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Domingo, 30 de Agosto 2026
Formação continuada não é calendário de cursos
Coluna do Laôr

Formação continuada não é calendário de cursos

Se queremos professores melhores, precisamos parar de contar certificados e começar a observar o que a formação muda na sala de aula

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Há uma pergunta incômoda que deveria acompanhar toda política de formação de professores: o que mudou na sala de aula depois da formação?

Se não conseguimos responder, talvez estejamos medindo a coisa errada.

Durante décadas, acostumamo-nos a falar de formação continuada utilizando uma linguagem predominantemente administrativa: número de cursos, vagas oferecidas, horas de formação, frequência e certificados emitidos. São indicadores importantes. Mas nenhum deles, isoladamente, demonstra desenvolvimento profissional.

Um professor pode acumular centenas de horas de cursos e continuar enfrentando exatamente as mesmas dificuldades diante de seus alunos.

É justamente por isso que a discussão nacional sobre novas diretrizes para a formação continuada de professores pode representar uma mudança importante. A oportunidade está em abandonar definitivamente a lógica do calendário de cursos e construir uma verdadeira política de desenvolvimento profissional docente.

Essa diferença parece semântica. Não é.

Curso é uma atividade. Formação é um processo. Desenvolvimento profissional é uma trajetória.

E trajetória exige continuidade.

O professor não termina de se formar quando recebe o diploma

A legislação brasileira reconhece a formação continuada como dimensão da valorização docente. A LDB, as políticas nacionais de formação e normas recentes caminham na direção de articular aperfeiçoamento profissional, carreira e condições de trabalho.

Mas existe uma distância conhecida entre assegurar um direito no texto legal e transformá-lo em capacidade profissional dentro da escola.

A licenciatura oferece fundamentos indispensáveis. Entretanto, ninguém aprende integralmente a ensinar antes de começar a ensinar.

É quando entra na escola que o professor encontra aquilo que nenhum currículo universitário consegue reproduzir completamente: alunos reais, diferentes ritmos de aprendizagem, dificuldades inesperadas, famílias, avaliações, conflitos, inclusão, currículo, tecnologias, pressão por resultados e dezenas de decisões pedagógicas que precisam ser tomadas todos os dias.

Por isso, formação inicial e continuada não deveriam constituir mundos separados.

Aprender a ensinar é um processo de carreira.

Essa compreensão encontra respaldo em uma tradição importante dos estudos sobre formação docente. Nóvoa propõe deslocar o debate de uma perspectiva excessivamente acadêmica para o próprio terreno profissional, relacionando formação ao desenvolvimento pessoal do professor, ao desenvolvimento da profissão e ao desenvolvimento da escola. FPPD_A_Novoa (1).pdf A literatura brasileira igualmente passou a reconhecer o professor como sujeito que constrói e reconstrói saberes profissionais ao longo de sua trajetória e de sua experiência. 

SABERES DOCENTES E FORMAÇÃO DE PROFESSORES.pdf

Isso muda completamente o desenho da política.

Um professor iniciante precisa de determinadas condições. Um professor experiente necessita de outras. Quem muda de etapa, modalidade, disciplina, escola ou função enfrenta novos desafios.

Oferecer a mesma formação para todos pode facilitar a logística.

Pedagogicamente, porém, pode significar oferecer a formação certa para quase ninguém.

O início da carreira não deveria ser um teste de sobrevivência

Talvez uma das maiores fragilidades das políticas educacionais brasileiras esteja justamente nos primeiros anos da docência.

Contratamos um professor recém-formado, entregamos currículo, materiais, horários e turmas e, muitas vezes, esperamos que ele apresente rapidamente o desempenho de um profissional experiente.

Em poucas profissões complexas aceitaríamos algo semelhante.

Professores iniciantes precisam de indução profissional: acolhimento, observação de práticas, mentoria, planejamento conjunto, feedback e acompanhamento.

E mentoria não significa simplesmente colocar um professor experiente ao lado de um iniciante.

O mentor também precisa ser formado.

Precisa saber observar, formular perguntas, analisar evidências, oferecer devolutivas e ajudar o colega a desenvolver repertórios profissionais. Também necessita de tempo institucional para realizar esse trabalho.

Esse ponto é estratégico porque sistemas educacionais que desejam qualidade em escala não podem depender exclusivamente de encontrar professores extraordinários já prontos no mercado.

Precisam desenvolver capacidade institucional para formar bons professores em serviço e ajudar bons professores a se tornarem excelentes.

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes que a política de formação continuada pode produzir.

Professor protagonista não significa professor abandonado

Existe outro cuidado necessário.

Nas últimas décadas tornou-se comum afirmar que o professor deve ser protagonista de sua formação. A ideia é correta, desde que não seja utilizada para transferir ao indivíduo responsabilidades que pertencem ao sistema.

Professores não são receptores passivos de técnicas concebidas por especialistas distantes da escola. Possuem experiências, conhecimentos profissionais e interpretações sobre os problemas que enfrentam. Pesquisas sobre saberes docentes vêm justamente chamando atenção para o fato de que esses conhecimentos são construídos e reconstruídos ao longo da carreira e precisam ser considerados nos processos formativos. 

SABERES DOCENTES E FORMAÇÃO DE PROFESSORES.pdf

Mas protagonismo não pode significar: “a formação está disponível; agora cada professor cuide da sua”.

Isso não é autonomia.

É abandono institucional disfarçado de liberdade profissional.

A qualidade da atuação docente depende também de currículo, liderança, materiais, tamanho das turmas, tecnologia, estabilidade das equipes, apoio especializado, tempo para planejamento e condições concretas de trabalho.

Competência sem condições vira cobrança. Autonomia sem suporte vira abandono.

Por isso, redes de ensino, escolas, universidades e instituições formadoras precisam assumir corresponsabilidade pelo desenvolvimento profissional.

A melhor formação precisa conversar com a escola

Há uma razão para a formação em serviço ser tão importante: os problemas mais relevantes da profissão aparecem no próprio trabalho.

É na escola que o professor descobre que determinado estudante não aprendeu. É ali que percebe que uma estratégia funcionou para uma turma e não para outra. É ali que o currículo deixa de ser documento e se transforma em experiência educacional.

Sacristán lembra que o currículo ganha significado educativo à medida que se transforma em prática e que não há sentido em reformar conteúdos sem alterar procedimentos e condições de realização. 

kupdf.net_o-curriculo-uma-reflexatildeo-sobre-a-praacutetica.pdf

A formação precisa aproximar-se dessa fronteira.

Mas isso não significa transformar qualquer reunião pedagógica em formação.

Uma reunião administrativa continua sendo administrativa, mesmo quando recebe um nome pedagógico.

Formação em serviço exige intencionalidade, objetivos, conhecimento especializado, análise da prática, acompanhamento e evidências.

As comunidades profissionais de aprendizagem podem contribuir muito nesse processo quando professores analisam conjuntamente dificuldades dos estudantes, estudam alternativas, planejam intervenções, experimentam, observam resultados e ajustam suas estratégias.

A escola começa, então, a fazer algo extremamente poderoso:

aprende sobre a própria prática.

Formação precisa produzir repertório, não apenas informação

Há ainda uma distinção fundamental.

Saber alguma coisa não significa necessariamente saber fazê-la.

Um professor pode compreender conceitualmente avaliação formativa e continuar sem conseguir formular um bom feedback. Pode conhecer metodologias ativas e ter dificuldade para organizar uma situação de aprendizagem. Pode estudar inclusão e não conseguir adaptar uma atividade diante de um estudante concreto.

É nessa passagem do conhecimento declarativo para o desempenho profissional que muitas políticas de formação fracassam.

Na perspectiva comportamental, ensinar significa organizar condições para que novos repertórios possam ser adquiridos e utilizados. Não basta apresentar informação e esperar que a mudança aconteça.

Precisamos criar oportunidades de estudo, modelação, prática, feedback, refinamento e nova aplicação.

A própria literatura sobre ensino demonstra que as contingências planejadas importam. Estudos sobre aprendizagem sem erro, por exemplo, mostram que procedimentos cuidadosamente organizados podem favorecer desempenhos mais precisos e reduzir consequências indesejáveis associadas ao erro, como esquiva da tarefa ou do próprio contexto de ensino. 

Ensino Sem Erro e Aprendizagem de Discriminação(1).pdf

O mesmo princípio merece atenção na formação docente.

Se queremos novos comportamentos profissionais, precisamos criar condições para que sejam aprendidos, praticados, acompanhados e fortalecidos.

E então chegamos à pergunta mais difícil: funcionou?

Talvez seja essa a mudança mais necessária.

Ao final de uma formação, normalmente perguntamos:

Gostou do curso?

O formador dominava o conteúdo?

O material foi adequado?

A carga horária foi suficiente?

Essas perguntas são úteis. Mas são apenas o começo.

Precisamos acrescentar outras:

O professor aprendeu?

Conseguiu aplicar?

O que mudou em sua prática?

A escola ofereceu condições para sustentar essa mudança?

Os estudantes passaram a ter melhores oportunidades de aprendizagem?

A formação precisa ser acompanhada como uma cadeia de mudanças:

formação → aprendizagem profissional → aplicação → mudança da prática → aprendizagem dos estudantes.

Isso não significa estabelecer relações causais simplistas.

Educação não funciona dessa maneira.

Resultados escolares são produzidos por inúmeras variáveis, e pesquisas sobre eficácia escolar mostram justamente os cuidados necessários ao tentar atribuir resultados a escolas ou profissionais isoladamente. Mesmo modelos estatísticos sofisticados enfrentam limitações quando tentam estimar contribuições específicas para a aprendizagem. 

4hPSPhzsDvHsLk5y7MMXLJB.pdf

Portanto, dados de aprendizagem devem servir principalmente para investigação e melhoria, não para procurar culpados.

O gestor escolar ocupa uma posição decisiva

Nenhuma política nacional chegará à sala de aula apenas porque foi publicada.

Entre a resolução e o estudante existe a organização escolar.

E é nesse espaço que o gestor exerce uma função estratégica.

Cabe à liderança proteger tempo para formação, impedir que horários pedagógicos sejam consumidos integralmente por burocracia, organizar acompanhamento, favorecer observação entre pares, utilizar evidências de aprendizagem e construir uma cultura em que reconhecer dificuldades não seja interpretado como incompetência.

Esse talvez seja um dos indicadores mais sofisticados de uma escola que aprende:

o professor consegue dizer “não sei fazer isso ainda” sem medo.

Quando isso acontece, dificuldades deixam de ser escondidas e passam a constituir objetos de desenvolvimento profissional.

O professor é o maior ativo pedagógico da educação

É preciso abandonar uma visão corretiva da formação continuada.

Professor não faz formação porque está “defasado”.

Faz formação porque exerce uma profissão complexa em uma sociedade que muda permanentemente.

Imbernón já chamava atenção para a necessidade de compreender a formação como elemento essencial do desenvolvimento profissional e para a importância de aproximá-la da escola e dos problemas concretos da profissão. 

IMBERNON_Francisco_Formacao_docente_e_pr.pdf

Esse princípio deveria orientar a política brasileira.

O professor é provavelmente o maior ativo pedagógico de qualquer sistema educacional. Mas ativos estratégicos precisam de investimento, ambiente, liderança, acompanhamento e oportunidades permanentes de desenvolvimento.

Não podemos depender da sorte de encontrar profissionais prontos.

Precisamos construir organizações capazes de desenvolvê-los.

A formação continuada será realmente transformadora quando deixar de ocupar apenas uma linha no calendário escolar e passar a integrar a carreira, a jornada de trabalho, a liderança pedagógica e o cotidiano da escola.

Quando o indicador de sucesso deixar de ser somente quantos professores participaram e passar a incluir o que aprenderam, o que conseguiram fazer melhor e o que seus alunos passaram a aprender em consequência disso.

Porque, no fim, essa é a medida que importa.

Certificado registra presença. Desenvolvimento profissional deixa evidências na prática.

E uma política pública de formação só estará completa quando essas evidências chegarem à aprendizagem dos estudantes.

FONTE/CRÉDITOS: Laôr Fernandes de Oliveira
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira

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Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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