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Quarta-feira, 29 de Abril 2026
A erosão do pensamento

Coluna do Guga Dias
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A erosão do pensamento

Uma sociedade não empobrece apenas quando perde dinheiro, poder ou influência. Muitas vezes, começa a empobrecer antes, quando perde o apreço pelo esforço de pensar.

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O eu não é algo já feito, mas algo em contínua formação pela escolha da ação.”
John Dewey

Durante muito tempo, acreditou-se que ampliar o acesso à informação produziria, quase naturalmente, uma sociedade mais preparada. Mais livros, mais tecnologia, mais universidades, mais meios de comunicação, mais conteúdo disponível. A promessa parecia lógica. Quanto mais acesso, mais compreensão. Quanto mais circulação de conhecimento, mais maturidade coletiva. E o tempo mostrou que a conta não fecha sozinha. Um paradoxo do tempo.

Jamais houve tanta fala, tanta emissão, tanta opinião, tanta exposição. Nunca se comentou tanto sobre tudo. E, ainda assim, algo foi se perdendo no caminho. Não exatamente a informação. Perdeu-se parte da formação necessária para lidar com ela.

Criamos um ecossistema que reduz a fricção intelectual necessária para pensar bem.

Hoje, uma pessoa abre uma reportagem longa e salta direto para o trecho destacado. Depois corre para os comentários. Em seguida procura um vídeo curto que “resume” o assunto. Em menos de cinco minutos, sai com vocabulário suficiente para entrar na conversa, mas sem o trabalho de ter realmente atravessado o problema. Parece informação. Mas é apenas contato rápido com a superfície.

Na escola, o fenômeno muda de cenário, mas não de lógica. O aluno quer a resposta sem o raciocínio, a fórmula sem o processo, a nota sem a travessia. Estuda para passar, não para carregar consigo o que aprendeu. Termina a prova, esquece a matéria e segue adiante com a sensação de dever cumprido. Não formou base. Apenas cumpriu tabela.

No trabalho, a cena se repete. Há gente querendo reconhecimento antes de competência, autoridade antes de preparo, espaço antes de amadurecimento. Querem o nome na porta da sala sem os anos de silêncio, estudo e responsabilidade que normalmente justificam a cadeira. Reuniões seguem cheias de opiniões prontas e vazias de leitura séria. Empresas falam sem parar em liderança, cultura, inovação e visão de futuro, mas perdem a paciência quando o assunto é formação real, correção interna e consistência.

Dentro de casa, a erosão também deixa marcas. A correção já não entra como parte do crescimento. Entra como agressão. O limite é tratado como trauma. A frustração vira ofensa. A criança cresce aprendendo menos a suportar o não e mais a interpretar todo desconforto como sinal de violência. Mais tarde, esse mesmo adulto chega ao mundo profissional e público exigindo reconhecimento, mas sem resistência para crítica, hierarquia, demora, repetição e esforço.

A vida pública apenas amplia esse quadro. Temas difíceis começam a ser consumidos como se fossem entretenimento moral. O importante já não é entender melhor, mas reagir primeiro. Educação vira disputa de frases. Segurança vira reflexo. Mobilidade vira torcida. Urbanismo vira pose. O comentário rápido circula melhor do que a análise cuidadosa. A indignação ganha mais espaço do que o estudo. E, pouco a pouco, vai se consolidando uma cultura em que parecer firme rende mais do que pensar direito.

É assim que o atalho começa a substituir toda a travessia. A sociedade passa a premiar quem soa pronto, não quem se prepara. Quem repete com segurança, não quem examina com rigor. Quem entrega resposta imediata, não quem suporta o peso de um problema até entendê-lo melhor. O fácil ganha prestígio. O raciocínio perde valor. E a base vai cedendo sem alarde.

É nesse ponto que a cidade entra.

Uma cidade não é feita apenas de obras, leis, prédios e orçamento. É feita também da qualidade mental de quem a habita. Do modo como as pessoas leem, escutam, discordam, estudam, corrigem e planejam. Quando essa base enfraquece, a cidade sente. E a discussão pública vira torcida. Sente quando temas longos são empurrados por humores curtos. Sente quando a pressa toma o lugar do projeto e a aparência de ação tenta substituir a ação pensada.

A minha Florianópolis aparece, então, como espelho. Uma cidade que gosta de se imaginar inovadora, criativa, inteligente, voltada ao futuro. Mas futuro não se constrói apenas com vocabulário moderno, evento bem fotografado e estética de ecossistema. Futuro se constrói com base. Com gente capaz de estudar antes de opinar, de suportar correção, de enfrentar complexidade sem fugir para simplificações infantis e de pensar além da urgência do dia.

O problema é que cidade nenhuma resiste por muito tempo quando se habitua ao fácil. Não resiste quando troca formação por atalho, preparo por pose, planejamento por improviso. O que sustenta de verdade não é a pressa, nem a aparência de prontidão. É o trabalho duro, a dedicação, a disciplina e a capacidade de construir para durar.

Uma sociedade amadurece quando reaprende isso. Quando volta a respeitar o estudo, a exigência, o esforço e a visão de longo prazo. É assim que se forma gente mais sólida. É assim que se tomam decisões melhores. É assim que se constrói uma cidade melhor.

Jogo que segue…

Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO da GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias

FONTE/CRÉDITOS: UNESCO. Media and Information Literacy. Disponível em UNESCO. World Economic Forum. Future of Jobs Report 2025. Disponível em World Economic Forum. UNESCO. UNESCO Media and Information Literacy Cities. Disponível em UNESCO. Postman, Neil. Amusing Our
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem criada por Inteligência Artificial para uso editorial
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 Guga Dias

Publicado por:

Guga Dias

Guga Dias, Budista, advogado, especialista em Propriedade Intelectual (desde 1986) e Empresário, com especialização em Propriedade Intelectual pela WIPO (World Intellectual Property Organization), Pós-graduando em Gestão Pública e Gestão do...

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