A educação pública brasileira vive um paradoxo permanente: exige-se resultados mensuráveis — aprendizagem, alfabetização, indicadores, rankings — ao mesmo tempo em que se esvaziam as condições simbólicas, humanas e criativas que sustentam esses mesmos resultados. Nesse cenário, a leitura do livro Crie de Manhã, Administre à Tarde, de Mauricio de Sousa, oferece uma metáfora poderosa e surpreendentemente atual para os desafios enfrentados por secretários de educação e gestores públicos.
Mauricio de Sousa, ao narrar sua trajetória como criador da Turma da Mônica e gestor de um dos maiores estúdios de entretenimento do país, propõe uma lógica simples, porém profunda: a criatividade precisa vir antes da burocracia. Criar de manhã é garantir espaço para imaginar, testar, errar e reinventar. Administrar à tarde é organizar, estruturar, escalar e sustentar aquilo que foi criado. Quando essa ordem se inverte, o sistema funciona — mas não transforma.
Na educação, temos feito exatamente o contrário.
Quando a escola passa a “administrar o dia inteiro”
Grande parte das redes públicas opera sob uma lógica de gestão quase exclusivamente administrativa: cumprimento de calendário, controle de frequência, preenchimento de sistemas, prestação de contas, metas fragmentadas e avaliações de alto impacto. Tudo isso é necessário. O problema é quando a gestão passa a ocupar todo o dia, e a criação pedagógica — o “manhã” da educação — é empurrada para as sobras do tempo.
O resultado é conhecido: professores exaustos, estudantes desengajados, inovação tratada como exceção e aprendizagem reduzida a números que pouco dialogam com a realidade da sala de aula.
Mauricio de Sousa alerta, ainda que em outro contexto, que organizações que sufocam a criatividade em nome da eficiência acabam se tornando irrelevantes. O mesmo ocorre com sistemas educacionais que tentam melhorar resultados apenas apertando controles, sem investir em sentido, pertencimento e autoria pedagógica.
Criatividade não é improviso — é estratégia
Um equívoco comum é associar criatividade à ausência de método. O livro mostra justamente o oposto: Mauricio de Sousa construiu um império criativo porque organizou a criatividade, protegeu o tempo de criação e estruturou processos para que ideias virassem produtos, histórias e impacto cultural.
Na educação, criatividade significa:
- Planejar políticas pedagógicas com base em evidências, mas abertas à adaptação local;
- Garantir formação continuada que estimule autoria docente, e não apenas replicação de modelos;
- Criar ambientes escolares seguros para experimentação pedagógica;
- Valorizar projetos interdisciplinares, metodologias ativas e práticas contextualizadas.
Secretários de educação que desejam melhorar a aprendizagem precisam compreender que não há resultado sustentável sem criação pedagógica estruturada.
Administrar à tarde: o papel indelegável da gestão pública
Se criar é indispensável, administrar bem é inegociável. A lição de Mauricio de Sousa não é abandonar a gestão, mas colocá-la no lugar certo. Na educação pública, isso significa:
- Usar indicadores como bússola, não como chicote;
- Alinhar orçamento, formação e avaliação a uma mesma visão pedagógica;
- Reduzir a fragmentação de projetos e programas;
- Transformar dados em decisões pedagógicas, e não apenas em relatórios.
A boa gestão educacional é aquela que protege o tempo pedagógico, simplifica processos e cria condições para que escolas façam bem o que só elas podem fazer: ensinar e promover aprendizagem significativa.
Resultados que importam
A obsessão por resultados imediatos muitas vezes ignora que aprendizagem é um processo cumulativo, humano e contextual. Mauricio de Sousa construiu personagens que atravessaram gerações porque nunca perdeu de vista o público, o propósito e a coerência criativa. Na educação, o “público” são os estudantes reais, com suas histórias, ritmos e desigualdades.
Resultados educacionais consistentes surgem quando:
- A política educacional tem visão de longo prazo;
- A gestão respeita a complexidade da aprendizagem;
- A escola é vista como espaço de criação, e não apenas de execução.
Uma provocação aos gestores públicos
Talvez a pergunta central que Crie de Manhã, Administre à Tarde nos deixa, quando lido à luz da educação, seja esta: em que momento do dia o sistema educacional está criando?
Se a resposta for “quase nunca”, não há indicador que resolva.
Criar políticas educacionais mais humanas, inovadoras e eficazes exige coragem institucional, liderança pedagógica e gestão inteligente. Criar de manhã, na educação, é investir em professores, estudantes e projetos com sentido. Administrar à tarde é garantir que tudo isso seja sustentável, escalável e público.
A educação brasileira não precisa escolher entre criatividade e resultados. Precisa, urgentemente, colocar cada coisa no seu tempo certo.
Folha de Florianópolis
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