O que fizeram com o cachorro Orelha não pode ser suavizado por palavras nem diluído por explicações convenientes. Houve violência deliberada, houve crueldade consciente e houve morte. A partir desse fato, todo o resto se revela. O assassinato brutal ocorrido em Florianópolis não expõe apenas a barbárie de alguns jovens, mas a falência de uma sociedade que abandonou a civilidade, o limite, relativizou a responsabilidade e passou a conviver com a impunidade como se fosse algo normal.
A brutalidade daquele ato não surgiu do nada. Ela foi construída lentamente em um ambiente onde quase nada gera consequência real, onde o erro é sempre explicado, justificado, relativizado e dissolvido em discursos confortáveis que confundem compreensão com absolvição e empatia com permissividade. Quando jovens são capazes de torturar e matar um animal ingênuo e indefeso, não estamos diante de uma simples imaturidade, mas de uma falha profunda na ideia de educação e limite. A impunidade educa, e educa mal. Ela ensina que tudo é permitido, desde que se encontre uma narrativa conveniente, e que a dor do outro pode ser ignorada sem custo.
A ausência de punição exemplar não produz apenas injustiça, ela produz método. Quando o limite desaparece, o caos deixa de ser exceção e passa a ser regra silenciosa. Cada ato brutal tratado com leniência reforça a mensagem de que a lei é flexível, a moral é opcional e a crueldade pode ser reembalada como brincadeira que saiu do controle. No caso de Orelha, nada saiu do controle. Foi exatamente até onde a permissividade social permite que se vá.
O que aconteceu com aquele cachorro é o mesmo que se repete diariamente contra pessoas comuns, trabalhadores, idosos, crianças e outros animais. A diferença é que, desta vez, a vítima que não tinha voz, era conhecida da comunidade e talvez por isso o crime tenha sido revelado. Vivemos em uma sociedade onde fazer o mal deixou de ser um risco real para quem o pratica e passou a ser algo comum. Sem punição clara, rápida e proporcional, a violência se normaliza e se reproduz.
Exigir punição exemplar não é vingança, é civilização. É afirmar que a vida não é descartável, que o sofrimento não é entretenimento e que juventude não pode ser usada como álibi para a barbárie. A função da lei não é proteger o agressor do peso de seus atos, mas proteger os vulneráveis e conter os impulsos mais sombrios que emergem quando ninguém é responsabilizado.
Orelha não volta. Mas a resposta dada a esse crime define o que somos como sociedade. Ou reafirmamos, com clareza e coragem, o valor da responsabilidade e da punição justa, ou aceitamos, por omissão, viver em um lugar onde tudo é permitido e ninguém se importa com ninguém. Corremos o risco de produzir psicopatas em série e tornar inviável a convivência em nosso país. Isso será a nossa ruína.
Folha de Florianópolis
Comentários: