De Davos, o presidente da Assembleia Geral da ONU alertou na quarta-feira que o mundo entrou em um momento de "tudo ou nada" para o multilateralismo, dizendo que a ordem baseada em regras só pode sobreviver se os Estados disserem a verdade e agirem quando for difícil. Ela defendeu uma aliança inter-regional para combater a crescente ilegalidade, desinformação e política baseada no poder.
Falando na sessão Quem Confia Agora? no Fórum Econômico Mundial, Annalena Baerbock alertou que as instituições multilaterais – há muito vistas como intermediárias da confiança global – estão sob uma pressão sem precedentes, à medida que os conflitos se multiplicam e o respeito pelo direito internacional se deteriora.
"Quem confia em quem corre?" ela perguntou. "Em tempos comuns, haveria uma resposta simples: instituições multilaterais como as Nações Unidas." Mas, ela acrescentou, estes "não são tempos comuns".
A Sra. Baerbock disse que o mundo enfrenta mais conflitos do que em qualquer outro momento da história recente. Desde o início de 2026, disse ela, as divisões se aprofundaram ainda mais, deixando alguns Estados-Membros hesitantes em agir quando as circunstâncias exigem condenação fundamentada.
"Vozes que antes se manifestavam em apoio aos três pilares da Carta das Nações Unidas – paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos – ficam cada vez mais silenciosas diante de sua erosão", disse ela.
"A ONU não está apenas sob pressão, mas sob ataque aberto."
Fatos e verdades não passam para negociação
Baerbock enfatizou que a confiança não pode existir sem verdade e fatos compartilhados – fundamentos que, segundo ela, estão cada vez mais minados por desinformação deliberada.
"Sem fatos, você não pode ter verdade. Sem a verdade, não dá para confiar", disse ela, citando a laureada com o Prêmio Nobel da Paz Maria Ressa.
Ela alertou que falsidades raramente são acidentais, mas frequentemente usadas para "usar a desinformação e a desinformação como arma", enquanto o silêncio diplomático diante de falsidades óbvias só aprofunda a desconfiança.
"Não negociamos verdades e fatos", disse a Sra. Baerbock. "Usamos eles para negociar, para negociar confiança."
Ela destacou os riscos apresentados pela inteligência artificial, observando que, embora a IA ofereça enormes benefícios, ela também está sendo usada para borrar a linha entre verdade e mentira. Deepfakes, disse ela, estão "atacando sistematicamente as mulheres", citando dados que mostram que a esmagadora maioria desse tipo de conteúdo é pornográfica e tem como alvo as mulheres.
Carta da ONU – 'seguro de vida do mundo'
A Sra. Baerbock também destacou que a confiança é impossível sem regras comuns, argumentando que o respeito ao direito internacional não é idealismo ingênuo, mas uma questão de interesse próprio esclarecido.
"A confiança se constrói sobre regras", disse ela, comparando o sistema global a esportes competitivos ou mercados onde previsibilidade e justiça são essenciais. "Por que você colocaria seu dinheiro em um negócio se as regras da competição são totalmente imprevisíveis?"
Relembrando a fundação das Nações Unidas há 80 anos, ela disse que os líderes da época escolheram a cooperação após testemunharem as consequências catastróficas de uma ordem internacional sem lei.
A Carta da ONU, acrescentou, continua sendo "o seguro de vida comum do mundo", assim como uma ordem econômica baseada em regras sustenta os negócios e investimentos globais.
Um apelo por uma ampla aliança
O Presidente da Assembleia Geral concluiu pedindo uma ampla aliança – que abrange governos, empresas e regiões – para defender a ordem internacional e defender princípios compartilhados, mesmo quando isso é politicamente ou economicamente custoso.
"A confiança é negociada por aqueles que sustentam as regras e princípios comuns, mesmo quando é difícil", disse ela. "Por aqueles que agem quando é necessária... e por aqueles que falam a verdade, quando o silêncio ou a distorção seriam mais fáceis."
O desafio agora, enfatizou a Sra. Baerbock, é se os líderes de hoje podem agir com a mesma coragem e convicção que aqueles que construíram o sistema internacional do pós-guerra.
"Os fundadores das Nações Unidas entenderam que, por terem visto o que a alternativa significaria, em um mundo onde o poder faz a justiça, só pode haver um resultado: caos e guerra."

Folha de Florianópolis
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