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Sexta-feira, 03 de Abril 2026
O preço dos vazios do Estado

Coluna do Guga Dias
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O preço dos vazios do Estado

O México mostra o que acontece quando o poder público perde território, capilaridade e capacidade de proteger trajetórias. O Brasil ainda pode aprender antes que o vazio vire método e a violência vire governo informal.

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A primeira e a última palavra da civilização é a segurança individual.”
Rui Barbosa

O debate sobre violência urbana costuma começar tarde demais. Em geral, só ganha urgência quando os números explodem, quando o noticiário policial se intensifica ou quando o medo já se instalou no cotidiano de uma cidade. Mas a violência não nasce no estampido de um Flash. Se forma antes, no acúmulo de omissões, na perda gradual de presença institucional, na erosão da autoridade pública legítima e na incapacidade do Estado de sustentar ordem, mediação e horizonte nos territórios onde mais precisa estar.

Um olhar para o México atual pode ser útil ao Brasil, desde que esse olhar seja sério. Não como exercício de exotismo latino-americano, nem como caricatura de um país dominado pelo crime, mas como advertência concreta sobre o que acontece quando os vazios do Estado deixam de ser exceção e começam a se transformar em método involuntário de gestão territorial. Em dezembro de 2025, 63,8% da população adulta nas áreas urbanas pesquisadas pelo INEGI - Instituto Nacional de Estadística y Geografía do México, declarou considerar insegura a cidade onde vive. A percepção não surgiu do nada. Ela expressa um processo prolongado de deterioração, fragmentação do poder local, disputa territorial e baixa capacidade pública de conter a ocupação criminosa de espaços físicos, sociais e institucionais.

Errasse muito nesse tipo de discussão, ao reduzir tudo à falta de policiamento. Polícia importa, investigação importa, justiça importa. Mas a violência cresce de forma mais profunda quando a ausência do Estado deixa de ser apenas operacional e passa a ser estrutural. Ela cresce quando o município perde capacidade, quando a escola deixa de funcionar como proteção de trajetória, quando o espaço urbano se degrada, quando a prevenção se enfraquece, quando a resposta pública se torna irregular e quando a população começa a perceber que há mais descontinuidade do que presença. O problema não é apenas a falta de força. É a falta de continuidade institucional.

Quem viveu o Rio de Janeiro das décadas de 1970, 1980 e 1990, como eu, aprendeu isso da maneira mais dolorosa. A perda da cidade não se deu num único ato. Não começou com a manchete mais chocante, mas com a naturalização lenta das brechas deixadas pelo Poder Público. Mesmo quando aquele jovem estudante de Direito começou a levantar sua voz para apontar os vazios que o Estado deixava de chegar inteiro. Em certos lugares, chegava tarde. Em outros, chegava mal. Em muitos, chegava apenas de forma episódica e eleitoreira. E quando o poder público perde regularidade de presença, o território aprende rápido que a lei já não é a única organizadora da vida cotidiana. O vazio passa a ter donos, regras e pedagogia própria.

No Brasil, a situação ainda é reversível em muitas realidades, mas não é trivial. O Atlas da Violência 2025 registrou 45.747 homicídios em 2023, com taxa de 21,2 por 100 mil habitantes. Trata-se da menor taxa em 11 anos, o que é relevante e deve ser reconhecido. Mas esse dado, por si só, não autoriza conforto. O próprio Atlas destaca desigualdades regionais persistentes e associa a queda recente, em parte, a políticas locais mais orientadas por planejamento, inteligência, foco em resultado e prevenção social, em vez de mera repetição de policiamento ostensivo. Em outras palavras, quando o poder público melhora sua capacidade de agir de forma organizada, o resultado aparece. Quando essa capacidade falha, o custo também aparece. E fica caro. Muito caro!

É aqui que a educação pública precisa entrar no debate com mais seriedade e menos simplificação. Não porque escola, sozinha, resolva o problema da violência, o que seria uma falsidade confortável, mas porque cidades frágeis do ponto de vista institucional costumam também produzir trajetórias frágeis para seus jovens. Quando a escola perde capacidade de formar vínculo, repertório, disciplina, expectativa e pertencimento social legítimo, ela deixa de funcionar como uma das barreiras de contenção mais importantes contra a captura de trajetórias pelo crime, pela evasão, pela informalidade brutal e pela banalização do risco. A segurança de uma cidade começa também na força das suas rotas de formação.

A tese central não pode ser a de que a violência cresce apenas onde falta vigilância. Ela cresce onde o Estado perde capilaridade. Cresce onde a autoridade pública já não consegue ser contínua, previsível e respeitável. Cresce onde a gestão urbana se torna reativa. Cresce onde a escola enfraquece, onde o território se desorganiza, onde o poder local perde musculatura e onde a vida coletiva passa a ser regulada por arranjos paralelos, explícitos ou difusos. O que o México ensina, com a dureza das manchetes, é que o colapso não começa no auge. Ele começa no descuido.

Quando meus olhos se voltam para a minha cidade, Florianópolis, entro nessa reflexão de um modo importante. Hoje, a capital catarinense aparece em levantamentos recentes como a capital mais segura do país em indicadores de homicídio, e Santa Catarina segue entre os estados com menores taxas de violência letal do Brasil. Isso deve ser lido como ativo institucional, mas jamais como licença para ingenuidade. Cidade mais segura não é cidade imune. Ao contrário. É cidade que tem mais a perder se começar a tolerar a expansão dos vazios do Estado, a desatenção territorial, a deterioração da educação pública, a precarização da presença institucional e a falsa crença de que bons indicadores do presente garantem estabilidade futura.

A pior leitura que uma cidade relativamente segura pode fazer de si mesma é a leitura narcísica. A de que o problema é sempre dos outros. A de que colapso urbano é assunto de metrópole conflagrada. A de que basta manter aparência de ordem para preservar substância de ordem. Não basta! A história urbana latino-americana mostra que a degradação quase nunca pede licença. Ela avança onde encontra leniência, desorganização, baixa capacidade de antecipação e poder público mal distribuído no território. O medo não se instala apenas onde falta Estado. Ele se instala onde o Estado vai deixando de ser inteiro.

O México, nesse sentido, não deve ser visto apenas como tragédia alheia. Deve ser lido como advertência institucional. O Brasil ainda tem margem para aprender antes de pagar a conta em escala maior. E cidades como Florianópolis, justamente por ainda preservarem melhores condições relativas, deveriam ser as primeiras a entender que segurança pública não se resume a reação policial. Segurança pública é presença contínua, urbanidade preservada, escola forte, gestão territorial séria, inteligência estatal e autoridade legítima nos lugares certos. Quando esses elementos recuam, o vazio não permanece vazio por muito tempo.

A violência vence uma cidade quando consegue transformar ausência em rotina. Quando o poder público se torna episódico, o território encontra outros organizadores. O preço dos vazios do Estado é exatamente esse. Primeiro, perde-se regularidade. Depois, perde-se confiança. Mais adiante, perde-se o espaço. E quando a cidade percebe que está pagando essa conta, quase nunca está mais no início do problema. Já está no atraso!

Jogo que segue…

Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO da AE Internacional | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias

FONTE/CRÉDITOS: • INEGI. Encuesta Nacional de Seguridad Pública Urbana. 23 jan. 2026. • International Crisis Group. Mexico’s Forgotten Mayors. The Role of Local Government in Fighting Crime. 23 jun. 2023. • Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da Viol
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem criada por Inteligência Artificial para uso editorial
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 Guga Dias

Publicado por:

Guga Dias

Guga Dias, Budista, advogado, especialista em Propriedade Intelectual (desde 1986) e Empresário, com especialização em Propriedade Intelectual pela WIPO (World Intellectual Property Organization), Pós-graduando em Gestão Pública e Gestão do...

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