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Quarta-feira, 15 de Julho 2026
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Ensinar não é dom. É ciência aplicada ao comportamento
Coluna do Laôr
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Ensinar não é dom. É ciência aplicada ao comportamento

Por que compreender os princípios elementares do comportamento é decisivo para que o aluno aprenda — e para que a escola cumpra sua função social

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Ensinar não é um ato de boa vontade. Tampouco é resultado exclusivo de carisma, vocação ou talento individual. Ensinar é, antes de tudo, organizar condições para que a aprendizagem aconteça. E essas condições obedecem a princípios científicos bem estabelecidos sobre como o comportamento humano se desenvolve, se mantém e se transforma.

A escola brasileira, pressionada por baixos indicadores de aprendizagem e por uma crescente desmotivação dos estudantes, precisa encarar uma verdade incômoda: muitos fracassos escolares não decorrem da incapacidade do aluno, mas da forma como o ensino é organizado. É nesse ponto que os princípios elementares do comportamento, sistematizados pela Análise do Comportamento, tornam-se fundamentais para o trabalho docente.

No clássico Princípios elementares do comportamento, de Donald L. Whaley e Richard W. Malott, os autores demonstram, com clareza e rigor, que o comportamento — inclusive o comportamento de aprender — é controlado pelas suas consequências. Em termos simples: as pessoas tendem a repetir comportamentos que produzem consequências reforçadoras e a abandonar aqueles que geram punição ou frustração.

Aprender é um comportamento — e precisa ser ensinado

Responder a uma pergunta, resolver um problema matemático, ler um texto ou escrever um parágrafo são comportamentos complexos. Eles não surgem “do nada” nem florescem apenas porque o conteúdo é importante. Eles precisam ser construídos gradualmente, por meio de reforçamento adequado, feedback claro e oportunidades reais de sucesso.

Whaley e Malott mostram que a aprendizagem se fortalece quando o ensino utiliza:

  • Reforçamento positivo: consequências que aumentam a probabilidade de o aluno repetir o comportamento correto (elogios específicos, feedback imediato, sensação de progresso);
  • Modelagem: ensinar por aproximações sucessivas, partindo do que o aluno já consegue fazer;
  • Clareza de critérios: o estudante precisa saber exatamente o que é esperado;
  • Controle do ambiente: reduzir estímulos aversivos que geram esquiva, medo e ansiedade.

Quando a escola substitui esses princípios por práticas baseadas em punição, ameaça, humilhação pública ou avaliações exclusivamente classificatórias, ela ensina algo — mas não o que pretende. Ensina o aluno a evitar a tarefa, a temer o erro e a associar o aprender ao sofrimento.

O erro da punição como estratégia pedagógica

Whaley e Malott são contundentes ao mostrar que o controle aversivo — punições, constrangimentos, notas baixas sem orientação — pode até gerar obediência momentânea, mas produz efeitos colaterais graves: ansiedade, desmotivação, fuga e abandono da aprendizagem.

Na sala de aula, isso se traduz em alunos que:

  • “travem” diante de provas;
  • evitam participar;
  • desenvolvem aversão a determinadas disciplinas;
  • constroem autorregras do tipo “não sou bom nisso” ou “isso não é para mim”.

O professor, muitas vezes sem perceber, reforça esses padrões quando ignora pequenos avanços e só reage ao erro. A ciência do comportamento mostra que ninguém aprende bem sob ameaça constante.

Ensinar é planejar contingências

O papel do professor, à luz desses princípios, deixa de ser o de transmissor de conteúdo e passa a ser o de arquiteto do ambiente de aprendizagem. Cabe a ele planejar contingências que tornem o aprender possível, progressivo e motivador.

Isso não significa “facilitar” o ensino, mas torná-lo eficaz. Como defendem Whaley e Malott, rigor e prazer não são opostos. A aprendizagem pode ser exigente e, ao mesmo tempo, fluida, compreensível e significativa.

Uma escolha ética e pedagógica

Quando a escola ignora os princípios elementares do comportamento, ela terceiriza o fracasso ao aluno. Quando os compreende e os aplica, assume sua responsabilidade social: ensinar de fato.

Num país que ainda convive com graves déficits de aprendizagem, insistir em práticas pedagógicas que desconsideram a ciência do comportamento não é apenas ineficiência — é negligência. Ensinar é uma tarefa complexa demais para depender apenas da intuição. A boa notícia é que a ciência já oferece caminhos sólidos. Falta coragem institucional para segui-los.

FONTE/CRÉDITOS: Referência WHALEY, Donald L.; MALOTT, Richard W. Princípios elementares do comportamento. São Paulo: EPU, 1980.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira

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Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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