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Sábado, 18 de Abril 2026
O livro didático entre a política pública e a sala de aula

Coluna do Laôr
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O livro didático entre a política pública e a sala de aula

O que os professores dizem sobre o livro didático dialoga — e tensiona — o que o PNLD prevê como política de garantia do direito à aprendizagem.

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Reler o artigo O uso do livro didático: significações docentes à luz do que orienta o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é um exercício revelador. De um lado, uma política pública robusta, que define critérios técnicos, pedagógicos e curriculares para a produção e distribuição dos livros didáticos no Brasil. De outro, a sala de aula real, onde o professor atribui sentidos concretos a esse material no encontro cotidiano com seus alunos.

O PNLD parte de um princípio claro: o livro didático é um direito do estudante e um instrumento estruturante do currículo. Ao estabelecer critérios de avaliação alinhados à BNCC, o programa busca assegurar qualidade conceitual, progressão pedagógica, diversidade de linguagens e coerência didática. No plano normativo, o livro é pensado como apoio ao trabalho docente e como meio de garantir equidade educacional em um país marcado por profundas desigualdades.

O que a pesquisa revela, no entanto, é que esse desenho institucional só se concretiza plenamente quando encontra a mediação ativa do professor.

O livro “aprovado” e o livro “usado”

O PNLD avalia e aprova obras; o professor as interpreta, adapta e, muitas vezes, reinventa. Nas significações docentes analisadas no artigo, o livro didático não aparece como um manual a ser seguido página por página, mas como um recurso pedagógico que ganha valor conforme o uso. Essa constatação dialoga diretamente com o próprio discurso oficial do PNLD, que reconhece o professor como sujeito central do processo educativo.

Há, contudo, uma tensão produtiva: enquanto o PNLD organiza o livro como um material completo, progressivo e autossuficiente, os professores tendem a enxergá-lo como um entre vários instrumentos. Ele é base, referência, apoio — raramente o único mediador da aprendizagem. Quando o livro se torna prescritivo demais, surge o risco de engessamento; quando é flexível e bem articulado ao planejamento, torna-se aliado poderoso.

Em termos simples (e aqui vai o humor rápido prometido): o PNLD entrega o mapa, mas quem dirige é o professor.

PNLD, BNCC e autoria docente

Outro ponto de convergência importante está na centralidade da BNCC. O PNLD exige alinhamento rigoroso às competências e habilidades previstas nacionalmente. Os docentes, por sua vez, reconhecem esse alinhamento como necessário, mas insuficiente. O currículo prescrito precisa dialogar com o currículo vivido — aquele que considera o ritmo da turma, os interesses dos alunos, as lacunas de aprendizagem e o contexto sociocultural.

A pesquisa mostra que os professores valorizam mais o livro quando ele permite adaptações, abre espaço para problematizações e favorece interações. Curiosamente, essa expectativa está cada vez mais presente nos próprios guias do PNLD, que incentivam o uso crítico, reflexivo e integrado do material didático. Ou seja: a política pública começa a se aproximar daquilo que a prática docente já vinha sinalizando há anos.

Tecnologia, recomposição de aprendizagens e o papel ampliado do livro

No contexto pós-pandemia e de recomposição das aprendizagens, o PNLD ampliou seu escopo, incorporando materiais digitais e propostas híbridas. A pesquisa dialoga diretamente com esse movimento ao indicar que os professores atribuem maior sentido ao livro quando ele conversa com outros recursos, especialmente tecnológicos, e quando promove situações de interação e colaboração.

O livro, nesse cenário, deixa de ser apenas um repositório de conteúdos e passa a funcionar como organizador pedagógico, ajudando o professor a estruturar intervenções, selecionar prioridades e monitorar progressões. O que faz a diferença não é a existência do livro — garantida pelo PNLD —, mas a forma como ele é mobilizado no cotidiano escolar.

Cinco pistas práticas alinhadas ao PNLD

A releitura do artigo, em diálogo com o PNLD, permite destacar algumas orientações coerentes com a política pública e com a prática docente:

  1. Trate o livro como direito do aluno e ferramenta do professor. Ele pertence a ambos.

  2. Use os critérios do PNLD como referência, não como camisa de força.

  3. Articule o livro ao planejamento e à avaliação formativa.

  4. Integre o material didático a outros recursos previstos no próprio PNLD, inclusive digitais.

  5. Exerça autoria pedagógica. O PNLD pressupõe um professor que decide, adapta e cria.

Em síntese

O PNLD e as significações docentes não estão em campos opostos — estão em diálogo permanente. A política pública garante acesso, qualidade e alinhamento curricular; o professor garante sentido, intencionalidade e aprendizagem real. O livro didático cumpre sua função social quando esses dois planos se encontram.

Talvez a melhor leitura seja esta: o PNLD entrega o livro, mas é o professor quem escreve, todos os dias, a verdadeira história da aprendizagem em sala de aula. Visionário? Sim. Necessário? Mais do que nunca.

FONTE/CRÉDITOS: OLIVEIRA, Laôr Fernandes de. O uso do livro didático: significações docentes. Doxa: Revista Brasileira de Psicologia e Educação, Araraquara, v. 24, n. 00, e023002, 2023. DOI: https://doi.org/10.30715/doxa.v24i00.17500
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira
Comentários:
Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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