Antes de existir wi fi, tiktok, celular, burnout ou home office, o mundo já reclamava dos jovens.
Cerca de 450 anos antes de Cristo, Sócrates dizia: “Os jovens de hoje não têm respeito pelos mais velhos, são rudes e impacientes. Não ajudam os idosos e contradizem seus pais.”
Séculos depois, Hesíodo, (8 aC), alertava que “a geração atual vai degenerar a sociedade futura, criando conflitos e dores.”
No Evangelho de Lucas (7:31), encontramos a mesma inquietação: “os homens dessa geração são como crianças sentadas na praça. Difíceis de agradar, não celebram com a festa nem se entristecem com o lamento.”
Três épocas tão distantes, três mundos completamente diferentes, três civilizações que nunca se encontraram. E, mesmo assim, todas repetem a mesma queixa.
Pense comigo.
E se o problema nunca foi a geração mais nova?
E se o problema for a nossa dificuldade de compreender o novo que esta a nossa frente?
A crítica aos jovens é quase um patrimônio da humanidade. Ela se repete há milhares de anos.
O que muda não é o incômodo.
O que muda é o palco onde tudo acontece.
E aqui entra o ponto central: a evolução humana é constante. Ela não depende de nossa vontade. Acontece sempre, silenciosa ou escancarada. A tecnologia não criou os conflitos entre gerações. Ela apenas mostra o que sempre existiu, como se tivesse acendido todas as luzes ao mesmo tempo.
Hoje vivemos assim:
A ansiedade aparece em tempo real.
A comparação surge a cada conversa.
A tecnologia cresce sem pedir licença.
Não é que os jovens sejam mais perdidos, frágeis ou desrespeitosos.
É que agora tudo está à mostra. E tudo acontece mais rápido.
A geração mais velha tenta proteger a ordem que construiu ao longo da vida.
A geração mais jovem tenta criar uma ordem nova, mais alinhada com os tempos que ela enxerga.
E é por causa desse conflito que a humanidade sempre evoluiu.
Quando olhamos para trás, percebemos que aquilo que chamamos de problema talvez seja apenas continuidade. Apenas o próximo capítulo de uma história que não começou conosco e não terminará depois de nós.
O comportamento humano não muda tanto quanto imaginamos.
O que muda é a velocidade com que esse comportamento aparece diante dos nossos olhos.
O julgamento sobre os jovens sempre existiu, mas agora ecoa em cada tela que abrimos, em cada timeline que deslizamos com o dedo.
Quando repetimos que “os jovens de hoje não respeitam nada”, apenas traduzimos em português moderno a frase de Sócrates, dita há 2.500 anos.
E talvez o que chamamos de falta de respeito seja, na verdade, a coragem de rejeitar modelos que já não entregam aquilo que prometiam.
Talvez o que chamamos de mimimi seja só o nome que damos para o que ainda não aprendemos a compreender.
No fim das contas, o jovem de hoje não é o problema.
O problema é acreditar que a próxima geração deveria viver pelas regras da anterior.
Folha de Florianópolis
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