Depois da quebra do Banco Master, que deixou muitos brasileiros aflitos com as ofertas aparentemente seguras das corretoras, o desconforto sobre os riscos da renda fixa se tornou mais evidente, e uma conversa sincera, desprovida de egos, ficou urgente.
A busca pela renda fixa como um porto seguro foi questionada. O problema é que, no mercado financeiro, o porto também pode afundar.
Se você investe em CDBs, LCIs ou Tesouro Direto acreditando estar em um terreno blindado contra riscos de oscilações ou mesmo contra a perda do seu dinheiro, saiba que cada tipo de ativo possui um risco embutido, e você precisa estar ciente para tomar decisões melhores.
O termo "fixa" refere-se à regra de remuneração, não à garantia de que seu patrimônio está imune a perdas.
O primeiro grande ponto de atenção é o risco de crédito. Quando você compra um título de renda fixa, está emprestando dinheiro a alguém ou a alguma instituição. A confiança na instituição emissora é essencial para que seu dinheiro esteja seguro.
Emprestar para o Governo Federal, adquirindo títulos públicos, é diferente de emprestar para um banco de médio porte que oferece taxas atrativas, mesmo com a justificativa do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Ele garante, sim, até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, porém há um processo. Se a instituição quebrar, seu dinheiro fica retido por meses, e o custo de oportunidade de ficar sem remuneração pelo tempo de espera é um risco que o assessor não menciona.
Depois, temos o risco de mercado. Você já olhou seu saldo no Tesouro Direto e viu que estava menor do que o valor investido? Isso pode acontecer porque os títulos oscilam diariamente através da marcação a mercado. Se os juros da economia sobem, o valor do seu título antigo cai. Porque se você precisar vender esse título antes do prazo de vencimento, o novo comprador quer uma remuneração igual à nova condição de mercado, e você precisa descontar a remuneração do teu título de trás pra frente, do valor do vencimento até o momento presente. Por exemplo, se você tem um título que paga 12%, e o mercado exige 13%, você calcula o valor do vencimento a 12% e depois do valor final desconta 13%, isso representa um deságio sobre o seu valor atual.
A renda fixa só é fixa se você levar o investimento até o último dia, e mesmo assim, pode ter negociado uma taxa e no meio do período aparecer opções melhores no mercado, que você não aproveitará porque está com o investimento "travado". Por isso que, antes do vencimento, ela pode sofrer oscilações que dependem da atratividade do mercado.
O risco de liquidez traz a armadilha da disponibilidade. Se você tem um milhão de reais investidos e não consegue sacar esse valor hoje para uma emergência médica ou uma oportunidade de negócio, é porque não tem liquidez. Muitos produtos de prateleira prendem seu capital por dois, três ou mais anos. Se precisar sair antes, talvez tenha de aceitar um desconto no valor ou, em muitos casos, descobrir que simplesmente não há comprador para seu título. Por exemplo, um COE de ativos voláteis. Mesmo que tenha capital protegido, se resgatar um capital daqui três anos, sem remuneração, representa uma perda inflacionária ou de oportunidade. É claro que pode representar ganhos significativos, porém é incorreto afirmar que capital protegido não representa perdas.
Investir com inteligência exige sair da zona de conforto de apenas "seguir a manada".
Esteja ciente de que a rentabilidade é proporcional ao risco, especialmente aos riscos de crédito, onde é preciso ficar atento à solidez do emissor; ao risco de mercado, das oscilações das taxas de juros; e ao risco de liquidez, de ter o recurso disponível quando precisar.
O planejamento de investimentos pressupõe objetivos definidos e recursos alocados para cada um deles, considerando perfil, momento de vida e horizonte de prazo.
E qual seriam esses objetivos?
Reserva de emergência: necessária a todos os perfis, com valor diferente por fase de vida e necessidades financeiras. Deve ser alocada em renda fixa de baixo risco, com liquidez diária.
Projetos: analise cada projeto dentro da capacidade de tomar riscos e do seu perfil, assim como o horizonte de prazo de cada um. Sabe o potinho de moedas que se colocava em cima da geladeira para juntar dinheiro para uma viagem? Hoje fazemos isso em um investimento, para render juros e facilitar os depósitos. Cada objetivo deve ter seu potinho virtual.
Aposentadoria: aqui entra uma estratégia de longo prazo, também direcionada por perfil, horizonte e preferências. Primeiro, avalie o montante necessário para a renda desejada e depois aloque em ativos de renda, sejam investimentos financeiros como previdência, ações, títulos públicos, RDC/CDB, fundos imobiliários e ETFs, sejam ativos reais que gerem renda, como salas e apartamentos em local de baixa vacância e alta valorização ou proporção de aluguel/valor investido.
Desconfie de promessas fáceis, de rendimentos fixos em ativos voláteis, de investimentos que pagam acima da média. De imóveis na planta de construtora desconhecida com preço de "barbada". Por ter inclusive um risco de caráter embutido.
E o que são resultados melhores? São aqueles adequados ao seu planejamento financeiro e à sua estratégia de investimentos. O mapa deve ser aquele que atende os objetivos, perfil e momento de vida de cada investidor.
Qual é o seu mapa?
Folha de Florianópolis
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