Há um erro de leitura que cidades turísticas repetem com teimosia. Tratam o turismo como vitrine e calendário, não como um sistema econômico completo. Vendem a paisagem, celebram a alta temporada e, quando o verão acaba, aceitam a ressaca como se fosse destino. A consequência é previsível. Emprego sazonal, formação improvisada, serviços com qualidade desigual e uma disputa permanente entre a cidade que trabalha e a cidade que visita.
Na semana em que o debate sobre trabalho ganhou palco na Global Labor Market Conference, em Riad, a Arábia Saudita apresentou uma ideia simples e brutalmente prática. Diversificação econômica não é só anunciar setores do futuro. É desenhar o mercado de trabalho que esses setores exigem e construir a esteira de pessoas capacitadas para ocupá-los. Turismo e indústria, na narrativa saudita, aparecem menos como slogans e mais como máquinas de emprego.
O ministro do Turismo, Ahmed Al-Khateeb, colocou o turismo no tamanho real que ele tem no mundo. Dados do World Travel & Tourism Council apontam que viagens e turismo responderam por cerca de 10 por cento do PIB global em 2024 e sustentaram aproximadamente 357 milhões de empregos, algo próximo de um em cada dez postos de trabalho no planeta. Olhando para dentro do próprio país, ele falou em meta de criar entre 400 mil e 600 mil novos empregos em hospitalidade nos próximos anos, conectando isso a programas de treinamento e carreira.
Do outro lado, o ministro da Indústria e Recursos Minerais, Bandar Al-Khorayef, descreveu um movimento que interessa ainda mais do que o número em si. Em vez de discursos genéricos sobre indústria 4.0, foi apresentado um trabalho de engenharia institucional. Um arcabouço ocupacional e de competências para setores de mineração e indústria com mais de 500 ocupações mapeadas e suas habilidades associadas. Isso é linguagem de política pública séria. É o tipo de coisa que permite alinhar educação, qualificação, empresas e salário, sem depender de achismos.
O nome dessa lógica, no caso saudita, é Saudi Vision 2030. A ideia é conhecida. Reduzir dependência do petróleo e ampliar a base produtiva. O que costuma faltar em muitos lugares é o como no nível do chão. Não basta dizer que turismo e indústria vão crescer. É preciso decidir quais ocupações vão ser prioridade, onde há gargalos de mão de obra, quais competências precisam ser ensinadas, em quanto tempo, por quem, e como o setor privado entra com vaga real, não com discurso.
Florianópolis não está começando do zero. A cidade já publicou um Plano Estratégico de Turismo com visão até 2033 e linguagem moderna, falando em destino turístico inteligente, sustentabilidade, inovação e qualidade de vida. Isso importa, porque coloca o tema no lugar certo. Turismo não é só promoção. É governança, dados, infraestrutura, experiência, acessibilidade, inovação e, principalmente, gente.
Ao mesmo tempo, Florianópolis tem um ativo raro para uma cidade brasileira do seu porte. Ela foi oficialmente reconhecida, por lei federal, como Capital Nacional das Startups. Isso não é um troféu simbólico. É uma pista de vocação econômica baseada em tecnologia e serviços de alto valor. O risco, porém, é justamente esse. Uma cidade pode ter vocação e ainda assim manter um mercado de trabalho desconectado, com ilhas de excelência e uma base grande de ocupações mal estruturadas, mal treinadas e mal remuneradas.
A provocação então é direta. Se a Arábia Saudita está tratando turismo e indústria como política de emprego, por que Florianópolis ainda aceita o turismo como política de calendário.
A lição não é copiar metas sauditas. É copiar método. E o método começa com um mapa.
Florianópolis deveria construir um mapa de ocupações e competências do turismo, com foco em economia do mar, eventos, gastronomia, hospitalidade, mobilidade turística, cultura, esportes e experiências. Um mapa que diga quantas ocupações existem de verdade no ecossistema do visitante e do morador, quais são críticas para a qualidade do destino, quais estão em falta, quais têm alta rotatividade e quais têm potencial de carreira. Isso muda o jogo porque desloca a conversa do marketing para o capital humano.
Esse mapa, para ser útil, precisa conversar com a base educacional e com a base empresarial da cidade. Precisa virar trilha. Certificações curtas, formação modular, atualização contínua, estágio supervisionado, programa de primeiro emprego para juventude, requalificação para adultos, e mecanismos de progressão que façam alguém entrar como auxiliar e enxergar um caminho real até supervisão, gestão, empreendedorismo e especialização. Em outras palavras, transformar trabalho em carreira, não em bico.
A mesma lógica serve para a indústria que faz sentido em Florianópolis. Não é uma defesa nostálgica de chaminés. É indústria de conhecimento, de tecnologia, de equipamentos e serviços especializados, de economia criativa, de design, de saúde, de dados, de maricultura e de cadeias do mar, de soluções urbanas. A cidade tem competência instalada para isso, mas precisa de ponte com o emprego. Um arcabouço ocupacional, como o saudita, funciona como tradutor entre escola e empresa. Ele reduz a distância entre o que se ensina e o que se contrata.
O Plano de Turismo até 2033 já dá direção. O que falta, com frequência, é a camada operacional do trabalho. A cidade pode ter marca turística, portal, trilhas concedidas, eventos e calendário reforçado. Ainda assim, se a base de serviços não for treinada de forma consistente, a experiência do visitante cai. E quando a experiência do visitante cai, o destino fica barato, não desejado. A diferença entre uma cidade que bomba e uma cidade que vira referência quase sempre está em padrão, consistência e gestão.
Existe também um argumento que a Arábia Saudita colocou com inteligência política. Turismo é uma máquina de inclusão quando é tratado com método. Florianópolis tem um debate legítimo sobre oportunidades para jovens, sobre qualificação e sobre mobilidade social. O turismo pode ser esse motor, mas só quando não é informalidade disfarçada de charme.
Há um ponto cego que precisa ser dito com honestidade. Florianópolis gosta de se ver como destino e como polo de inovação, mas ainda planeja emprego como se essas duas identidades não se tocassem. A interseção é onde mora o dinheiro de verdade. Turismo com tecnologia e dados. Gestão de fluxo, experiência do visitante, mobilidade inteligente, recomendação de roteiros, reserva e bilhetagem, pagamentos, curadoria de eventos, segurança, acessibilidade, monitoramento de trilhas, economia criativa conectada a plataformas. Isso é trabalho qualificado, é empresa escalável, é exportação de serviço, é aumento de renda média.
No fim, a comparação com a Arábia Saudita serve como espelho, não como modelo. Eles estão usando turismo e indústria para diversificar uma economia concentrada. Florianópolis precisa usar turismo e indústria de conhecimento para estabilizar e sofisticar uma economia que oscila entre pico e vale. Um destino que vive só de alta temporada é refém do clima, do câmbio e do humor do mundo. Um destino que transforma turismo em política de emprego ganha previsibilidade, qualidade e legado.
A cidade já tem a visão escrita. Agora precisa da parte que costuma doer. Governança de execução, métricas públicas, trilhas de formação e cobrança por padrão. Planejar não é publicar um plano. Planejar é criar uma máquina que funcione mesmo quando ninguém está olhando. Como diria Eisenhower, o plano pode falhar, mas o ato de planejar é o que salva.
Se Florianópolis quiser aprender com a Arábia Saudita, a pergunta correta não é quanto eles vão investir. É como eles transformaram discurso em ocupação.
Jogo que segue...
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias
Folha de Florianópolis
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