.
E, quando a despedida chegar, que possamos encontrar apoio para viver a saudade sem sentir que precisamos desistir da própria vida. Que as lembranças possam, aos poucos, deixar de ser apenas fontes de dor e também se tornar espaços de carinho, gratidão e reconhecimento pela história que tivemos a oportunidade de viver.
Talvez não consigamos eliminar o sofrimento de todas as perdas. Mas podemos aprender a não sofrer antecipadamente por todas as despedidas que ainda não aconteceram. Podemos aprender a viver o presente sem transformar a incerteza do futuro em uma prisão emocional.
Afinal, se a morte faz parte da vida, por que não começarmos a aprender, desde agora, a viver com mais consciência, equilíbrio e amor?
Aprendemos a nascer, mas ninguém nos ensina a nos despedir. Talvez seja hora de começar essa aprendizagem enquanto ainda temos a oportunidade de viver, amar e cuidar uns dos outros.
Folha de Florianópolis
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