Recentemente, ao reler Como aprender e ensinar competências, de Antoni Zabala e Laia Arnau (Penso, 2014), deparei-me novamente com uma inquietação que permanece extremamente atual. Embora o livro tenha sido publicado originalmente em 2010, suas provocações continuam desafiando gestores, professores e formuladores de políticas educacionais.
A questão central apresentada pelos autores é simples, mas profundamente incômoda: até que ponto o ensino baseado em competências representa, de fato, uma melhoria em relação aos modelos educacionais que já conhecemos?
A resposta não é tão simples quanto parece.
O conceito de competências difundiu-se rapidamente pelo campo educacional. Como tantas outras ideias que marcaram a história da educação, encontrou terreno fértil para crescer, despertando adesões entusiasmadas e críticas igualmente consistentes. Não há consenso absoluto, nem deveria haver. Afinal, toda mudança educacional relevante precisa ser debatida.
Entretanto, Zabala e Arnau fazem um alerta que merece atenção.
Ideias, isoladamente, não transformam a qualidade do ensino.
Se a adoção das competências significar apenas substituir antigos objetivos educacionais por uma nova terminologia, estaremos repetindo um fenômeno recorrente na história das reformas educacionais: mudam-se as palavras, preservam-se as práticas. Nesse caso, a célebre reflexão de Lampedusa continua atual: muda-se tudo para que tudo permaneça como está.
É justamente nesse ponto que o conceito de competências ganha profundidade.
Os autores defendem que ele pode representar muito mais do que uma reorganização curricular. Pode tornar-se um elemento articulador de princípios pedagógicos que historicamente permaneceram restritos a experiências inovadoras, permitindo consolidar uma educação comprometida com a formação integral, com a equidade e com a aprendizagem ao longo da vida.
Ao analisar a evolução dos currículos, percebe-se que essa transformação não aconteceu de forma repentina.
Durante muito tempo, a escola organizou-se em torno dos conteúdos disciplinares. Depois vieram os objetivos educacionais, as classificações por níveis de aprendizagem, as habilidades e, mais recentemente, as competências.
Essa trajetória revela uma mudança silenciosa, mas significativa.
O centro da educação deixou de ser apenas aquilo que se ensina para voltar-se, progressivamente, para quem aprende.
Essa mudança não reduz a importância dos conhecimentos científicos. Pelo contrário. Ela lhes atribui uma finalidade mais ampla: permitir que o estudante compreenda, interprete e intervenha na realidade.
A pergunta deixa de ser apenas “o que o aluno deve saber?” e passa a ser “o que ele será capaz de fazer com aquilo que aprendeu?”
É essa mudança de perspectiva que torna o debate sobre competências muito mais profundo do que uma simples alteração curricular.
Porque ensinar não é apenas transmitir conteúdos.
É desenvolver capacidades.
É preparar pessoas para agir com autonomia, pensamento crítico, responsabilidade e competência diante das situações concretas da vida.
Talvez essa seja a principal contribuição da obra de Zabala e Arnau.
Ela nos lembra que uma educação baseada em competências não se justifica porque está presente nos documentos oficiais ou nas reformas curriculares. Justifica-se apenas quando consegue transformar o conhecimento em ação, a aprendizagem em desenvolvimento humano e a escola em um espaço de formação para a vida.
Caso contrário, estaremos apenas dando novos nomes às velhas práticas.
Folha de Florianópolis
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