“As pessoas são a verdadeira riqueza de uma nação.”
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
Relatório de Desenvolvimento Humano de 1990
Uma cidade não se desenvolve apenas porque recebe mais turistas, realiza mais eventos ou movimenta mais dinheiro. Ela se desenvolve quando esse movimento chega às pessoas que vivem nela, criando trabalho, renda, conhecimento, oportunidades e melhores condições para construir o próprio futuro.
Há poucos dias, Florianópolis recebeu mais uma edição do Startup Summit. Mais de 11 mil pessoas passaram pelo evento. Hotéis receberam hóspedes, restaurantes aumentaram o movimento, motoristas trabalharam, fornecedores foram contratados e negócios começaram a ser discutidos. É um bom exemplo, mas apenas um exemplo, de uma engrenagem muito maior que entra em funcionamento quando uma cidade ou um estado consegue atrair pessoas por razões profissionais, empresariais, científicas e tecnológicas.
O turismo de negócios já tem dimensão econômica suficiente para ser tratado como parte relevante de uma política de desenvolvimento. Entre janeiro e julho deste ano, as agências associadas à Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas, a Abracorp, movimentaram R$ 8,44 bilhões, crescimento de 8,1% sobre o mesmo período de 2025. O transporte aéreo respondeu por quase 60% desse faturamento e a hotelaria por cerca de R$ 2,5 bilhões. São números expressivos, mas ainda dizem apenas uma parte da história.
Santa Catarina ajuda a enxergar a outra parte. As atividades ligadas ao turismo estão associadas a mais de 293 mil empregos formais no estado e representam pouco mais de 7% dos postos formais de trabalho. Mais da metade desses empregos está vinculada a pequenos negócios. Bares, restaurantes, pousadas, empresas de transporte, agências, locadoras e prestadores de serviços para eventos formam uma cadeia que espalha renda muito além do hotel onde o visitante dorme ou do centro de convenções onde participa de uma reunião.
É nesse ponto que o debate precisa mudar de foco. Quando falamos em turismo de negócios, costumamos olhar primeiro para quem chega. Talvez devêssemos olhar também para quem já está aqui. Para a pessoa que consegue seu primeiro emprego, para quem amplia a renda, para o pequeno fornecedor que passa a atender clientes maiores, para o profissional que precisa aprender uma nova tecnologia, melhorar o atendimento ou estudar outro idioma. Uma economia mais sofisticada exige pessoas mais qualificadas, mas, quando bem organizada, também cria condições para produzir essa qualificação.
Esse efeito não acontece por acaso. O Programa de Qualificação Profissional e Inserção Produtiva no Turismo associa qualificação à geração de trabalho e renda e ao fortalecimento das capacidades locais e regionais. O desafio é fazer com que cidades e estados conectem a atração de eventos e viagens de negócios à formação profissional, à inserção produtiva e ao crescimento dos pequenos negócios locais. Receber um grande congresso durante três dias é positivo. Criar competências que permanecem durante anos é muito melhor.
Florianópolis e Santa Catarina têm ativos importantes para avançar nessa direção. O Aeroporto Internacional de Florianópolis ultrapassou 5 milhões de passageiros em 2025, com 1,2 milhão de passageiros internacionais. A conectividade amplia a capacidade de receber executivos, pesquisadores, investidores, profissionais e eventos de diferentes origens. Ao mesmo tempo, a concessão do CentroSul, atualmente em curso, recoloca em discussão a infraestrutura necessária para que a cidade dispute congressos, feiras e encontros durante todo o ano.
Mas aeroporto, centro de convenções, hotéis e calendário de eventos são meios, não fins. Uma cidade pode ter bons equipamentos e ainda assim capturar pouco do valor que passa por ela. O salto de qualidade acontece quando o visitante encontra fornecedores locais preparados, quando empresas daqui conseguem gerar novos negócios, quando trabalhadores acessam melhores oportunidades e quando o conhecimento que circula em um congresso não fica restrito às paredes do evento.
Também por isso não basta comemorar qualquer crescimento. Mais eventos podem significar mais postos temporários, informalidade ou trabalho de baixa qualidade se não houver estratégia. Desenvolvimento pressupõe trabalho digno, formação, possibilidade de progressão e condições para que as pessoas participem de uma economia que se torna mais complexa. O objetivo não deve ser apenas criar ocupação, mas ampliar capacidades e oportunidades.
Existe ainda um efeito menos visível. Quem vem a trabalho conhece a cidade de uma maneira diferente. Pode voltar com a família, recomendar o destino, estabelecer relações profissionais, abrir mercado, procurar fornecedores ou decidir investir. Nem todo visitante fará isso, evidentemente. Mas cada conexão aumenta a possibilidade de que uma viagem produza efeitos que sobrevivam ao embarque de volta.
Por isso, talvez devamos mudar a forma de medir o sucesso do turismo de negócios. Número de passageiros, ocupação hoteleira, faturamento e quantidade de eventos continuam sendo indicadores importantes. Mas são insuficientes.
Precisamos fazer as perguntas certas. Quanto desse movimento ficou aqui depois que o visitante foi embora?
Ficou um novo cliente para uma pequena empresa, um trabalhador mais qualificado, uma renda melhor ou um fornecedor mais preparado? Surgiu um negócio que não existia antes? Alguma conexão trouxe investimento, conhecimento ou uma nova oportunidade?
Se conseguirmos responder cada vez mais vezes que sim, o turismo de negócios deixará de ser apenas uma atividade que movimenta a cidade durante alguns dias. Passará a ser uma verdadeira ferramenta de desenvolvimento econômico, capaz de melhorar a vida de quem permanece nela todos os dias.
Jogo que segue…
Guga Dias
Arquiteto de Mentalidade e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram @gugavdias
X @augustodias
Fontes
PNUD, Relatório de Desenvolvimento Humano 1990 | Abracorp, dados jan–jul 2026 | Sebrae Nacional, Startup Summit 2026 | Sebrae/SC, Empregos no Turismo Catarinense | Ministério do Turismo, Portaria 43/2025 | Floripa Airport, balanço 2025 | Prefeitura de Florianópolis, concessão do CentroSul 2026
Folha de Florianópolis
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