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Segunda-feira, 01 de Junho 2026
O problema do Brasil é o brasileiro

Coluna do Rogério Franco
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O problema do Brasil é o brasileiro

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שִׁוִּיתִי יְהוָה לְנֶגְדִּי תָּמִיד

O problema do Brasil não está no Planalto. Está na alma coletiva de uma sociedade que observa o Planalto com indignação permanente enquanto se absolve da responsabilidade pelo país que ajudou a construir.

Durante décadas, os brasileiros alimentaram uma superstição politicamente conveniente. Passaram a acreditar que a política constitui uma esfera autônoma da realidade, habitada por indivíduos moralmente inferiores e completamente desvinculados dos valores, hábitos e vícios presentes na vida comum. Trata-se de uma fantasia confortável porque permite condenar os efeitos sem jamais enfrentar as causas. O político corrupto transforma-se em exceção monstruosa quando, na verdade, representa apenas a manifestação ampliada de deformações morais que já se encontram disseminadas pelo corpo social.

Nenhum governante surge espontaneamente como uma anomalia histórica. Todo político é produto de uma cultura, de um ambiente moral e de uma determinada visão de mundo. Antes de ocupar um cargo público, ele foi educado pelas mesmas instituições, absorveu os mesmos valores e conviveu com as mesmas justificativas que moldaram seus eleitores. A corrupção política não nasce nos palácios do poder. Ela é apenas a versão institucionalizada de comportamentos que já foram tolerados, relativizados e normalizados no cotidiano.

A pequena fraude tratada como necessidade, o favor obtido mediante influência pessoal, a regra burlada em benefício próprio e a mentira apresentada como recurso legítimo de sobrevivência constituem os tijolos invisíveis que sustentam a corrupção em larga escala. O grande corrupto não pertence a uma espécie diferente da humanidade. Ele representa o pequeno desonesto que encontrou oportunidade, poder e proteção suficientes para ampliar aquilo que já existia em estado embrionário.

O aspecto mais preocupante dessa realidade talvez resida na inversão moral que se consolidou ao longo do tempo. Em muitas circunstâncias, a honestidade passou a ser vista como ingenuidade, enquanto a esperteza recebeu o status de virtude prática. O indivíduo íntegro é frequentemente tratado como alguém incapaz de compreender o funcionamento do mundo, ao passo que o trapaceiro desperta admiração pela habilidade com que manipula situações em benefício próprio. O chamado jeitinho brasileiro deixou de ser uma exceção comportamental para converter-se em um princípio cultural amplamente aceito.

Os sinais dessa deterioração moral podem ser observados nos gestos mais banais da vida cotidiana. Manifestam-se no trânsito, onde regras são tratadas como sugestões e o direito alheio é constantemente sacrificado à conveniência pessoal. Manifestam-se nas ruas, onde o espaço público é utilizado sem qualquer consideração pelos demais. Manifestam-se nas filas desrespeitadas, no lixo abandonado, no ruído imposto aos outros, na incapacidade crescente de reconhecer limites e deveres. Uma sociedade não revela seu caráter apenas nas eleições que realiza, mas também na maneira como seus cidadãos se comportam quando acreditam que ninguém está observando. O desrespeito generalizado às normas mais elementares de convivência constitui um sintoma eloquente de uma cultura que perdeu a compreensão de que a liberdade só pode existir onde existe responsabilidade.

Nenhuma sociedade alcança grandeza política quando ridiculariza a retidão e recompensa a malandragem. O eleitor que negocia princípios por conveniência imediata dificilmente possui autoridade moral para condenar o governante que negocia interesses nacionais segundo a mesma lógica. A degradação da vida pública é apenas o reflexo inevitável da degradação dos critérios morais que orientam a vida privada.

Existe no Brasil uma tendência persistente de atribuir todos os fracassos nacionais a estruturas abstratas e impessoais, como se a sociedade ocupasse sempre a posição de vítima inocente diante dos próprios problemas. Essa interpretação produz alívio emocional, mas impede qualquer diagnóstico sério. Uma nação não é uma entidade separada de seu povo. As instituições refletem, em maior ou menor medida, as virtudes e os defeitos daqueles que as compõem. Quando a distância entre o discurso moral e a prática cotidiana se transforma em hábito coletivo, a deterioração institucional torna-se apenas uma questão de tempo.

O enfraquecimento do senso de vergonha agravou ainda mais esse processo. A verdade tornou-se negociável, a palavra empenhada perdeu valor e a responsabilidade individual passou a ser constantemente substituída por justificativas circunstanciais. O relativismo moral difundiu a ilusão de que toda conduta pode ser explicada, compreendida ou desculpada. O resultado inevitável é uma sociedade na qual ninguém se considera verdadeiramente responsável por coisa alguma.

As grandes crises nacionais raramente começam nos acontecimentos extraordinários. Elas se desenvolvem lentamente através da acumulação de pequenas concessões morais que, isoladamente, parecem insignificantes. São as pequenas mentiras, os pequenos desvios, as pequenas desonestidades e os pequenos atos de covardia que moldam o caráter de uma sociedade. E o caráter de uma sociedade determina inevitavelmente a qualidade do poder que ela produz.

Por essa razão, a transformação do Brasil não surgirá de reformas políticas milagrosas nem de líderes providenciais. Nenhuma engenharia institucional é capaz de compensar indefinidamente uma profunda crise moral. A renovação autêntica começa quando o indivíduo decide exigir de si mesmo os mesmos padrões que exige dos demais, quando abandona a complacência com a própria consciência e quando se recusa a participar da mentira coletiva que sustenta a degradação pública.

Enquanto os brasileiros continuarem tratando os próprios vícios com indulgência e os vícios dos governantes com indignação seletiva, o país permanecerá aprisionado ao mesmo ciclo de frustrações. A política continuará refletindo, com precisão desconcertante, o retrato moral de uma sociedade que ainda não encontrou coragem suficiente para encarar a própria imagem no espelho.

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Rogério Mazzetto Franco

Publicado por:

Rogério Mazzetto Franco

Rogério Mazzetto Franco é formado em Direito, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal, e também formado em Filosofia. Atua como ativista político, unindo rigor jurídico e reflexão filosófica na defesa de uma sociedade mais justa e racional.

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