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Quarta-feira, 29 de Abril 2026
A cidade que envelhece primeiro já vive um futuro com mais de 60

Coluna do Guga Dias
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A cidade que envelhece primeiro já vive um futuro com mais de 60

“As cidades são capazes de oferecer algo para todos, somente porque, e somente quando, são criadas por todos.” Jane Jacobs, The Death and Life of Great American Cities.

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Existe um modo elegante de fugir do tema do envelhecimento. A gente troca a palavra velhice por siglas e slogans, empacota a realidade em estética e chama isso de tendência. NOLT é uma dessas siglas. Vem de New Older Living Trend, um rótulo para um 60+ que não se reconhece na ideia de fim de linha. Só que, por trás do nome, há uma mudança que não depende de moda, nem de discurso. Depende de números, de ruas, de mercado e de trabalho.

O mundo inteiro está envelhecendo ao mesmo tempo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em 2030, uma em cada seis pessoas terá 60 anos ou mais, e que a população 60+ deve crescer de 1 bilhão em 2020 para 1,4 bilhão por volta de 2030 e 2,1 bilhões em 2050. O Brasil está no centro desse movimento. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) projeta que, em 2070, cerca de 37,8% da população brasileira será formada por pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 75,3 milhões de pessoas.

A primeira armadilha ao falar disso é tratar o 60+ como um personagem único, sempre saudável, sempre disponível, sempre pronto para recomeçar. O 60+ é heterogêneo. Há quem tenha saúde, renda, rede e autonomia para abrir um novo ciclo. Há quem carregue limitações físicas, renda curta, solidão e barreiras de mobilidade. Por isso, NOLT só faz sentido se for usado como lente para discutir estrutura, e não como maquiagem para negar a realidade.

A segunda armadilha é enxergar envelhecimento apenas como custo. A longevidade também é força econômica. A AARP (Associação Americana de Aposentados) estima que pessoas com 50 anos ou mais responderam por metade do consumo global em 2020, algo como 35 trilhões de dólares, e que esse consumo pode chegar perto de 96 trilhões de dólares em 2050. Quando esse eixo muda, muda tudo junto. Produtos, serviços e modelos de negócio em saúde, moradia, finanças, turismo, educação continuada e tecnologia deixam de ser nicho e viram centro.

A cidade do futuro não é a que tem mais tecnologia. É a que permite que mais gente viva bem por mais tempo sem ser empurrada para o isolamento.

Esse é o ponto em que o mercado de trabalho entra como teste de realidade. Uma sociedade que envelhece precisa aprender a aproveitar experiência em vez de descartá-la por reflexo cultural. Não se trata de romantizar produtividade, mas de reconhecer que trabalho também é vínculo, presença e sentido, e que excluir pessoas mais velhas do circuito social tem custo humano e econômico.

No Brasil, isso já aparece em um dado que deveria reorientar políticas e mentalidades. O SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) aponta que o país tem 4,3 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais, um número recorde. Empreender depois dos 60 não é só desejo de autonomia. Para muitos, é reinvenção de identidade profissional. Para outros, é necessidade de renda. Para muitos, é oportunidade porque a longevidade cria demandas que o mercado ainda atende mal, e a vivência vira vantagem competitiva.

Florianópolis já vive um pedaço desse futuro. É turística, costeira, desejada e atrai gente que chega com tempo de vida e vontade de recomeçar. A pergunta é se a cidade quer ser cenário de aposentadoria ou plataforma de reinvenção.

Se a cidade pretende ser plataforma, o debate sai do discurso e entra no chão. Mobilidade e calçadas deixam de ser detalhe. Tempo de deslocamento deixa de ser incômodo. Acessibilidade deixa de ser gentileza. Viram infraestrutura econômica. Uma cidade que envelhece e continua planejada só para o corpo jovem cria um efeito colateral inevitável, empurra uma parcela crescente da população para dentro de casa, reduz participação social, reduz consumo de rua, reduz presença no comércio e limita o próprio dinamismo urbano.

NOLT, então, vale por um motivo que não tem nada a ver com a sigla. Ele obriga a sociedade a encarar que o futuro chega mais velho. E que uma cidade madura se mede pela capacidade de transformar longevidade em presença, participação e dignidade cotidiana. Jane Jacobs lembrava que uma cidade só oferece algo para todos quando é criada por todos. Esse é o desafio do nosso tempo. Incluir o 60+ não como público-alvo de campanha, mas como parte ativa do desenho da cidade, do trabalho e da vida.

Jogo que segue...

Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias

FONTE/CRÉDITOS: Fontes consultadas Organização Mundial da Saúde (OMS) — Ageing and health. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Projeções populacionais (notícia da Agência IBGE). Associação Americana de Aposentados (AARP) — Global Longevity Eco
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem autoral criada por inteligência artificial, uso editorial.
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 Guga Dias

Publicado por:

Guga Dias

Guga Dias, Budista, advogado, especialista em Propriedade Intelectual (desde 1986) e Empresário, com especialização em Propriedade Intelectual pela WIPO (World Intellectual Property Organization), Pós-graduando em Gestão Pública e Gestão do...

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