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Domingo, 31 de Maio 2026
O Brasil cansado: a estranha era em que todo mundo virou produto, marca e sobrevivente

Coluna da Helena
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O Brasil cansado: a estranha era em que todo mundo virou produto, marca e sobrevivente

Entre inteligência artificial, crise climática, polarização política e insegurança econômica, o brasileiro tenta parecer produtivo enquanto negocia silenciosamente a própria exaustão.

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Há uma cena acontecendo silenciosamente no Brasil que talvez seja uma das maiores contradições da nossa geração:

todo mundo está cansado, mas todo mundo continua fingindo performance.

O sujeito acorda cansado. Trabalha cansado. Estuda cansado. Empreende cansado. Produz conteúdo cansado. Sorri cansado no LinkedIn.

E depois publica: “Gratidão por mais um dia produtivo.”

Naturalmente. Afinal, colapsar publicamente prejudica o engajamento.

Durante muito tempo eu achei que estávamos vivendo crises separadas. Política de um lado. Economia do outro. Tecnologia avançando aqui. Clima enlouquecendo ali.

Mas não.

Estamos vivendo uma única transformação histórica observada por ângulos diferentes.

E talvez o brasileiro já tenha percebido isso antes mesmo dos especialistas. O problema é que ele percebe pelo corpo, não pelo discurso.

Percebe quando o mercado exige que ele seja multitarefa, estrategista, criador de conteúdo, vendedor, resiliente, emocionalmente inteligente e ainda saiba usar inteligência artificial “para ontem”.

Porque agora até o desemprego precisa vir acompanhado de boa estética visual.

A era em que pessoas viraram pequenas empresas

Existe algo profundamente curioso acontecendo.

As pessoas não querem mais apenas trabalhar. Elas sentem necessidade de se transformar em posicionamento.

Hoje, qualquer profissão exige presença digital. Até o silêncio virou estratégia de marca.

O jornalista precisa performar autoridade. O médico precisa gerar conteúdo. O advogado precisa parecer acessível. O empresário precisa parecer visionário. O ser humano precisa parecer funcional.

E no meio disso tudo, a inteligência artificial chega prometendo “otimizar processos”.

Expressão elegante. Quase poética.

Otimizar processos” soa muito melhor do que: “descobrir quantas funções humanas podem ser reduzidas em custo operacional.

A IA não está apenas mudando profissões. Ela está mudando a percepção de valor humano.

Antes, experiência era diferencial. Agora, velocidade virou obsessão.

E isso produz um efeito psicológico devastador: ninguém sente que sabe o suficiente por tempo suficiente.

A sustentabilidade que deixou de ser moral e virou negócio

Durante anos, empresas descobriram árvores emocionalmente apenas no mês do meio ambiente.

Agora a crise climática virou pauta séria porque finalmente encontraram um detalhe que o mercado respeita profundamente: possibilidade de lucro.

É quase comovente observar como o planeta ganhou relevância depois que virou ativo financeiro.

Carbono. Energia limpa. ESG. Neoindustrialização verde.

Subitamente, preservar passou a ser estratégico.

Não porque o mundo ficou mais consciente. Mas porque percebeu que o colapso ambiental afeta investimento, produção, cadeia logística, seguro, alimento e estabilidade econômica.

A natureza entrou oficialmente na bolsa de valores emocional da humanidade.

E o brasileiro sente isso sem precisar ler relatório internacional.

Sente no calor absurdo. No preço do alimento. Na conta de energia. Na enchente. Na seca. Na sensação constante de instabilidade.

A política deixou de discutir ideias e passou a disputar atenção

Talvez essa seja a transformação mais perigosa.

A política já não funciona apenas no campo ideológico. Ela opera dentro da lógica do algoritmo.

E o algoritmo não premia equilíbrio. Premia intensidade.

Quanto mais indignação, mais alcance.

Quanto mais medo, mais compartilhamento.

Quanto mais conflito, mais retenção.

Então criamos um ecossistema onde pessoas emocionalmente exaustas passam horas consumindo narrativas produzidas para deixá-las ainda mais exaustas.

É uma engenharia emocional sofisticada.

E curiosamente muita gente ainda acredita que está “formando opinião”, quando na verdade apenas está sendo conduzida por estímulos cuidadosamente calibrados para prender atenção.

O brasileiro não está empreendedor. Está sobrevivente.

Essa talvez seja a mentira corporativa mais bem aceita da década.

Existe uma romantização quase obscena da sobrevivência.

Chamam precarização de liberdade. Chamam exaustão de alta performance. Chamam insegurança de mentalidade empreendedora.

Claro, algumas pessoas prosperam. Mas há uma diferença entre empreender por visão e empreender porque o sistema perdeu capacidade de oferecer estabilidade.

Me parece que muita gente não abriu negócio porque sonhava empreender. Abriu porque precisava continuar existindo economicamente.

E isso muda tudo.

Porque um país onde todos vivem em estado permanente de adaptação começa lentamente a perder algo essencial: capacidade de projetar futuro.

Talvez o verdadeiro esgotamento moderno não seja físico

Talvez seja cognitivo.

Informação demais. Urgência demais. Mudança demais. Comparação demais.

Nunca fomos tão estimulados. Nunca fomos tão distraídos. Nunca tivemos tanto acesso. Nunca parecemos tão perdidos.

E existe algo quase cruel nisso tudo:

a obrigação permanente de parecer bem enquanto o mundo inteiro se reorganiza diante dos nossos olhos.

No fundo, talvez essa seja a grande imagem do Brasil contemporâneo:

uma população tentando acompanhar a velocidade da transformação tecnológica, econômica e emocional sem ter tempo sequer para entender o que exatamente está acontecendo.

Mas segue produzindo. Postando. Opinando. Performando.

Porque parar para pensar virou luxo.

Às vezes me parece que a sociedade inteira entrou em uma espécie de corrida invisível onde ninguém sabe exatamente para onde está indo, mas todos sentem pânico de parar.

E talvez o mais perturbador não seja a velocidade da mudança, mas o fato de que começamos a tratar exaustão como demonstração de valor. Como se estar cansado fosse prova moral de utilidade social.

E talvez seja aqui que todos esses assuntos finalmente se encontrem.

A inteligência artificial acelera a produtividade. A crise climática altera a economia. A política disputa narrativas emocionais. E a insegurança financeira obriga pessoas a viverem em estado permanente de adaptação.

São temas diferentes. Mas todos produzem o mesmo efeito psicológico: instabilidade.

Nada parece sólido. Nenhuma profissão parece definitiva. Nenhuma verdade parece durar. Nenhuma habilidade parece suficiente por muito tempo.

O resultado é uma sociedade inteira tentando se atualizar mais rápido do que consegue se compreender.

Eu sinceramente acho curioso como fomos convencidos de que adaptação constante é sinônimo de evolução.

Porque existe uma diferença enorme entre evoluir e apenas viver cansado tentando não ficar para trás. Mas a estética contemporânea da produtividade conseguiu misturar as duas coisas até que parecessem iguais.

E isso explica por que existe tanta ansiedade coletiva mesmo em uma era de avanços tecnológicos históricos.

Porque o ser humano consegue suportar trabalho duro. Consegue suportar crise. Consegue suportar escassez.

O que ele não suporta por muito tempo é viver sem previsibilidade.

Talvez o esgotamento moderno não venha apenas do excesso de tarefas.

Talvez venha da sensação constante de que o chão intelectual, econômico e emocional está sendo trocado enquanto ainda estamos em pé sobre ele.

E ainda assim seguimos sorrindo em fotos corporativas, publicando frases sobre produtividade e chamando sobrevivência psicológica de “adaptabilidade”.

Civilizações antigas pelo menos tinham a honestidade estética do colapso.

A nossa exige boa iluminação, branding pessoal e legenda inspiradora.

FONTE/CRÉDITOS: Helena Souza | Loba Urbana
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem produzida com auxílio de IA sob direção criativa da autora
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Helena Souza | Loba Urbana

Publicado por:

Helena Souza | Loba Urbana

Aqui sou uma colunista que escreve sobre comportamento humano, cotidiano e sociedade a partir de uma leitura crítica e prática da realidade. Observa o mundo sem filtros ideológicos fixos, buscando reflexão antes de opinião.

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