“O esporte tem o poder de mudar o mundo.”
Nelson Mandela
O Esporte Me Moldou! Antes de uma criança aprender a vencer, ela precisa aprender a chegar no horário. Antes de levantar um troféu, precisa entender que existe treino, repetição, regra, professor, colega, adversário, frustração e limite. Talvez seja por isso que o esporte, quando bem conduzido, seja uma das formas mais completas de educação que uma sociedade pode oferecer aos seus jovens.
Durante muito tempo, tratamos a prática esportiva como atividade complementar. Algo importante para a saúde, para gastar energia, para ocupar o contraturno escolar ou, em alguns casos, para descobrir talentos. Essa visão não está errada, mas não vai além do nosso horizonte. O esporte é muito mais do que isso. Ele é uma escola concreta de convivência, disciplina, organização, respeito e responsabilidade. Ensina no corpo aquilo que muitas vezes a escola, a família e a sociedade tentam ensinar apenas pelo discurso.
Uma quadra, um campo, uma piscina, uma pista ou uma cancha podem parecer espaços simples. Mas, quando existe orientação adequada, eles se transformam em ambientes profundos de formação humana. Ali a criança aprende que não basta querer. É preciso treinar. Aprende que talento sem constância não sustenta resultado. Aprende que a regra vale também quando contraria a sua vontade. Aprende que o colega não é figurante do seu desejo individual. Que o adversário não é inimigo. E que perder faz parte, mas desistir de evoluir não deveria fazer.
Esse aprendizado tem um valor que vai muito além do esporte. Uma criança que entende a importância do treino começa a compreender a lógica do esforço. Um jovem que aprende a respeitar uma regra no jogo tem mais chance de entender o valor da regra na vida coletiva. Quem aprende a lidar com a frustração de uma derrota, com a correção de um professor ou com a necessidade de cooperar com um time, desenvolve recursos emocionais e sociais que serão úteis na escola, no trabalho, na família e na cidadania.
É aqui que a educação esportiva precisa ser compreendida como política de futuro. A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças e adolescentes pratiquem, em média, ao menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa ao longo da semana. Não se trata apenas de desempenho físico. A prática regular está ligada à saúde, ao desenvolvimento, ao bem-estar e à redução do comportamento sedentário.
No Brasil, os dados mostram que ainda há um longo caminho. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, do IBGE, apenas 28,1 por cento dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos praticaram 300 minutos ou mais de atividade física na semana anterior à pesquisa de 2019. Em outras palavras, a maioria dos adolescentes brasileiros estava abaixo de um nível considerado adequado de prática física.
Esse dado não deveria preocupar apenas médicos, professores de educação física ou dirigentes esportivos. Deveria preocupar prefeitos, secretários de educação, famílias, empresários, urbanistas e todos aqueles que pensam o futuro das cidades. Uma geração sedentária não é apenas uma geração com maior risco de adoecimento físico. É também uma geração que pode perder experiências fundamentais de convivência, persistência, limite, cooperação e construção de autonomia.
A Lei Geral do Esporte, aprovada no Brasil em 2023, ajuda a colocar o tema no lugar correto ao tratar a formação esportiva como acesso à prática por meio de ações planejadas, inclusivas, educativas, culturais e lúdicas, direcionadas ao desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. A lei não reduz o esporte à competição. Ela reconhece seu papel formativo.
Um ponto é essencial. Educação esportiva não é colocar crianças para competir a qualquer custo. Não é confundir formação com pressão precoce por desempenho. Não é transformar todo aluno em atleta de rendimento. O erro de algumas famílias, escolas e projetos está justamente em antecipar a lógica do alto desempenho antes de formar a base humana. Quando isso acontece, o esporte deixa de educar e passa a reproduzir ansiedade, vaidade, exclusão e frustração mal conduzida.
A boa educação esportiva faz o contrário. Ela ensina que disciplina não é castigo. Disciplina é estrutura. É a capacidade de organizar o corpo, o tempo, a energia e a vontade em direção a um objetivo. Uma criança disciplinada não é uma criança domesticada. É uma criança que começa a perceber que liberdade sem direção vira dispersão. Que vontade sem método se perde. Que sonho sem rotina costuma virar apenas fantasia.
O mesmo vale para a organização. No esporte, a organização aparece em gestos simples. Separar o uniforme. Cuidar do material. Respeitar o horário do treino. Entender a função de cada posição. Ouvir a orientação antes de executar. Aquecer antes de jogar. Descansar para recuperar. Alimentar-se melhor. Preparar-se para o próximo desafio. Tudo isso forma uma inteligência prática que a vida adulta cobrará de maneira muito mais dura.
E um ponto delicado, mas necessário, que é o respeito à hierarquia. A palavra hierarquia anda mal compreendida. Muitos a associam imediatamente a abuso, autoritarismo ou obediência cega. Essa confusão empobrece o debate. Hierarquia saudável não é submissão. É reconhecimento de papéis, responsabilidades e competências. No esporte, a criança aprende que existe professor, treinador, árbitro, capitão, colega mais experiente e regra coletiva. Aprende que nem toda contrariedade é injustiça. Que nem toda correção é agressão. A autoridade legítima não existe para humilhar, mas para orientar, proteger e elevar o padrão do grupo.
Esse talvez seja um dos maiores benefícios da educação esportiva em uma sociedade que oscila entre dois extremos ruins. De um lado, a rejeição de qualquer autoridade. De outro, a aceitação passiva de qualquer imposição. O esporte bem conduzido ensina o caminho do meio. Ensina que autoridade precisa ser respeitada quando é legítima, técnica e responsável. E também ensina que liderança não é grito, medo ou arbitrariedade, mas capacidade de conduzir pessoas dentro de regras claras.
É por isso que o papel do professor e do treinador é tão importante. Um mau treinador pode destruir a experiência esportiva de uma criança. Pode gerar medo, vergonha, bloqueio e abandono. Mas um bom treinador pode marcar uma vida inteira. Pode ser a primeira figura adulta fora da família a ensinar firmeza sem violência, cobrança sem humilhação, disciplina sem brutalidade e pertencimento sem permissividade. Aprendi na minha formaçao como técnico e treiandor esportivo que um treindor é acima de tudo um solucionador de problemas.
Essa dimensão formativa também é reconhecida em programas públicos brasileiros. O Programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, tem como objetivo democratizar o acesso à prática e à cultura do esporte, promovendo o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens como fator de formação da cidadania e melhoria da qualidade de vida, especialmente em áreas de vulnerabilidade social.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura também trata a educação física de qualidade como parte de uma política educacional ampla, ligada à inclusão, à aprendizagem, à saúde e à participação social. O Fundo das Nações Unidas para a Infância, por sua vez, sustenta que esporte, recreação e brincadeira integram o direito da criança a participar de atividades seguras e saudáveis, com impacto sobre desenvolvimento, socialização e habilidades para a vida.
Mas nenhuma política pública será suficiente se a cidade não compreender o esporte como infraestrutura humana. Construir quadras é importante. Abrir escolinhas é importante. Financiar projetos é importante. Mas o que define a qualidade de uma política esportiva não é apenas o número de espaços inaugurados. É o projeto pedagógico que sustenta esses espaços. É a formação dos profissionais. É a inclusão das crianças que não têm talento aparente. É a permanência dos jovens que mais precisam de referência. É a capacidade de fazer do esporte uma experiência de pertencimento e não apenas de seleção.
A minha cidade, Florianópolis, como tantas outras cidades brasileiras, discute mobilidade, turismo, inovação, segurança, desenvolvimento econômico e qualidade de vida. Todos esses temas são relevantes. Mas talvez falte colocar com mais força a formação das novas gerações no centro da conversa urbana. Uma cidade inteligente não é apenas aquela que instala tecnologia. É aquela que forma pessoas capazes de viver melhor em comunidade.
O esporte pode ajudar nisso porque ensina algo que está ficando raro. Ensina presença. Ensina corpo. Ensina convivência real. Em uma época em que tantas crianças e adolescentes crescem mediados por telas, estímulos rápidos e recompensas imediatas, a prática esportiva organizada devolve uma pedagogia do tempo. Mostra que nem tudo acontece na hora. Que evolução exige repetição. Que ninguém melhora apenas porque deseja melhorar. Que o corpo precisa aprender o que a mente ainda não entendeu.
A educação esportiva não resolve sozinha os problemas da infância, da juventude, da escola ou da cidade. Seria ingênuo afirmar isso. Mas ela ocupa um lugar que nenhuma palestra, cartilha ou campanha consegue ocupar da mesma forma. Ela transforma valores em experiência. Faz a criança sentir a consequência de suas escolhas. Mostra que o individual depende do coletivo. Mostra que a regra protege o jogo. Mostra que o limite não é inimigo da liberdade, mas condição para que todos possam participar.
Se queremos cidadãos mais responsáveis, talvez devamos começar por ambientes onde responsabilidade seja treinada. Se queremos jovens mais organizados, precisamos oferecer rotinas que ensinem organização. Se queremos adultos capazes de respeitar regras, papéis e instituições, precisamos formar crianças que compreendam, desde cedo, a diferença entre autoridade legítima e autoritarismo.
No fim, a pergunta não é apenas quantos atletas uma cidade consegue formar. A pergunta mais importante é que tipo de cidadão ela está ajudando a construir. Porque nem toda criança será campeã. Nem todo jovem seguirá carreira esportiva. Mas todos precisarão aprender a conviver, respeitar, cooperar, perder, recomeçar, cumprir regras, lidar com frustrações e assumir responsabilidades.
Quando o esporte ensina isso, ele deixa de ser apenas jogo. Torna-se educação. E uma sociedade que compreende essa diferença começa a formar o futuro antes que ele chegue atrasado.
Jogo que segue…
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias
Folha de Florianópolis
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