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Domingo, 02 de Agosto 2026
Brasil, a nova Cuba - Parte 2
Coluna do Rogério Franco
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Brasil, a nova Cuba - Parte 2

Cuba, a Capital do Comunismo do Século XX. O novo relatório do Departamento de Estado e suas implicações para o Brasil

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O governo de Donald Trump, por intermédio do secretário de Estado Marco Rubio, deu mais um passo importante dentro da estratégia de enfrentamento ao regime cubano ao divulgar um relatório de aproximadamente cem páginas intitulado Cuba, a Capital do Comunismo do Século XX. O documento representa um marco na forma como o Departamento de Estado norte-americano interpreta a atuação internacional de Havana ao longo das últimas seis décadas. Mais do que um levantamento histórico, trata-se de uma análise sobre a estrutura política, ideológica e de inteligência construída pelo regime desde a Revolução Cubana de 1959 e sobre sua influência em praticamente todo o continente americano. O Brasil aparece citado em diversos momentos do relatório, tanto em episódios históricos quanto em acontecimentos recentes, evidenciando a importância estratégica que o país ocupa dentro dessa leitura geopolítica.

A principal tese do documento é que Cuba jamais deve ser compreendida apenas como uma pequena ditadura insular ou como uma ameaça militar limitada. Segundo o relatório, o verdadeiro poder do regime sempre esteve na sua capacidade de organizar uma ampla rede internacional de espionagem, propaganda, influência política e apoio a movimentos revolucionários. Essa estrutura teria sobrevivido ao colapso da União Soviética, adaptando-se às novas circunstâncias internacionais e preservando seu objetivo original de expandir a influência revolucionária por meio de instrumentos políticos, culturais, acadêmicos e diplomáticos.

O relatório sustenta que o regime cubano desenvolveu uma verdadeira estratégia de guerra política baseada em cinco grandes pilares. O primeiro consiste na espionagem e infiltração em instituições governamentais e organismos estratégicos. O segundo envolve o financiamento, treinamento e apoio logístico a guerrilhas e organizações armadas em diversos países. O terceiro concentra-se na formação de lideranças políticas, sindicalistas, acadêmicos, ativistas e intelectuais capazes de influenciar a opinião pública em seus respectivos países. O quarto utiliza organizações de solidariedade internacional, intercâmbios culturais, universidades e viagens oficiais como instrumentos permanentes de influência ideológica. O quinto pilar repousa sobre alianças geopolíticas estabelecidas com Rússia, China, Irã e outros países considerados adversários estratégicos dos Estados Unidos.

Segundo o documento, todos esses elementos integram uma única estratégia revolucionária, sem distinção clara entre diplomacia, inteligência, propaganda, ativismo político e operações clandestinas. Essa seria justamente a principal característica do modelo cubano de atuação internacional desde 1959.

O Brasil ocupa posição relevante nessa narrativa. Um dos primeiros episódios destacados é a Conferência Tricontinental realizada em Havana em 1966. Para o relatório, esse encontro representou muito mais do que uma reunião diplomática. Seu objetivo era construir uma articulação permanente entre movimentos revolucionários da África, Ásia e América Latina em torno de uma agenda comum de enfrentamento ao chamado imperialismo ocidental, especialmente aos Estados Unidos.

Da conferência nasceu a Organização Latino-Americana de Solidariedade, conhecida como OLAS, criada para coordenar movimentos revolucionários em todo o continente. Embora essa organização tenha perdido força ao longo dos anos, o documento argumenta que sua concepção estratégica permaneceu viva e foi sendo incorporada por novos mecanismos de articulação regional. É nesse contexto que aparecem referências à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, a CELAC, bem como ao G77 mais China, apresentados como espaços importantes de coordenação política entre governos do chamado Sul Global.

O relatório destaca que o Brasil participou dessas iniciativas em diferentes momentos históricos. Recorda que o governo Jair Bolsonaro retirou o país da CELAC por entender que o organismo servia como instrumento político dos governos de esquerda latino-americanos, decisão revertida no primeiro dia do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, quando o Brasil retornou oficialmente ao bloco.

A presença brasileira, entretanto, não se limita aos organismos multilaterais. O documento revisita diversos episódios da Guerra Fria envolvendo o apoio cubano a movimentos revolucionários na América Latina. Segundo a análise apresentada, Havana ofereceu treinamento militar, formação política e apoio logístico a organizações que atuaram no Brasil, na Colômbia, na Venezuela, no Peru, no Paraguai, na Argentina e em diversos países do Caribe.

Entre os brasileiros mencionados está Carlos Marighella, cuja obra Manual do Guerrilheiro Urbano é citada como material amplamente utilizado em centros de treinamento mantidos em Cuba para a formação de guerrilheiros latino-americanos. O relatório também menciona organizações como as FARC e o ELN, sustentando que elas integraram uma rede regional de cooperação revolucionária construída ao longo de décadas.

Ao abordar o cenário contemporâneo, o documento procura demonstrar que essa estrutura não desapareceu com o fim da Guerra Fria. Ao contrário, teria sido adaptada às novas circunstâncias internacionais mediante alianças cada vez mais estreitas com Rússia, China e Irã, além da aproximação com organizações classificadas pelos Estados Unidos como grupos terroristas internacionais.

O Brasil reaparece nesse contexto por meio de episódios recentes envolvendo organizações e ativistas políticos brasileiros que participaram de ações internacionais consideradas relevantes pelo relatório. O documento procura demonstrar que a atuação cubana deixou de depender exclusivamente do apoio a guerrilhas armadas e passou a privilegiar mecanismos de influência política, mobilização social, organizações não governamentais, universidades, movimentos internacionais e redes de cooperação ideológica.

A divulgação desse relatório ocorre em um momento particularmente sensível para as relações entre Brasília e Washington. A crise diplomática entre os dois países serve de pano de fundo para a publicação do documento, que dedica especial atenção ao papel desempenhado pelo Brasil dentro da reorganização geopolítica do continente.

Segundo essa leitura, os Estados Unidos passaram a adotar uma nova doutrina de segurança nacional voltada para impedir que potências extrarregionais ampliem sua influência sobre o hemisfério ocidental. A preocupação concentra-se principalmente sobre a crescente presença da China, mas também envolve Rússia e Irã. Nesse contexto, Washington intensificou sua cooperação estratégica com diversos países latino-americanos nas áreas de inteligência, segurança pública, combate ao crime organizado, defesa, investimentos, tecnologia e infraestrutura.

Argentina, Chile, Paraguai, Peru, Colômbia, Equador, Panamá, El Salvador e Honduras aparecem como exemplos de países que ampliaram significativamente sua aproximação com os Estados Unidos e passaram a receber investimentos estratégicos em áreas como inteligência artificial, segurança de fronteiras, infraestrutura logística, modernização militar e combate às organizações criminosas transnacionais.

O Brasil, entretanto, é apresentado como um caso distinto. A aproximação do governo brasileiro com a China, sua permanência em organismos multilaterais voltados ao chamado Sul Global e sua atuação diplomática ao lado de países integrantes dos BRICS são interpretadas como elementos que aumentam sua relevância dentro da disputa estratégica entre Washington e Pequim.

Essa percepção ganha ainda mais importância diante do fortalecimento da presença chinesa em setores considerados críticos da economia brasileira, como mineração, energia elétrica, infraestrutura, logística, portos, agronegócio, telecomunicações e tecnologia. Na avaliação desenvolvida pelo relatório, o Brasil tornou-se uma peça central da disputa geopolítica que hoje reorganiza o equilíbrio de poder no continente americano.

Por essa razão, as eleições presidenciais de 2026 passam a ser interpretadas como um evento de grande impacto estratégico. O documento sugere que o resultado desse processo eleitoral poderá influenciar diretamente o posicionamento internacional do Brasil, redefinindo seu alinhamento diplomático em meio à crescente competição entre Estados Unidos, China e Rússia.

Mais do que uma análise sobre Cuba, o relatório procura apresentar uma interpretação abrangente da evolução dos movimentos revolucionários latino-americanos desde 1959, descrevendo a ilha como o principal centro de articulação política e ideológica do comunismo continental durante o século XX e defendendo que muitos dos mecanismos desenvolvidos naquele período continuam exercendo influência sobre a política latino-americana no século XXI. Nesse cenário, o Brasil surge como um dos principais atores regionais, tanto pelo seu peso econômico e político quanto pela posição estratégica que ocupa na atual reorganização geopolítica das Américas.

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Rogério Mazzetto Franco

Publicado por:

Rogério Mazzetto Franco

Rogério Mazzetto Franco é formado em Direito, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal, e também formado em Filosofia. Atua como ativista político, unindo rigor jurídico e reflexão filosófica na defesa de uma sociedade mais justa e racional.

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