As reflexões da Teresa Pena Firme sobre alfabetização seguem atuais — talvez até mais urgentes — quando colocadas em diálogo com os desafios contemporâneos apontados pelo MEC e pelo INEP. Em um cenário de recomposição das aprendizagens após a pandemia, seus exemplos práticos ajudam a iluminar uma questão central: não basta medir resultados; é preciso avaliar para ensinar melhor.
Teresa aborda a alfabetização a partir da experiência concreta e faz uma crítica direta à cultura da reprovação, ainda muito presente nas escolas brasileiras. Para ela, títulos acadêmicos não alfabetizam crianças. O que faz diferença é a competência do alfabetizador, o vínculo com o aluno e a capacidade de transformar a avaliação em ação pedagógica.
Essa perspectiva ganha força quando Teresa relata sua visita a uma escola paupérrima em Porto Velho, Rondônia. Ali, conheceu a professora Silvana, que alfabetizou sua turma de primeiro ano até o mês de maio. Em um contexto onde muitos indicadores educacionais costumam prever fracasso, o que se viu foi aprendizagem real. E o método era simples, mas profundamente alinhado ao que hoje o próprio MEC chama de avaliação formativa.
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Silvana não utilizava métodos complexos aprendidos na faculdade. Usava os nomes das próprias crianças. Todos os dias, os nomes eram escritos no quadro até que todos soubessem ler e escrever o nome de todos. E não eram nomes fáceis. Eram nomes longos, criativos, muitos deles com letras consideradas “difíceis” nos métodos tradicionais — W, Y, H, dígrafos e grafias pouco usuais.
A avaliação acontecia ali, no cotidiano da sala de aula. Teresa exemplifica a aprendizagem ao contar que um aluno identificava a letra “T” como sendo de “Tablenilton”. A letra deixava de ser um símbolo abstrato e passava a ter significado, identidade e pertencimento. Em outra situação, a criança reconhecia letras a partir de palavras conhecidas do seu repertório cotidiano, revelando domínio de relações fundamentais do sistema alfabético.
À luz do que hoje o INEP defende em seus documentos orientadores, esse tipo de observação é exatamente o que caracteriza uma avaliação de qualidade na alfabetização: acompanhar o processo, identificar avanços e orientar intervenções, e não apenas registrar acertos e erros em provas padronizadas.
Diante do sucesso da prática, Teresa fez a provocação que marcou a palestra. Disse à professora Silvana que ela era uma “doutora em alfabetização” — não pelo título, mas pela competência demonstrada. E, em tom irônico, sugeriu que ela não fosse para a faculdade para não correr o risco de alguém rotular sua prática como errada por não seguir determinada teoria. A crítica é clara: quando a avaliação se afasta da aprendizagem real, ela perde sua função pedagógica.
Esse exemplo foi utilizado por Teresa para discutir a meta-avaliação em reuniões no Ministério da Educação, especialmente no contexto do programa Brasil Alfabetizado. À época, os dados mostravam frustração: os índices não avançavam como esperado. Teresa foi direta ao afirmar que o Brasil só se alfabetizaria quando houvesse “duzentas Silvanas” espalhadas pelo país — professoras bem formadas, apoiadas, valorizadas e capazes de colocar em prática aquilo que os dados hoje confirmam: aprendizagem se constrói no chão da sala de aula.
Os dados mais recentes do MEC/INEP reforçam esse alerta. Embora haja avanços na retomada da alfabetização após a pandemia, persistem desigualdades regionais e dificuldades na consolidação da leitura e da escrita nos primeiros anos. O problema não está apenas em “avaliar mais”, mas em avaliar melhor, de forma contínua, diagnóstica e formativa.
Nesse contexto, Teresa desmonta mitos ainda muito presentes. Um deles é a ideia de que a alfabetização deve ser o único critério para a progressão do aluno. Ela chama isso de uma mentira pedagógica. Ler e escrever são processos contínuos, que se estendem ao longo dos anos iniciais. Transformar a alfabetização em um filtro rígido de promoção gera reprovação precoce — prática que os próprios estudos do INEP mostram estar associada a piores trajetórias escolares e maior risco de evasão.
Outro ponto central é a crítica à responsabilização isolada da professora do primeiro ano. Se um aluno chega ao segundo ano sem ler plenamente, a escola precisa estar preparada para dar continuidade ao processo, e não interrompê-lo. A alfabetização é uma responsabilidade coletiva, e a avaliação deve servir para organizar essa continuidade.
Por isso, Teresa defende que avaliar alfabetização não pode se limitar a provas. É necessário observar o progresso, registrar produções, acompanhar leituras, usar portfólios e outros instrumentos qualitativos — exatamente como hoje orientam as políticas nacionais de avaliação diagnóstica e formativa.
No centro dessa concepção está a essência da avaliação: olhar no olho. Conhecer a criança por trás da nota. A criança não é “boa” porque tirou 10; a nota é que deveria refletir que ela já é capaz. Avaliar, assim, deixa de ser julgamento e passa a ser compromisso.
Para ilustrar, Teresa utiliza a analogia dos cães farejadores. O professor precisa fazer silêncio para ouvir a “voz fraquinha” do aluno com dificuldade, localizá-lo e resgatá-lo. A reprovação, segundo ela — e segundo os dados educacionais atuais — interrompe esse resgate e agrava o problema.
A alfabetização, para Teresa, é como aprender a cantar em uma escola de samba. Uns aprendem o samba no início da avenida, outros no meio. O papel da escola não é fazer ninguém voltar para trás, mas garantir que todos cheguem à apoteose cantando. Avaliar, nesse desfile, é acompanhar o ritmo de cada criança, sem travar, sem excluir.
Atualizar essa palestra com as discussões atuais do MEC e do INEP só reforça sua mensagem central: o desafio da alfabetização no Brasil não é falta de avaliação, mas falta de avaliação com sentido pedagógico. E, muitas vezes, esse sentido começa com algo simples — reconhecer que o “T de Tablenilton” também é evidência de aprendizagem.
Folha de Florianópolis
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