Os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a compor o cenário permanente da vida urbana brasileira. Enchentes, ondas de calor, secas prolongadas e colapsos de infraestrutura expõem, ano após ano, fragilidades históricas: falta de saneamento, ocupações precárias, ausência de planejamento e desigualdade social persistente.
O debate costuma se concentrar — corretamente — em soluções estruturais: drenagem urbana, áreas verdes, prevenção de desastres, gestão da água. Mas há um efeito menos visível, raramente tratado com a mesma urgência: o impacto dessas crises sobre a vida escolar, o desenvolvimento emocional e a aprendizagem de crianças e adolescentes.
Quando a cidade entra em colapso, a escola não permanece ilesa.
Crises globais também são crises educacionais
Situações de instabilidade prolongada geram insegurança, estresse crônico e sensação de imprevisibilidade. Esses fatores, amplamente reconhecidos pela psicologia, afetam diretamente a capacidade de atenção, memória, motivação e engajamento — elementos centrais para qualquer processo de aprendizagem.
Em períodos de crise, aprender se torna mais difícil. E aprender matemática, em especial, pode se transformar em fonte de sofrimento.
Pesquisas recentes sobre ansiedade matemática em contextos de crises globais mostram que estudantes submetidos a cenários de instabilidade tendem a associar a matemática a medo, tensão e fracasso, mesmo reconhecendo sua importância para a vida cotidiana. Não se trata de incapacidade cognitiva, mas de uma resposta emocional a ambientes que exigem desempenho sem oferecer segurança.
A crise sanitária recente deixou isso evidente. Mas o fenômeno não se restringe à pandemia: ele se repete sempre que a escola ignora o contexto social, emocional e material em que o estudante está inserido.
Da enchente ao caderno: o fio da desigualdade
Eventos climáticos extremos afetam diretamente a rotina escolar: interrupção de aulas, perda de materiais, deslocamentos interrompidos, famílias em situação de emergência. Em territórios mais vulneráveis, esses efeitos são ampliados e recorrentes.
O resultado é previsível: a desigualdade educacional se aprofunda, e a escola, muitas vezes sem perceber, passa a operar como espaço de cobrança em vez de proteção.
Nesse cenário, avaliações rígidas, currículos inflexíveis e práticas pedagógicas punitivas produzem um efeito colateral grave: transformam o erro em ameaça e o aprender em risco. A ansiedade matemática surge justamente aí — quando errar deixa de ser parte do processo e passa a ser sinal de fracasso pessoal.
Resiliência urbana exige resiliência pedagógica
Muito se fala em cidades resilientes. Pouco se fala em escolas resilientes.
Uma escola resiliente não é aquela que apenas reabre após a enchente, mas aquela que reconhece que seus alunos chegam carregando experiências de perda, medo e instabilidade. É a escola que ajusta tempos, métodos e expectativas; que compreende que aprender em contextos de crise exige mais mediação, mais previsibilidade e menos punição.
Reduzir os efeitos das crises climáticas passa, necessariamente, por repensar o modo como ensinamos e avaliamos — especialmente disciplinas historicamente associadas ao fracasso escolar.
Planejar cidades, planejar aprendizagens
Assim como não é possível enfrentar eventos climáticos extremos sem planejamento de longo prazo, não é possível garantir aprendizagem sem considerar os impactos emocionais e sociais das crises globais.
Educação, saneamento, saúde mental e planejamento urbano não são agendas concorrentes. São partes do mesmo problema — e da mesma solução.
Ignorar esse elo é insistir em respostas fragmentadas para desafios que são, por natureza, sistêmicos. E é aceitar que milhares de estudantes continuem enfrentando, sozinhos, crises que não criaram.
Um futuro que se aprende
Cuidar do clima é cuidar das condições de vida.
Cuidar das condições de vida é cuidar das condições de aprender.
Se queremos cidades mais justas e sustentáveis, precisamos também de escolas que acolham, protejam e ensinem, mesmo — e sobretudo — em tempos difíceis.
Porque nenhum projeto de futuro se sustenta quando aprender vira mais um desastre a ser enfrentado.
Folha de Florianópolis
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