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Sábado, 08 de Agosto 2026
Competências: mais do que uma mudança de currículo, uma mudança de propósito
Coluna do Laôr

Competências: mais do que uma mudança de currículo, uma mudança de propósito

A leitura de uma obra clássica sobre competências provocou uma reflexão inevitável: estamos realmente transformando a educação ou apenas mudando a linguagem com que descrevemos o ensino?

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Recentemente, ao reler Como aprender e ensinar competências, de Antoni Zabala e Laia Arnau (Penso, 2014), deparei-me novamente com uma inquietação que permanece extremamente atual. Embora o livro tenha sido publicado originalmente em 2010, suas provocações continuam desafiando gestores, professores e formuladores de políticas educacionais.

A questão central apresentada pelos autores é simples, mas profundamente incômoda: até que ponto o ensino baseado em competências representa, de fato, uma melhoria em relação aos modelos educacionais que já conhecemos?

A resposta não é tão simples quanto parece.

O conceito de competências difundiu-se rapidamente pelo campo educacional. Como tantas outras ideias que marcaram a história da educação, encontrou terreno fértil para crescer, despertando adesões entusiasmadas e críticas igualmente consistentes. Não há consenso absoluto, nem deveria haver. Afinal, toda mudança educacional relevante precisa ser debatida.

Entretanto, Zabala e Arnau fazem um alerta que merece atenção.

Ideias, isoladamente, não transformam a qualidade do ensino.

Se a adoção das competências significar apenas substituir antigos objetivos educacionais por uma nova terminologia, estaremos repetindo um fenômeno recorrente na história das reformas educacionais: mudam-se as palavras, preservam-se as práticas. Nesse caso, a célebre reflexão de Lampedusa continua atual: muda-se tudo para que tudo permaneça como está.

É justamente nesse ponto que o conceito de competências ganha profundidade.

Os autores defendem que ele pode representar muito mais do que uma reorganização curricular. Pode tornar-se um elemento articulador de princípios pedagógicos que historicamente permaneceram restritos a experiências inovadoras, permitindo consolidar uma educação comprometida com a formação integral, com a equidade e com a aprendizagem ao longo da vida.

Ao analisar a evolução dos currículos, percebe-se que essa transformação não aconteceu de forma repentina.

Durante muito tempo, a escola organizou-se em torno dos conteúdos disciplinares. Depois vieram os objetivos educacionais, as classificações por níveis de aprendizagem, as habilidades e, mais recentemente, as competências.

Essa trajetória revela uma mudança silenciosa, mas significativa.

O centro da educação deixou de ser apenas aquilo que se ensina para voltar-se, progressivamente, para quem aprende.

Essa mudança não reduz a importância dos conhecimentos científicos. Pelo contrário. Ela lhes atribui uma finalidade mais ampla: permitir que o estudante compreenda, interprete e intervenha na realidade.

A pergunta deixa de ser apenas “o que o aluno deve saber?” e passa a ser “o que ele será capaz de fazer com aquilo que aprendeu?”

É essa mudança de perspectiva que torna o debate sobre competências muito mais profundo do que uma simples alteração curricular.

Porque ensinar não é apenas transmitir conteúdos.

É desenvolver capacidades.

É preparar pessoas para agir com autonomia, pensamento crítico, responsabilidade e competência diante das situações concretas da vida.

Talvez essa seja a principal contribuição da obra de Zabala e Arnau.

Ela nos lembra que uma educação baseada em competências não se justifica porque está presente nos documentos oficiais ou nas reformas curriculares. Justifica-se apenas quando consegue transformar o conhecimento em ação, a aprendizagem em desenvolvimento humano e a escola em um espaço de formação para a vida.

Caso contrário, estaremos apenas dando novos nomes às velhas práticas.

FONTE/CRÉDITOS: Laôr Fernandes de Oliveira
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira

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Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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