A sensação de segurança e os índices de criminalidade na cidade de São Paulo apresentam um panorama complexo da cidade. Enquanto estatísticas oficiais apontam reduções históricas em determinados crimes violentos, outras atitudes criminosas e violações de direitos registraram avanços significativos na última década. Entre 2014 e 2025, o número de furtos — caracterizados pela subtração de bens sem o uso de violência ou ameaça direta — saltou de 190.717 para 250.168 ocorrências na capital paulista. Em contrapartida, os roubos, que envolvem grave ameaça ou violência contra a vítima, registraram uma queda no mesmo período, recuando de 160.210 para 98.358 registros. No trânsito, os homicídios culposos, os quais não há a intenção de matar, subiram de 538 para 624 casos.
A queda nos homicídios e a complexidade dos dados
A mudança mais expressiva na segurança pública paulistana refere-se aos homicídios dolosos, que despencaram de 1.132 casos em 2014 para 501 em 2025, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). Marcelo Batista Nery, sociólogo e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e da Fundação Seade, comenta que essa trajetória de queda, iniciada nos anos 2000, coloca a capital em um patamar comparável a cases internacionais de redução de homicídios, como Medellín, Bogotá e Nova York.
Contudo, essa redução não é estritamente linear. O pesquisador explica que o fenômeno é multicausal e envolve a atuação do crime organizado, do policiamento, de organizações não governamentais e de investimentos municipais em prevenção. “Nunca é um único fator que a gente pode levantar como aquilo que responde à queda.” A análise da letalidade ganha novas camadas ao se considerar a métrica dos chamados “homicídios ocultos”. O termo se refere à estimativa de homicídios em relação a mortes violentas por causa indeterminada, divulgados pelo sistema de saúde. Segundo o Atlas da Violência, publicado em 2026, em 2024, do total de cerca de 5.800 mortes violentas por causa indeterminada registradas no sistema de saúde do Estado, estima-se que 2.824 tenham sido homicídios ocultos. A inclusão dessa estimativa faz a taxa real de homicídios passar de 6,6 para cerca de 13 por 100 mil habitantes. Para Nery, essa diferença evidencia os gargalos na qualificação dos registros oficiais.
O avanço dos registros de violência contra minorias
Em sentido oposto à diminuição dos homicídios gerais, os crimes direcionados a populações vulneráveis apresentaram crescimento. Os registros de feminicídio na capital subiram de 29 casos em 2018 para 65 em 2025. O tipo penal, tipificado em lei em 2015, passou a integrar os boletins de ocorrência da SSP a partir de 2018. De acordo com Marcelo Nery, a alta nos números reflete tanto o aumento real da violência quanto o aprimoramento das ferramentas de identificação e notificação. A criação de mecanismos de proteção, como a Delegacia da Mulher, o aplicativo SP Mulher Segura, a Cabine Lilás e o monitoramento eletrônico de agressores, representa avanços, mas enfrenta barreiras no descrédito das vítimas em relação à resposta do Estado.
Situação semelhante ocorre com a comunidade LGBTQIA+. Dados do Instituto Pólis indicam um aumento de 970% nas notificações de violência contra essa população nos serviços de saúde entre 2014 e 2023. Enquanto os registros policiais concentram esses casos nas áreas centrais da cidade, a rede pública de saúde mostra-se mais sensível para capturar a violência motivada por LGBTfobia nas periferias.
Para Sérgio Adorno, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e coordenador do Núcleo de Estudos da Violência, ambos da USP, o pano de fundo dessa violência está associado a raízes sociais conservadoras que reagem ao fortalecimento e à conquista de espaços institucionais por grupos minoritários. “Tudo isso, na verdade, gera, nessa sociedade conservadora, um profundo incômodo. É como se nós estivéssemos perdendo a nossa nacionalidade.”
Mudança no perfil criminal e desafios regionais
O perfil da criminalidade paulistana também tem passado por transformações estruturais. Segundo Adorno, a criminalidade digital e os estelionatos virtuais têm ganhado mais espaço na capital paulista. Além disso, ele alerta o surgimento de discursos públicos que tentam legitimar o ódio e a intolerância como instrumentos de controle social. Para o professor, a heterogeneidade da metrópole exige que o planejamento da segurança pública abandone o estereótipo que contrapõe um “centro protegido e rico” a uma “periferia violenta e carente”. Mapeamentos do NEV-USP demonstram que mesmo bairros vizinhos ou uma mesma região administrativa apresentam dinâmicas criminais totalmente distintas, alternando áreas com predominância de crimes patrimoniais, outras com circulação de mercadorias ilícitas e zonas com maior incidência de homicídios. Diante disso, os especialistas concluem que a superação dos desafios da segurança em São Paulo depende da superação de políticas genéricas e da construção de estratégias locais específicas. “Não dá para você fazer políticas públicas de segurança genéricas, como se todas as regiões pudessem merecer a mesma política, a mesma diretriz, quando você tem problemas diferentes”, defende Sérgio.

Folha de Florianópolis
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