“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
Constituição da República Federativa do Brasil, art. 1º, parágrafo único
A campanha eleitoral começou oficialmente e, aos poucos, o cotidiano será novamente ocupado por promessas, slogans, vídeos, discursos e soluções para quase todos os problemas conhecidos. Na próxima sexta-feira, com o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, essa presença tende a se intensificar ainda mais.
É natural que seja assim. Uma eleição existe justamente para que candidatos apresentem ideias, propostas e visões diferentes sobre o futuro. O problema começa quando a promessa passa a ser avaliada apenas pela capacidade de despertar concordância, esperança ou indignação, sem que se examine com o mesmo interesse sua possibilidade real de execução.
Talvez uma das perguntas mais importantes desta eleição seja também uma das menos feitas. Quem promete sabe como fazer?
A legislação eleitoral exige que candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais apresentem as propostas defendidas por suas candidaturas no momento do registro. Isso permite ao eleitor conhecer formalmente aquilo que pretendem realizar. Entre registrar uma proposta, anunciá-la durante a campanha e transformá-la depois em política pública, entretanto, existe uma distância considerável. É nesse espaço que a gestão deixa de ser assunto técnico e passa a ser parte essencial daquilo que estamos escolhendo nas urnas.
Durante uma campanha, problemas extremamente complexos conseguem caber em poucas palavras. Melhorar a saúde, aumentar a segurança, reduzir impostos, criar empregos, ampliar investimentos, construir infraestrutura ou qualificar a educação são objetivos capazes de reunir enorme concordância. A dificuldade aparece quando precisamos compreender de que maneira essas intenções serão transformadas em ações concretas.
Uma política pública não depende somente da vontade de quem governa. Ela pode exigir recursos financeiros, mudança legislativa, aprovação parlamentar, licitação, contratação de servidores ou empresas, licenciamento, articulação entre União, estados e municípios, capacidade técnica da administração e tempo de implantação. Em algumas situações, aquilo que parece depender simplesmente da decisão de um governante sequer pertence à competência do cargo para o qual ele está concorrendo.
Esse é um dos grandes ruídos das campanhas eleitorais. Discutimos intensamente aquilo que queremos que aconteça e muito menos os mecanismos capazes de fazer com que aconteça.
Isso não significa exigir que cada proposta eleitoral venha acompanhada de centenas de páginas de cálculos, cronogramas e projetos executivos. Seria pouco razoável. Também não significa transformar a política em atividade exclusivamente técnica, como se governar pudesse ser reduzido a uma planilha administrativa. A política envolve representação, valores, escolhas, prioridades e interesses conflitantes. É justamente por meio dela que uma sociedade decide para onde pretende caminhar.
O erro está em imaginar que política e gestão ocupam lados opostos. E eu te pergunto, quem cunhou essa moeda?
Uma decisão política pode estabelecer que determinada área deve receber prioridade. A gestão precisa transformar essa escolha em orçamento, pessoas, processos, contratos, prazos e resultados. Sem direção política, a administração pode até ser eficiente sem saber exatamente a serviço de qual projeto de sociedade está funcionando. Sem capacidade de gestão, uma boa decisão política corre o risco de permanecer no território das intenções.
A própria estrutura constitucional brasileira ajuda a perceber essa realidade. Governos não podem transformar ideias diretamente em despesas, obras ou serviços. Existem instrumentos de planejamento e orçamento, limites fiscais, competências institucionais, procedimentos administrativos e mecanismos de controle. Parte disso costuma ser apresentada genericamente como burocracia, mas esses instrumentos também existem para organizar prioridades, permitir fiscalização e impedir que o dinheiro público seja administrado apenas conforme a vontade circunstancial de quem ocupa o poder.
Por isso, talvez o eleitor precise aprender a observar não somente o benefício anunciado por uma promessa, mas também o caminho apresentado para alcançá-lo.
Se alguém promete criar milhares de vagas em determinado serviço público, importa compreender minimamente como pretende ampliar a estrutura necessária para oferecê-las. Se anuncia uma grande obra, é razoável saber como imagina financiá-la. Se apresenta uma solução nacional para um problema cuja execução depende de estados ou municípios, interessa conhecer de que forma pretende construir essa articulação.
Há ainda outra distorção recorrente. Candidatos ao Legislativo frequentemente são avaliados por promessas de execução direta de obras, serviços e políticas públicas que pertencem ao Executivo. Deputados e senadores possuem funções decisivas na elaboração das leis, na aprovação dos orçamentos, na fiscalização do governo e na representação política. Cobrá-los por aquilo que não pertence ao cargo contribui para uma campanha na qual candidatos prometem errado porque parte do eleitorado também aprendeu a cobrar errado.
Fazer essas perguntas não diminui a política. Ao contrário, ajuda a qualificá-la.
Durante muito tempo nos acostumamos a tratar programas e propostas de governo quase como documentos acessórios das eleições. A disputa costuma ser dominada por personalidades, conflitos, alianças, pesquisas, frases de efeito e episódios produzidos diariamente pelas campanhas. A discussão sobre como cada candidato pretende administrar o Estado frequentemente perde espaço para aquilo que produz maior repercussão imediata. Mas a campanha termina e o governo começa.
Depois da posse, o slogan encontra o orçamento, a promessa encontra a legislação, a vontade encontra a estrutura administrativa e a urgência encontra procedimentos que não desaparecem porque uma eleição foi vencida. É também nesse momento que ideias precisam encontrar pessoas, instituições, recursos e uma realidade que raramente se comporta com a simplicidade apresentada durante uma campanha.
A capacidade de gestão, portanto, não é um detalhe posterior à escolha política. Ela faz parte da possibilidade de transformar essa escolha em alguma coisa que a sociedade possa efetivamente perceber.
O eleitor não precisa dominar orçamento público, direito administrativo ou planejamento governamental para avaliar melhor as propostas que receberá nos próximos meses. Pode começar apenas recusando a ideia de que desejar uma solução e saber executá-la sejam a mesma coisa. Diante de uma proposta importante, vale procurar entender se ela é realizável, de quem depende, quais recursos exigirá, se pertence à competência daquele cargo e qual caminho minimamente plausível existe entre o anúncio e o resultado.
Isso não significa abandonar sonhos ou desconfiar de qualquer projeto ambicioso. Grandes transformações dificilmente nasceriam de uma política incapaz de imaginar algo diferente do presente. O problema não está em prometer mudanças grandes. Está em apresentar um destino sem demonstrar qualquer compreensão sobre o caminho necessário para chegar até ele.
Nas próximas semanas ouviremos muitas pessoas dizendo o que pretendem fazer pelo Brasil e pelos estados. Talvez esta eleição seja também uma boa oportunidade para amadurecermos a forma como escutamos essas promessas.
Porque escolher quem sabe dizer o que queremos ouvir é relativamente fácil. Mais difícil, e provavelmente mais importante, é descobrir quem compreende o que será necessário fazer depois que os palanques forem desmontados.
Jogo que segue…
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias
Folha de Florianópolis
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