Tenho a sensação de que o Brasil nunca ofereceu tantos cursos de formação continuada — e, paradoxalmente, nunca ouviu tão pouco seus professores. A cada novo programa, plataforma ou pacote formativo, repete-se a promessa de melhoria da aprendizagem. Mas, no chão da escola, o que permanece é uma pergunta incômoda: por que tanto investimento gera tão pouco efeito duradouro?
Essa inquietação voltou com força após a leitura de António Nóvoa, especialmente no texto Formação de Professores e Profissão Docente. Nóvoa propõe um deslocamento simples e, ao mesmo tempo, radical: sair de uma formação centrada em conteúdos, disciplinas e prescrições acadêmicas para uma formação ancorada no terreno da profissão, na prática real e no cotidiano da escola. Não se trata de negar o conhecimento, mas de recolocá-lo no lugar certo.
Historicamente, a profissão docente se consolidou sob forte tutela do Estado. A escola normal, os concursos, os currículos oficiais e os manuais pedagógicos ajudaram a organizar o sistema, mas também produziram uma imagem de professor como executor fiel de decisões tomadas fora da escola. Ao longo do tempo, essa lógica foi se sofisticando: novas teorias, novos modismos, novas metodologias — quase sempre embaladas em cursos rápidos, desconectados do contexto em que o professor trabalha.
O resultado é conhecido por quem vive a escola pública brasileira. Professores sobrecarregados por burocracias, pressionados por indicadores, isolados em suas salas de aula e convocados, ciclicamente, a “se atualizarem” em formações que pouco dialogam com seus dilemas reais. Não falta conteúdo; falta sentido.
Nóvoa ajuda a nomear esse impasse ao afirmar que a formação docente precisa ser pensada como um processo integrado de três dimensões inseparáveis. A primeira é o desenvolvimento pessoal — produzir a vida do professor. Não há profissão forte quando o sujeito está esgotado, desvalorizado e invisível. Formar professores também é cuidar das condições de trabalho, do tempo, da escuta e do reconhecimento simbólico.
A segunda dimensão é o desenvolvimento profissional — produzir a profissão docente. Isso significa reconhecer que o saber do professor não nasce apenas na universidade ou nos cursos externos, mas se constrói na prática, na reflexão coletiva, na análise do que funciona e do que fracassa em sala de aula. Quando a formação ignora esse saber profissional, ela infantiliza o professor e transforma a docência em cumprimento de protocolos.
A terceira dimensão é o desenvolvimento organizacional — produzir a escola. Talvez aqui esteja o ponto mais negligenciado das políticas públicas. A escola raramente é tratada como espaço formativo. Na maioria das redes, forma-se o indivíduo para depois “aplicá-lo” na escola, como se o contexto fosse neutro. Mas não é. Sem equipes estáveis, liderança pedagógica, tempos coletivos de estudo e uma cultura de colaboração, nenhuma formação se sustenta.
É por isso que tantas políticas de formação continuada fracassam. Não porque sejam mal-intencionadas ou tecnicamente frágeis, mas porque desconsideram o professor como sujeito da profissão e a escola como lugar de produção de conhecimento. Formar, nesse modelo, vira um ato externo, episódico e solitário.
Se queremos melhorar a aprendizagem dos estudantes, precisamos encarar uma verdade incômoda: não existe educação de qualidade sem investimento real na profissão docente. Isso implica repensar o papel das secretarias, das universidades e dos sistemas de ensino. Menos cursos padronizados, mais projetos formativos ancorados na escola. Menos prescrições, mais confiança profissional. Menos distância entre quem forma e quem ensina.
Escrevo este artigo como quem dialoga com Nóvoa, mas pensa no Brasil concreto: salas cheias, professores cansados, gestores pressionados por resultados. Ainda assim, sigo esperançoso. Porque quando a formação respeita a vida do professor, fortalece a profissão e transforma a escola em comunidade de aprendizagem, ela deixa de ser obrigação — e passa a ser potência.
Talvez, afinal, o problema da formação de professores não seja a falta de cursos, mas o excesso de distância entre quem forma e quem vive a escola todos os dias.
Folha de Florianópolis
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