A dificuldade para comer de forma variada é uma realidade comum em muitas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mais do que uma simples “fase” ou preferência alimentar, a chamada seletividade alimentar pode ter impactos diretos na saúde e no desenvolvimento. Entre os principais pontos de atenção estão dois nutrientes essenciais: o ferro e o zinco.
No dia a dia, é comum que crianças com TEA recusem alimentos importantes como carnes, feijão, verduras e legumes — justamente algumas das principais fontes desses minerais. Isso acontece, em muitos casos, por questões ligadas ao processamento sensorial, que pode tornar texturas, cheiros e sabores mais difíceis de tolerar. O resultado é uma alimentação restrita, que pode levar a deficiências nutricionais silenciosas.
O ferro, por exemplo, é fundamental para o funcionamento do cérebro. Ele participa da produção de substâncias que regulam o humor, a atenção e o sono. Quando está em falta, pode causar cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração e até piora em comportamentos já desafiadores. Em crianças em fase de crescimento, a deficiência de ferro também pode afetar o desenvolvimento cognitivo.
Já o zinco tem papel importante tanto no sistema imunológico quanto na comunicação entre os neurônios. Baixos níveis desse nutriente podem estar associados a maior sensibilidade sensorial, alterações no comportamento e dificuldades na regulação emocional. Alguns estudos apontam, inclusive, que a falta de zinco pode aumentar ainda mais a seletividade alimentar, criando um ciclo difícil de quebrar.
Esse ciclo funciona de forma simples: a criança restringe os alimentos, passa a consumir menos nutrientes essenciais, e essa deficiência pode intensificar os próprios comportamentos que dificultam a alimentação. Com isso, a variedade alimentar diminui ainda mais, reforçando o problema.
Especialistas das áreas de Nutrição Clínica e Neurociência destacam que o cuidado com a alimentação deve fazer parte do acompanhamento de crianças com autismo. Isso inclui observar sinais como cansaço frequente, irritabilidade, palidez, baixa imunidade e dificuldades de atenção, que podem estar relacionados à falta de nutrientes.
A boa notícia é que existem caminhos possíveis. Com acompanhamento profissional, é possível investigar possíveis deficiências por meio de exames e trabalhar a introdução gradual de novos alimentos, respeitando o tempo e as particularidades de cada criança. Em alguns casos, a suplementação pode ser indicada, sempre com orientação adequada.
Ferro e zinco fazem parte da lista de minerais essenciais, porém não podemos esquecer que a seletividade alimentar pode levar à deficiência de diversas vitaminas do complexo B, que precisam se manter em níveis adequados, contribuindo para o equilíbrio do organismo. Para famílias e cuidadores, isso reforça a importância de olhar para a alimentação não apenas como rotina, mas como parte fundamental do cuidado.

Folha de Florianópolis
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