Li recentemente uma reportagem do Valor Econômico sobre cidades e cidadãos resilientes frente às mudanças climáticas e fiquei refletindo sobre como essa lógica de adaptação, prevenção e planejamento dialoga diretamente com o que acontece nas salas de aula brasileiras. O texto falava de enchentes, deslizamentos e eventos extremos. Mas, por trás disso, falava de algo maior: sistemas que colapsam quando não foram pensados para o risco. A escola, especialmente no ensino de matemática, vive algo muito parecido.
Eventos climáticos extremos não produzem desastres sozinhos. Eles apenas revelam fragilidades acumuladas ao longo do tempo: ocupação desordenada, falta de drenagem, ausência de políticas preventivas. Na educação, a ansiedade — e, em particular, a ansiedade matemática — cumpre papel semelhante. Ela não surge do nada. É o resultado de anos de práticas que expõem o aluno ao erro como fracasso, tratam a avaliação como punição e ignoram que aprender envolve incerteza.
Durante a pandemia, esse quadro ficou ainda mais visível. O estudo Concepções de matemática e a motivação para aprender de estudantes com alta e extrema ansiedade matemática durante a pandemia de COVID, publicado na Revista Foco, mostra que estudantes ansiosos continuam reconhecendo a matemática como essencial para a vida, mas a associam a sentimentos de medo, tensão e incapacidade. Não se trata de rejeição ao conhecimento, mas de sofrimento diante da forma como ele é vivido no cotidiano escolar.
Cidades resilientes não eliminam o risco; elas o reconhecem. Mapeiam áreas vulneráveis, criam sistemas de alerta, envolvem a comunidade e organizam respostas coordenadas. Em matemática, a lógica é semelhante. Reduzir a ansiedade passa por identificar os “pontos de risco pedagógico”: conteúdos apresentados sem base suficiente, avaliações imprevisíveis, ausência de feedback e pouco espaço para correção ao longo do processo.
A chamada resiliência matemática não significa gostar da disciplina ou ter facilidade natural. Significa aprender a atravessar o desafio sem entrar em colapso. É saber que o erro não é um desastre, mas um dado que orienta o próximo passo. Ambientes de aprendizagem que oferecem progressão gradual das tarefas, clareza de expectativas e acompanhamento contínuo funcionam como a infraestrutura que protege o estudante da evasão simbólica — aquela em que o aluno permanece na sala, mas já desistiu por dentro.
A reportagem que me provocou essa reflexão destacava soluções simples para salvar vidas: planejamento, capacitação local, cooperação e prevenção. Na escola, as soluções também não são espetaculares nem tecnológicas por si só. Envolvem decisões pedagógicas cotidianas, organização do ensino, tempo para aprender e um olhar atento ao impacto emocional das práticas escolares.
Falar de ansiedade matemática, portanto, não é falar de fragilidade individual. É falar de responsabilidade institucional. Assim como não culpamos apenas a chuva por um deslizamento, não podemos culpar apenas o aluno por seu sofrimento diante da matemática. Resiliência, seja urbana ou educacional, é sempre resultado de escolhas feitas antes da crise.
Se queremos estudantes capazes de enfrentar problemas complexos, precisamos de escolas que não funcionem como territórios de risco emocional. A matemática continuará sendo desafiadora — e isso é parte de sua potência formativa. O que não pode continuar é a naturalização do medo como método. Resiliência não se improvisa. Nem nas cidades, nem na aprendizagem.
Folha de Florianópolis
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