O levantamento sobre os 10 anos do Mapa da Inadimplência da Serasa, traduz em números o drama compartilhado por 81,7 milhões de pessoas que, atualmente, vivem em situação de inadimplência no Brasil. O relatório, que tem como referência o mês de fevereiro deste ano, aponta que o número de brasileiros com contas em atraso cresceu 38,1% na última década. Considerando a inflação entre os anos, o estudo também mostrou que o valor da dívida média por consumidor avançou 12,2%, e passou de R$ 5.880 para R$ 6.598.
Neste cenário, equilibrar o orçamento doméstico e honrar as contas torna-se um processo desafiador para grande parte dos brasileiros. Especializado em orientar pessoas que buscam organizar as suas finanças, o planejador financeiro Cleberson Fachini, explica que para sair do problema é necessário encará-lo como um estado e não como uma identidade.
“A pessoa não é endividada, ela está endividada. Esta mudança de perspectiva sobre a situação ajuda a abrir espaço para a reorganização que precisa ser realizada.”, observa o profissional, que possui certificação CFP® pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar).
Há casos em que o endividamento é o caminho escolhido para a realização de um sonho. A situação só passa a ser um problema, segundo o profissional, se o pagamento das parcelas assumidas deixa de ser honrado levando a pessoa à inadimplência. Diante desta situação, é necessário olhar para o contexto com cautela identificando as escolhas que levaram ao endividamento.
Fachini afirma que há dívidas que fazem sentido para o momento de vida da pessoa. O financiamento que permite a compra de um imóvel, o empréstimo que habilita o funcionamento de um negócio ou mesmo investir em formações que possam contribuir para a ampliação da renda, podem ser alguns exemplos.
“No entanto, fazer dívida para antecipar um padrão de consumo que ainda não cabe no orçamento, pode ser perigoso. Embora pareça uma solução tentadora e inofensiva no início, o custo pode crescer mais rápido do que a renda gerando muita dor de cabeça no futuro. Alguns exemplos clássicos são o parcelamento de compras do dia a dia, acúmulo de fatura no cartão de crédito ou recorrer ao cheque especial para bancar as despesas básicas do mês.”, exemplifica.
Mapear o problema
Atuando de forma independente no segmento de planejamento financeiro, Fachini afirma que o caminho para sair do emaranhado inicia pelo básico. A indicação é ter alguma organização financeira, ainda que simples, para identificar quanto pode ser destinado ao pagamento das dívidas.
“Para tomar decisões mais conscientes é necessário um olhar realista para a situação, entender quanto entra, quanto sai, listar dívidas, taxas e parcelas. Sem uma referência real sobre o fluxo de entrada e saída de dinheiro, o plano não se sustenta. É preciso colocar tudo na ponta do lápis para ter a dimensão real do tamanho do problema e, a partir desta consciência, definir o que deve ser resolvido primeiro.”, sugere.
Reunir todas as dívidas em uma única estrutura, com condições melhores, tende a trazer mais previsibilidade e controle sobre os pagamentos. Ainda assim, segundo o profissional, a priorização depende do contexto. “Juros importam, mas o principal é o impacto no fluxo mensal, e, em muitos casos, faz mais sentido atacar as parcelas que mais pressionam o orçamento.”, observa.
Para Fachini, sair da inadimplência exige mais do que reorganizar as contas. O processo passa por revisar hábitos, assumir responsabilidade sobre decisões financeiras e, quando possível, contar com apoio de pessoas de confiança. “Mais do que resolver uma dívida pontual, o objetivo é construir uma relação mais consciente e sustentável com o dinheiro”, conclui.
Confira mais dicas:
· Organize o orçamento antes de renegociar e entenda quanto realmente cabe no mês;
· Liste todas as dívidas, incluindo valores, taxas, parcelas e prazos;
· Defina o valor necessário para reorganização, já incluindo uma margem de segurança para imprevistos;
· Priorize dívidas e parcelas que mais pressionam o orçamento;
· Avalie a possibilidade de buscar crédito, mas compare diferentes instituições e evite opções fáceis com custos altos, como os limites pré-aprovados;
· Busque negociação direta para obter melhores condições para quitar as dívidas. Compare as propostas e analise as condições com calma. Lembre-se, decisões tomadas por impulso podem gerar prejuízo;
· Ajuste parcelas e prazos à sua capacidade real de pagamento. Considere opções com juros mais baixos.
· Revise hábitos financeiros para evitar novos ciclos de endividamento;
· Troque culpa por responsabilidade e mantenha foco na execução;
· Conte com apoio de pessoas de confiança para manter disciplina e consistência.

Folha de Florianópolis
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