O caso do cachorro Orelha não é apenas sobre um animal.
É sobre nós.
Sobre a sociedade que assiste, comenta, compartilha… e segue em frente como se fosse mais uma manchete qualquer. Orelha foi ferido, abandonado, exposto à dor e isso não pode ser tratado como um fato isolado ou como uma curiosidade de rede social.
Porque quem é capaz de machucar um animal indefeso também é capaz de ultrapassar outras fronteiras.
A violência nunca começa grande. Ela começa onde há silêncio. Onde há omissão. Onde se normaliza o sofrimento alheio.
O que assusta não é apenas o ato em si, mas a naturalidade com que muitos lidam com ele. Como se a crueldade fosse parte da rotina urbana. Como se indignação tivesse prazo de validade.
Orelha escancara uma pergunta incômoda:
que tipo de cidade estamos construindo quando o abandono e a agressão passam a ser tolerados?
Não se trata de “defender só animais”. Trata-se de defender valores básicos: empatia, responsabilidade, civilidade. Uma sociedade que falha em proteger os mais vulneráveis, sejam eles humanos ou não.
Não basta lamentar.
Não basta postar.
Não basta se revoltar por 24 horas.
É preciso cobrar. Denunciar. Fiscalizar. Exigir políticas públicas, punições reais e educação. Porque enquanto casos como o de Orelha continuarem se repetindo, estaremos normalizando o inaceitável.
Orelha não é só um cachorro ferido.
É um espelho desconfortável da nossa indiferença.
E talvez a maior ferida não esteja no corpo dele
mas na consciência coletiva que insiste em cicatrizar rápido demais.
Folha de Florianópolis
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