Um estado “ordeiro”, “trabalhador”, herdeiro de imigrações europeias que teriam moldado uma sociedade homogênea e meritocrática. Essa narrativa, repetida em festas típicas, livros didáticos e discursos oficiais, sempre teve um problema: ela só funciona se muita gente ficar fora da história.
Agora, com a proposta de acabar com as cotas raciais, Santa Catarina reafirma esse velho hábito de varrer o incômodo para debaixo do tapete. A justificativa vem embalada em palavras elegantes: igualdade, justiça e neutralidade. Mas, a neutralidade - por aqui - quase sempre significou manter tudo ao alcance e benefício dos brancos.
Santa Catarina nunca foi um território vazio à espera de colonização. Havia população negra, indígena, pobre. Houve trabalho forçado, exclusão, silenciamento. O progresso foi construído sobre essa base, ainda que os registros oficiais tenham preferido destacar apenas sobrenomes europeus e fotos pomposas e bem enquadradas.
A universidade, por muito tempo, foi continuação desse projeto: um espaço restrito, pouco atravessado pela diversidade do próprio Estado.
As cotas raciais abriram uma fresta nesse desenho antigo. Não foi um favor, mas uma correção histórica. Permitiram que a universidade começasse, ainda que lentamente, a se parecer com a sociedade que a sustenta. Retirá-las significa estreitar novamente essa passagem, transformar o Ensino Superior em um espaço menos plural, menos acessível e menos democrático.
O discurso que defende o fim das cotas insiste que “todos somos iguais”. Ignorando que nem todos chegam ao vestibular com o mesmo acúmulo de oportunidades, nem foram incentivados a permanecer, nem se sentiram autorizados a ocupar esse lugar.
Quando o Estado recua em políticas de inclusão, não está apenas revendo critérios de acesso. Está sinalizando quem considera legítimo dentro da sala de aula e quem deve continuar batendo à porta. Democratizar o ensino exige mais do que portas abertas, exige reconhecer quem historicamente foi impedido de acessá-las.
O fim das cotas não elimina desigualdades.
Apenas compromete o pouco que se avançou na democratização do ensino e devolve o conforto da exclusão silenciosa.
E, mais uma vez, Santa Catarina preserva o mito, e sacrifica a pluralidade.
Folha de Florianópolis
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