Talvez essa seja a pergunta errada.
Depois de conhecer com mais atenção a proposta da Alpha School, nos Estados Unidos, fiquei com outra questão: e se a grande transformação provocada pela inteligência artificial não estiver na ferramenta, mas na maneira como organizamos a escola?
É isso que torna essa experiência interessante.
A Alpha School trabalha com uma proposta denominada 2 Hour Learning. A ideia parece, inicialmente, radical: concentrar aproximadamente duas horas do dia nas aprendizagens acadêmicas fundamentais, utilizando plataformas adaptativas e inteligência artificial para oferecer percursos individualizados.
Isso não significa que os estudantes permaneçam apenas duas horas na escola.
Eles cumprem uma jornada escolar. O que muda é a utilização do tempo.
Durante parte da manhã, cada estudante trabalha em seu nível e ritmo, avançando conforme demonstra domínio dos conhecimentos. Em vez de todos receberem simultaneamente a mesma explicação, realizarem a mesma atividade e avançarem pelo currículo na mesma velocidade, a tecnologia procura identificar lacunas e ajustar o percurso.
O restante do dia é destinado ao desenvolvimento de outras competências: comunicação, liderança, colaboração, criatividade, empreendedorismo, resolução de problemas, educação financeira, atividades físicas e projetos.
Independentemente de concordarmos ou não com o modelo, há algo importante acontecendo ali.
A Alpha não colocou simplesmente inteligência artificial dentro da escola. Ela reorganizou a escola considerando a existência da inteligência artificial.
Essa diferença merece atenção dos gestores.
E onde fica o professor?
Talvez aqui esteja a parte mais provocadora.
Na Alpha, os adultos responsáveis pelo acompanhamento dos estudantes são chamados de Guides. A função deles não está organizada prioritariamente em torno da exposição de conteúdos.
A tecnologia assume parcela significativa da instrução acadêmica individualizada. Aos adultos cabe acompanhar, motivar, orientar, estabelecer relações, desenvolver autonomia e ajudar os estudantes a aprender.
Isso não significa que a experiência tenha demonstrado que professores deixaram de ser necessários.
Significa algo mais interessante: ela está experimentando outra divisão do trabalho educacional entre seres humanos e tecnologia.
E talvez essa seja uma das discussões mais importantes que gestores escolares terão de enfrentar nos próximos anos.
Durante décadas, organizamos a escola com uma arquitetura relativamente estável: estudantes agrupados principalmente pela idade, professores responsáveis por turmas, aulas com duração determinada, currículo dividido em componentes e conteúdos desenvolvidos em tempos semelhantes para todos.
A inteligência artificial começa a questionar justamente essa arquitetura.
Se um sistema consegue identificar que determinado estudante já domina um conteúdo, por que obrigá-lo a permanecer fazendo exatamente as mesmas atividades?
Se outro estudante apresenta uma lacuna anterior, por que simplesmente avançar o currículo?
Se podemos receber informações frequentes sobre o desempenho individual, por que esperar uma avaliação realizada semanas depois para descobrir que alguém não aprendeu?
Essas perguntas são anteriores à inteligência artificial.
A novidade é que a tecnologia pode tornar algumas respostas operacionalmente possíveis em escala.
Há algo conhecido por trás dessa aparente revolução
É importante também não confundirmos novidade tecnológica com novidade educacional.
Personalização, aprendizagem para o domínio, feedback frequente, progressão segundo desempenho e organização cuidadosa das condições de ensino não nasceram com a IA.
A Análise do Comportamento, por exemplo, possui uma longa tradição de investigação sobre programação de ensino, estabelecimento de repertórios, consequências do erro e organização gradual das condições necessárias para a aprendizagem.
Estudos sobre ensino sem erro mostram justamente que não basta responsabilizar o estudante quando ele não aprende. É necessário investigar como as contingências de ensino foram programadas e modificar as condições quando o desempenho esperado não ocorre.
Isso muda a pergunta.
Em vez de:
“Por que esse aluno não aprende?”
podemos perguntar:
“Que condições de ensino ainda precisam ser organizadas para que ele aprenda?”
A inteligência artificial pode tornar essa segunda pergunta muito mais operacional.
Pode identificar padrões, fornecer feedback imediato, recomendar atividades, variar exercícios, acompanhar progressões e produzir informações que permitam intervenções mais rápidas.
Mas ela não resolve automaticamente o problema educacional.
A tecnologia não substitui uma concepção de educação
Esse é o ponto no qual gestores precisam ser particularmente cuidadosos.
Uma escola não é simplesmente um sistema de transmissão eficiente de conteúdos.
Currículo é também uma construção social e cultural. Sacristán lembra que ele se concretiza nas práticas, nas relações, nas escolhas e nas experiências produzidas pela escola.
Formar alguém significa muito mais do que fazê-lo avançar rapidamente em Matemática ou Língua Portuguesa.
Significa aprender a conviver, argumentar, cooperar, lidar com diferenças, produzir, investigar, criar, assumir responsabilidades e participar da sociedade.
Curiosamente, a própria Alpha parece reconhecer essa questão.
Se sua proposta fosse simplesmente substituir professores por computadores, provavelmente os estudantes terminariam as atividades acadêmicas e iriam para casa.
Não é isso que ocorre.
O tempo supostamente economizado pela tecnologia é utilizado para experiências humanas.
Talvez esteja aí uma das contradições mais interessantes do modelo: quanto mais tecnologia aparece na aprendizagem acadêmica, maior parece ser a necessidade de justificar o que somente a experiência humana pode proporcionar.
Mas os resultados exigem cautela
A Alpha divulga resultados acadêmicos expressivos e afirma que seus estudantes aprendem em ritmo significativamente superior ao observado em escolas tradicionais.
Esses dados merecem atenção.
Mas atenção não significa aceitação automática.
Gestores educacionais precisam distinguir divulgação institucional, evidência empírica e demonstração de causalidade.
Uma escola privada norte-americana, com seleção de famílias, recursos específicos, determinado perfil socioeconômico, infraestrutura tecnológica e cultura organizacional própria não pode ser diretamente comparada a uma rede municipal brasileira com milhares de estudantes e enormes diferenças territoriais e sociais.
Em avaliação educacional, sabemos que resultados escolares precisam ser interpretados considerando contexto, desempenho anterior dos estudantes e outras variáveis. Estudos sobre valor agregado demonstram justamente a complexidade de atribuir determinado resultado exclusivamente à escola ou a uma intervenção.
Portanto, a pergunta responsável não é:
“A Alpha provou que a escola tradicional acabou?”
Não provou.
A pergunta intelectualmente mais interessante é:
“Que hipóteses presentes nessa experiência merecem ser testadas por nós?”
O que um gestor brasileiro deveria observar
Não acredito que a principal lição seja reduzir amanhã todas as aulas para duas horas ou substituir professores por plataformas.
Isso seria transformar inovação em imitação.
O aprendizado estratégico é outro.
Experimente imaginar uma escola em que cada estudante tenha seu percurso acompanhado continuamente.
Imagine que o professor consiga saber, antes de entrar em sala, quais habilidades seus alunos dominam e quais ainda precisam desenvolver.
Imagine atividades diferentes para estudantes com necessidades diferentes.
Imagine avaliações deixando de funcionar apenas como fotografia final e passando a alimentar decisões de ensino.
Imagine professores gastando menos tempo produzindo tarefas repetitivas, corrigindo exercícios mecânicos ou preenchendo documentos e utilizando mais tempo para observar estudantes, planejar intervenções, conversar, orientar e ensinar aquilo que exige interação humana.
Nesse cenário, a inteligência artificial não elimina o professor.
Ela pode tornar muito mais valioso o tempo do professor.
E isso exigirá formação.
A literatura sobre desenvolvimento profissional docente já demonstrou que mudanças educacionais não acontecem simplesmente porque novas ferramentas chegam às escolas. Professores constroem e reconstruem seus conhecimentos profissionais na relação entre formação, experiência e prática.
Imbernón já advertia, muito antes da explosão atual da inteligência artificial, que profundas mudanças sociais e tecnológicas exigiriam uma redefinição da profissão docente e da própria instituição educativa.
A IA apenas tornou essa discussão urgente.
Talvez a pergunta não seja se teremos professores ou inteligência artificial
Essa oposição provavelmente nos levará a uma discussão pobre.
Talvez estejamos entrando numa fase em que precisaremos decidir o que queremos que os humanos façam justamente porque agora existem máquinas capazes de realizar outras tarefas.
É uma pergunta pedagógica, mas também uma pergunta de gestão.
Se uma tecnologia consegue produzir exercícios em segundos, talvez não faça sentido utilizar horas do professor para produzi-los.
Se consegue organizar informações de aprendizagem rapidamente, talvez o professor possa utilizar seu tempo interpretando-as e intervindo pedagogicamente.
Se consegue oferecer determinadas explicações individualizadas, talvez o encontro presencial possa ser ainda mais utilizado para investigação, discussão, experimentação, colaboração e construção coletiva.
Não precisamos copiar a Alpha School.
Precisamos observá-la.
Precisamos estudar seus resultados.
Precisamos testar suas hipóteses.
Precisamos descobrir o que funciona, para quem funciona, em quais condições e a que custo.
E, principalmente, precisamos evitar dois erros igualmente perigosos: acreditar que a inteligência artificial resolverá todos os problemas da educação ou imaginar que podemos simplesmente ignorá-la e continuar organizando a escola exatamente como antes.
Talvez a inteligência artificial não seja o futuro da educação.
Talvez ela seja a tecnologia que finalmente nos obrigará a discutir qual futuro queremos para a escola.
E essa discussão já começou.
Folha de Florianópolis
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