O pouco me deixa amarga. Precisei de uma noite acordada até tarde num calor de 40 graus para perceber o óbvio de mim. O pouco me incomoda. O pouco interesse, o pouco amor, a pouca intenção, pouco contato, pouca verdade, a pouca palavra. O pouco livro.
Essa miudeza - único termo que jugo apropriado - de escrita do século XXI, coisas como escrita do eu, livrinho pequeno tamanho bolso, trinta páginas de redação de diário (e olhe lá!) em fonte 14 e parágrafos separados por vários centímetros de distância, bem, sendo tão honesta quanto clama ser a escrita do século, esse pouco me decepciona, me frusta.
Gosto de livro. Um Romance, que não é historinha de amor como alguns ainda pensam, tem de ter personagens, tramas, temas densos. Um romance se degusta como um bom vinho: lentamente ao sabor e ao aroma de cada gota de palavra. Um romance se guarda na cabeceira por dias, para dar tempo de digerir as temáticas expostas e as subjacentes. Um Romance se delicia aos poucos, enquanto o livro nos maltrata fazendo-nos sofrer, rir e viver aquelas vidas fictícias. Um romance precisa ter corpo. E alma . E espírito. E vida. E dor, e dias para se pensar, refletir e amadurecer com o texto.
Odeio livrinhos de 30 páginas. Sinto neles um cheiro amargo de vinagre fermentado: em resumo, de enganação autoral e editorial . Ser enganada no que possa chamar de livro me irrita profundamente.
Dito e posto o meu ponto de vista, a indignação chegou, infelizmente, ate a Prêmio Nobel Annie Ernaux e seu livrinho “O Jovem”. Uma excelente autora, uma excelente temática, porém pequena: uma obra jovem. Comecei e terminei a leitura em menos de meia hora. Ainda reli algumas partes buscando perder a sensação de estar apenas no primeiro capítulo, do que poderia ter sido um livro bom, aliás muito bom, tivesse a autora de fato continuado e elaborado um livro mais completo de fato. Ficou-me a sensação de tratar-se apenas de um projeto, porém com temáticas muito válidas, importantes, necessárias e atuais, nas quais se poderia mergulhar no desespero da busca pela juventude, no incesto simbólico consciente ou inconsciente, nos preconceitos sociais, nas mazelas do tempo, do amor como conforto para a culpa por um aborto. A autora é rica em sua competência de escrita, e o texto nos comove e envolve. Como cita a autora na página 27 “uma natureza indizível na qual se misturavam o sexo, o tempo e a memória”.
“O Jovem” teria sido uma obra bela, teria, tivesse maturado a curta escrita do eu rumo à corporeidade de uma Literatura de mundo e de vida. Aliás, Literatura do século XXI é bem isso: um aborto, um caso, um relacionamento descarte. E o livro faz uso de mais de 10 fotos das quais ainda me pergunto se ali estão pelo dimensionamento do narcisismo do século ou para fazer o livrinho parecer um pouco maior.
Annie Ernaux é uma ótima autora embora “O Jovem” seja apenas um conto, um bom conto, uma nesga da brevidade do tempo para uma autora que tem muita literatura a oferecer.
Aos 60 anos eu desejo mais do que a literatura do século tem a oferecer. Eu desejo palavras sinceras como as de Annie, porém sem medo de se alongar. A vida já é breve demais para que as boas leituras não se acabem em poucos minutos. O que percebo é que a cada dia vão retirando o que há de mais belo do ser humano: seu poder de criação. Assim, perdemos obras belíssimas como os bordados artesanais das renderias da Lagoa da Conceição. Quero mais.
Folha de Florianópolis
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