Oscilações hormonais podem interferir diretamente no funcionamento do organismo e também repercutir sobre a saúde mental. Alterações nos níveis de hormônios como cortisol, estrogênio, progesterona, testosterona e aqueles produzidos pela tireoide podem estar associadas a mudanças no humor, no sono, na energia e na resposta ao estresse. Em alguns casos, esses efeitos podem se manifestar como ansiedade, irritabilidade ou sintomas depressivos.
A relação, no entanto, não é simples. Hormônios não são os únicos responsáveis pelos transtornos mentais. A saúde emocional resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos, genéticos, sociais e ambientais. Por isso, identificar uma alteração hormonal não significa, necessariamente, explicar sozinho um quadro de ansiedade ou depressão.
“Um dos principais elementos dessa relação é o cortisol, conhecido como hormônio do estresse. Em situações de ameaça ou tensão, o organismo aumenta sua produção para preparar o corpo para reagir. Esse mecanismo é natural e importante para a sobrevivência. O problema pode surgir quando a resposta ao estresse permanece ativada por períodos prolongados, contribuindo para alterações no sono, na concentração, na disposição e na regulação das emoções”, comenta a cientista Izabelle Gindri, especialista em saúde hormonal, PhD em Engenharia Biomédica pela UTD (University of Texas, Dallas).
Homens e mulheres podem experimentar essas consequências. Em ambos os sexos, situações de estresse crônico, privação de sono e determinadas doenças podem afetar a produção hormonal e, ao mesmo tempo, aumentar a vulnerabilidade a sintomas de ansiedade e depressão.
Os hormônios sexuais também participam deste processo. Nas mulheres, as oscilações de estrogênio e progesterona ao longo do ciclo menstrual, durante a gestação, após o parto e na menopausa podem influenciar o humor e a qualidade do sono. Algumas pessoas apresentam maior sensibilidade a essas mudanças, podendo desenvolver sintomas emocionais significativos em determinados períodos.
Nos homens, a testosterona também merece atenção. A redução dos níveis desse hormônio pode estar associada a diminuição da libido, cansaço, perda de massa muscular e alterações de energia e humor. Em alguns casos, homens com deficiência de testosterona podem apresentar sintomas depressivos. Isso não significa, porém, que toda depressão masculina seja consequência de baixos níveis hormonais. A avaliação médica é fundamental para diferenciar as situações.
Para Gindri, o envelhecimento pode provocar mudanças hormonais tanto em homens quanto em mulheres. “Nos homens, os níveis de testosterona tendem a diminuir gradualmente ao longo da vida. Nas mulheres, a transição para a menopausa envolve uma queda mais significativa na produção de estrogênio e progesterona. Essas diferenças fazem com que as manifestações sejam distintas, mas não eliminam a influência dos hormônios sobre a saúde mental em nenhum dos sexos”, reforça a especialista.
A tireoide é outro exemplo importante. Alterações na produção dos hormônios tireoidianos podem provocar sintomas que se confundem com transtornos psiquiátricos. O hipotireoidismo pode estar relacionado a cansaço, desânimo, dificuldade de concentração e alterações do humor. Já o hipertireoidismo pode causar agitação, ansiedade, irritabilidade, insônia e palpitações.
Essas sobreposições mostram por que o diagnóstico precisa ser cuidadoso. Uma pessoa que apresenta tristeza persistente, perda de interesse, ansiedade excessiva, alterações no sono ou falta de energia pode estar diante de um transtorno mental, de uma condição hormonal ou da combinação de diferentes fatores. A investigação deve considerar o histórico clínico, os sintomas, medicamentos utilizados e exames laboratoriais.
A relação funciona nos dois sentidos. Não apenas os hormônios podem influenciar o estado emocional, transtornos de ansiedade e depressão também podem afetar processos relacionados ao sono, ao estresse, ao apetite e ao funcionamento do organismo. O cérebro e o sistema endócrino estão em comunicação constante.
“Devemos evitar explicações simplistas, como atribuir ansiedade ou depressão exclusivamente a um “desequilíbrio hormonal”. O tratamento também não deve ser feito por conta própria, especialmente com hormônios. Dependendo da causa, a abordagem pode envolver psicoterapia, medicamentos, tratamento de doença hormonal, mudanças na rotina ou uma combinação dessas estratégias”, alerta Izabelle Gindri
Cuidar da saúde mental, portanto, também significa olhar para o organismo como um todo. Hormônios podem exercer influência importante sobre o humor e o comportamento, mas não atuam isoladamente. Em homens e mulheres, compreender essa interação permite investigar melhor os sintomas, identificar possíveis causas e aumentar as chances de um tratamento adequado e personalizado.
Folha de Florianópolis
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