Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo neste fim de semana traz números que exigem atenção. Segundo análise do Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil paulista, houve aumento de 38% nos registros de suicídios e tentativas de suicídio relacionados à internet, redes sociais ou plataformas digitais em São Paulo, comparando o período de 1º de janeiro a 29 de junho de 2026 com o mesmo intervalo de 2025. Folha de S.Paulo
O dado precisa ser interpretado com cuidado. Trata-se de registros policiais associados ao ambiente digital, e não de todos os casos de suicídio e tentativa de suicídio ocorridos entre crianças e adolescentes no estado. Também não é correto concluir que redes sociais, isoladamente, causaram esses comportamentos. A própria reportagem chama atenção para a combinação entre sofrimento emocional, vulnerabilidade, busca de pertencimento, exposição a conteúdos extremos, coerção, chantagem e grupos digitais fechados. Folha de S.Paulo
Ainda assim, os números colocam uma pergunta diretamente diante de quem trabalha com educação:
o que a escola pode fazer?
A resposta começa por reconhecer uma fronteira importante. A escola não é clínica, o professor não é terapeuta e o diretor não deve assumir responsabilidades que pertencem aos serviços especializados de saúde.
Mas isso não significa que a escola seja apenas espectadora.
A escola vê o estudante todos os dias
Talvez essa seja uma das características mais importantes da instituição escolar diante desse problema.
Um adolescente pode passar horas diariamente na escola. Convive com professores, colegas, coordenadores, inspetores e outros profissionais. Ao longo do tempo, essas pessoas conhecem, em diferentes graus, seu comportamento habitual.
Por isso, mudanças podem aparecer primeiro ali.
O estudante que participava das aulas passa a se isolar. Aquele que mantinha determinado padrão de frequência começa a faltar. O rendimento cai de maneira repentina. Surgem conflitos incomuns, alterações nas relações com os colegas, falas persistentes de desesperança ou comportamentos que despertam preocupação.
Nenhum desses sinais, isoladamente, autoriza a escola a fazer diagnóstico.
Mas eles podem justificar atenção, acolhimento e acionamento dos protocolos adequados.
A diferença parece pequena, mas é fundamental: a função da escola não é diagnosticar. É perceber, acolher, proteger e encaminhar.
E isso não pode depender apenas da sensibilidade individual de um professor.
Precisa ser uma capacidade institucional.
O professor não deveria carregar esse problema sozinho
Imagine uma situação bastante concreta.
Um professor percebe que uma estudante de 13 anos mudou radicalmente de comportamento. Está mais isolada, deixa de participar das atividades e publica conteúdos preocupantes. Uma colega procura o professor e diz que está com medo de que alguma coisa aconteça.
O que esse professor deve fazer?
Se cada profissional tiver de improvisar a resposta, a escola já tem um problema.
Deveria existir um fluxo conhecido: quem recebe a informação, quem aciona a gestão, como a situação é registrada com o devido sigilo, como a família é contatada, quando a rede de saúde deve ser mobilizada e em quais circunstâncias o Conselho Tutelar precisa ser comunicado.
Isso é ainda mais importante porque a legislação brasileira já atribui responsabilidades concretas às instituições de ensino.
A Lei nº 13.819/2019, que instituiu a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, estabelece a articulação entre saúde, educação e outras áreas. Nos casos previstos pela norma, os estabelecimentos de ensino públicos e privados devem realizar notificação ao Conselho Tutelar. A legislação também determina que esses estabelecimentos informem e treinem seus profissionais sobre os procedimentos de notificação. Presidência da República
Portanto, não estamos tratando apenas de uma recomendação pedagógica.
Existe uma responsabilidade institucional.
A prevenção precisa acontecer antes da crise
Há outro risco: transformar prevenção em uma palestra realizada uma vez por ano.
Uma escola pode organizar uma atividade sobre saúde mental, publicar cartazes, realizar uma campanha e, ainda assim, manter no cotidiano um ambiente no qual estudantes tenham dificuldade para pedir ajuda.
Prevenção é muito mais cotidiana.
Está na existência de adultos acessíveis. Na maneira como situações de bullying são tratadas. Na resposta dada quando um aluno procura ajuda. Na relação com as famílias. Na atenção às mudanças importantes de comportamento. Na capacidade da equipe de agir diante de uma situação preocupante.
O Brasil avançou nesse sentido ao instituir, pela Lei nº 14.819/2024, a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. A norma estabelece uma articulação permanente entre educação, saúde e assistência social e inclui estudantes, professores, profissionais da escola, pais e responsáveis. Entre seus objetivos estão promoção da saúde mental, acesso à atenção psicossocial, formação continuada dos profissionais e enfrentamento das violências. Presidência da República
Isso ajuda a corrigir uma visão equivocada que ainda aparece em algumas redes: a de que saúde mental seria um problema externo à escola.
O tratamento especializado certamente pertence à saúde.
A construção de um ambiente escolar protetivo também pertence à educação.
E agora existe a dimensão digital
O caso relatado pela reportagem acrescenta uma dificuldade relativamente nova à gestão escolar.
Uma parte importante da vida social dos estudantes acontece fora dos muros da escola, mas dentro do celular.
Relacionamentos começam na escola e continuam nas redes. Conflitos iniciados online chegam à sala de aula. Bullying pode continuar depois do último sinal. Grupos de pertencimento podem surgir em plataformas desconhecidas pelos adultos. Imagens, ameaças, humilhações e pressões circulam em velocidade que a organização escolar tradicional dificilmente acompanha.
A educação digital, portanto, precisa deixar de significar apenas ensinar o estudante a utilizar ferramentas tecnológicas.
Ela também precisa incluir proteção.
Em 2025, o Brasil aprovou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, Lei nº 15.211. A legislação estabeleceu obrigações para produtos e serviços digitais de acesso provável por crianças e adolescentes, com atenção à segurança, privacidade, proteção de dados, verificação etária e supervisão parental. Presidência da República
Mas nenhuma lei eliminará completamente os riscos.
Por isso, escola e família precisam conversar sobre aquilo que acontece no ambiente digital sem transformar essa conversa apenas em fiscalização.
Perguntar "quanto tempo você fica no celular?" é insuficiente.
Talvez precisemos perguntar também:
Com quem nossos adolescentes estão conversando?
Que comunidades frequentam?
O que fazem quando recebem uma ameaça?
Sabem identificar chantagem?
Sabem a quem pedir ajuda?
Entendem que imagens íntimas podem ser utilizadas como instrumento de coerção?
Conseguem abandonar um grupo que os pressiona sem temer perder todos os seus vínculos?
Essas perguntas pertencem à educação contemporânea.
O pertencimento também se aprende na escola
Existe ainda uma questão menos visível.
Crianças e adolescentes procuram grupos porque precisam estabelecer vínculos. Querem ser reconhecidos, aceitos e valorizados.
A reportagem mostra como essa necessidade pode ser explorada em ambientes digitais por pessoas que inicialmente oferecem atenção e acolhimento e, posteriormente, passam a estabelecer cobranças, segredos, ameaças ou provas de lealdade. Folha de S.Paulo
Isso deveria interessar profundamente à escola.
Porque pertencimento também é produzido pelo ambiente.
Uma escola na qual o estudante encontra colegas com quem consegue estabelecer relações positivas, professores disponíveis, atividades nas quais pode experimentar competência e espaços legítimos de participação oferece alternativas concretas de vinculação social.
Não se trata de imaginar que um bom clima escolar eliminará problemas de saúde mental.
Seria uma simplificação perigosa.
Trata-se de compreender que relações sociais também fazem parte das condições de proteção.
Municípios e redes de ensino precisam sair da improvisação
O Programa Saúde na Escola já oferece uma estrutura importante para essa articulação. Entre suas ações estão promoção da cultura de paz, prevenção das violências e promoção da saúde mental, e o próprio Ministério da Saúde orienta que essas ações sejam incorporadas à proposta pedagógica da escola. Serviços e Informações do Brasil
Para secretarias municipais e estaduais, isso permite transformar preocupação em gestão.
Cada rede deveria conseguir responder claramente a algumas questões: seus profissionais sabem reconhecer situações que exigem atenção? Existe protocolo escrito? Professores sabem quem procurar? Diretores conhecem o fluxo de encaminhamento? A escola sabe como acionar UBS, CAPS/CAPSi, assistência social e Conselho Tutelar? As famílias conhecem esse fluxo? Há formação sobre riscos digitais? E, depois de uma ocorrência grave, existe acompanhamento da comunidade escolar?
Se essas respostas dependem da escola ou da pessoa que estiver de plantão naquele momento, ainda não existe uma política consolidada.
Existe improvisação.
A escola não pode resolver tudo. Mas pode fazer muito.
Talvez seja esse o ponto mais importante dessa discussão.
Existe uma tendência perigosa de atribuir à escola todos os problemas sociais. Isso sobrecarrega professores, desloca responsabilidades da saúde, da assistência social, das famílias, das plataformas digitais e do próprio poder público.
A escola não dará conta sozinha do sofrimento emocional de crianças e adolescentes.
Não deveria tentar.
Mas poucas instituições têm contato tão frequente com tantas crianças e adolescentes durante tantos anos consecutivos.
Isso lhe confere uma possibilidade extraordinária de observar mudanças, construir vínculos, ensinar formas de pedir ajuda e acionar rapidamente outros pontos da rede de proteção.
Diante dos dados apresentados pela Polícia Civil de São Paulo, talvez a pergunta mais produtiva para um diretor ou secretário de Educação não seja "como a escola vai impedir o suicídio?".
Essa responsabilidade seria impossível de assumir.
A pergunta precisa ser mais concreta:
se amanhã um aluno der sinais de que precisa de ajuda, todos na nossa escola saberão o que fazer?
Se a resposta ainda for "depende", temos uma tarefa urgente pela frente.
E ela começa antes da próxima ocorrência.
Folha de Florianópolis
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