“O mal peculiar de silenciar a expressão de uma opinião constitui um roubo à humanidade.”
John Stuart Mill, Sobre a liberdade, capítulo II, 1859. Tradução livre.
Ela poderia ser qualquer pessoa numa reunião de condomínio. Depois de um dia de trabalho, sentou perto da porta e ouviu a proposta de uma obra que todos pareciam dispostos a aprovar. Ao olhar o orçamento, percebeu que alguns serviços mencionados não apareciam na descrição. Esperou uma pausa e perguntou se aquele valor cobria tudo ou se haveria outra cobrança depois. Precisava entender quanto sairia do seu bolso. Era uma pergunta que também poderia ajudar os demais moradores a decidir.
A resposta começou com um suspiro. Alguém comentou que o assunto já tinha sido explicado. Outro olhou para o relógio. Veio então uma observação sobre como certas pessoas sempre encontravam um jeito de complicar. Ela tentou esclarecer a dúvida, mas já não discutiam os serviços previstos no orçamento. Estavam discutindo seu comportamento. Sentiu o rosto aquecer, baixou os olhos e deixou a reunião prosseguir. A pergunta continuava sem resposta, mas insistir tinha se tornado mais difícil. Na saída, um vizinho confessa que tinha a mesma dúvida, mas preferiu evitar o constrangimento. A reunião terminou sem esclarecer algo que interessava aos dois.
Há uma relação importante nessa situação. Existe o custo que uma pessoa enfrenta ao questionar o grupo e existe o custo que a sociedade enfrenta quando esse questionamento desaparece. Uma objeção pode comprometer a aceitação por parte de um grupo social, especialmente quando discordar é interpretado como deslealdade.
É preciso reconhecer que nem toda pergunta é pertinente e nem toda discordância é bem fundamentada. Quem questiona também deve ouvir, examinar a resposta e admitir quando estava enganado. A convivência exige esse cuidado de todos. Mas há uma diferença importante entre mostrar por que um argumento está errado e constranger alguém por tê-lo apresentado. Se uma pergunta contém um erro, podemos esclarecer o assunto. Quando transformamos quem pergunta no problema, ensinamos algo sobre o que acontecerá com a próxima pessoa que tiver uma dúvida.
Ouvir os outros permite reconhecer equívocos e compreender argumentos que não conseguiríamos construir sozinhos. Para que a conversa amplie nosso entendimento, precisamos poder apresentar informações e rever interpretações.
Existe o custo que uma pessoa enfrenta ao questionar o grupo e existe o custo que a sociedade enfrenta quando esse questionamento desaparece diante daqueles que desejam o controle do comportamento social. O primeiro aparece no constrangimento diante nossos pares. O segundo pode surgir meses, anos depois, quando o grupo que hoje chamamos de sociedade, colapsa. Entre um momento e outro, houve pessoas que aprenderam a se proteger calando e outras que aprenderam, ao observá-las, a fazer o mesmo.
Pedir opiniões tem pouco valor quando as reações deixam claro que apenas a concordância será bem recebida. Consultar as pessoas enquanto ainda há possibilidade real de mudança permite que suas informações façam diferença. Quando o receio da reação impede essas contribuições de circular, o prejuízo alcança gente que jamais presenciou o constrangimento original. A maneira como tratamos uma pessoa pode alterar o que muitas outras terão oportunidade de saber.
Uma sociedade precisa que a dúvida e a opinião de seus entes participe da vida coletiva. Questionar pode exigir mais tempo ou obrigar alguém a rever uma proposta. Esse trabalho permite descobrir problemas enquanto ainda podemos corrigi-los. E assim, evoluímos. Nos tornamos melhores. Mais sábios. Mais tolerantes.
Cada pessoa sabe por que se calou, mas não conhece os motivos do silêncio alheio. Seria insuficiente pedir coragem a quem enfrenta esse custo. Quem escuta e quem observa também participa da formação do ambiente.
Quando transformamos o esforço de compreender em motivo de constrangimento, ensinamos as pessoas a oferecer menos de si à sociedade. Involuímos. Degradamos aquilo nos diferenciou na evolução da espécie humana. O pensar e a consciência de que existimos para criarmos harmonia entre os povos.
E inevitavelmente teremos de viver com as consequências.
Jogo que segue...
Guga Dias
Arquiteto de Mentalidade e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias
Folha de Florianópolis
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