Planejar é fácil. Executar é raro. E permanecer fiel ao que planejamos — quase ninguém faz.
Entramos em janeiro com entusiasmo, proclamando que este ano será diferente. As redes sociais se enchem de frases motivacionais, listas de metas, promessas públicas e privadas. Há quem compre cadernos novos, quem monte planilhas, quem declare que agora vai. Mas, na prática, sabemos que a maior parte desses planos não sobreviverá à metade do primeiro trimestre. Não por falta de desejo, nem por falta de capacidade — mas porque cada um de nós lida com o tempo de um jeito muito particular, aprendido ao longo da vida, sem que ninguém nos explicasse como isso influencia o ato de planejar.
Quando falamos de planejamento, não estamos falando apenas de listas, metas SMART ou planilhas coloridas. Planejamento é comportamento. É a forma como fomos condicionados a agir diante do futuro, do desconhecido, da disciplina e da mudança.
Pense nas pessoas com 60 anos ou mais. Elas cresceram em um mundo onde planejamento era ação imediata. Não havia tempo para discussões longas. Pensava-se rápido e agia-se rápido. Planejava na segunda-feira e começava na terça. Disciplina, constância, execução. Eram as três palavras que definiam uma vida bem-sucedida. Essa forma direta de viver gerou resultados. Construíram carreiras sólidas, casas, patrimônio. Mas tudo tem um custo: falta de flexibilidade, dificuldade em se adaptar, e muitas vezes, uma vida vivida mais por obrigação do que por propósito. Eles planejam e executam e às vezes se perdem no meio do caminho. Chegam ao final da vida perguntando se valeu a pena.
Já aqueles que nasceram entre os anos 70 e 90 cresceram no ambiente da expansão tecnológica e das possibilidades infinitas. Aprenderam a sonhar grande, a conversar muito sobre o futuro, a adaptar-se rápido. Planejam com entusiasmo e facilidade, mas enfrentam um desafio recorrente: transformar intenção em constância. São pessoas cheias de ideias, com enorme potencial criativo, mas que às vezes ficam presas na fase da promessa — não por falta de talento, mas por falta de método.
E há quem tenha nascido a partir do fim dos anos 90, crescendo sob pressão intensa, comparação constante, excesso de informação e medo de falhar diante de todos. Para essas pessoas, planejar o ano pode ser uma experiência paralisante. Querem acertar, querem fazer, querem evoluir — mas a ansiedade de errar antes mesmo de começar faz com que muitos desistam no silêncio. Outros iniciam, mas param no primeiro sinal de frustração, porque aprenderam a interpretar obstáculos como indícios de que escolheram o caminho errado, quando na verdade obstáculos são parte do processo.
Enquanto isso, as novas gerações observam todas essas formas de agir. Silenciosamente, aprendem com o que veem — muito mais do que com o que dizemos. Se nos veem desistindo, hesitarão. Se nos veem agindo, agirão também. Planejamento, para elas, será sempre menos sobre teoria e mais sobre modelo.
É por isso que insistir apenas em listas, metas, cadernos ou planilhas não resolve nada. Planejamento nunca foi sobre isso. Planejamento é sobre comportamento. Sobre como cada pessoa reage ao tempo, à pressão, aos próprios medos, ao entusiasmo, às mudanças. Sobre como transforma intenção em atitude. É impossível planejar bem se você não entende a forma como age diante do futuro.
Se você costuma agir rápido demais, talvez precise respirar antes de decidir.
Se você costuma falar mais do que fazer, talvez precise iniciar antes de anunciar.
Se você costuma sentir medo, talvez precise aceitar que o medo não elimina a insegurança, apenas a organiza.
E se você costuma observar o que os outros estão fazendo, lembre-se... sempre tem alguém te observando também.
A verdade é que não existe planejamento consistente sem autoconhecimento. Metas só funcionam quando conversam com o seu jeito de agir e viver, não com o que você acha bonito ser colocado no papel no início do ano.
E talvez 2026 seja justamente o ano de agir com mais consciência do próprio "eu", ajustar o que for preciso, valorizar o que já funciona e se comprometer com aquilo que realmente importa, transformando intenção em movimento, promessa em comportamento e desejo em vida vivida, com menos pressa, menos barulho e mais verdade.
Pense nisso. Ja tem seu planejemento de 2026?
Folha de Florianópolis
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