“A festa passa. O que a cidade organiza fica.”
Guga Dias
Quando o Carnaval chega, a economia não precisa sair do enredo. Ela se impõe no retrato das ruas, onde o trabalho tem rosto, hora e consequência. É aqui que a cidade entende o que a sustenta. Em Florianópolis, esse momento tem data marcada no calendário. A cidade revela sem fantasia o que sustenta seu cotidiano, porque o ganho econômico aparece longe dos gráficos de um powerpoint qualquer. Ela anda, negocia, contrata e expõe as costuras do modelo urbano.
E é nessa passarela que um dado nacional ganha força de argumento e deixa de ser estatística de rodapé de um Slide pálido. O número de ambulantes que se formalizaram como microempreendedores individuais cresceu 45% em dois anos, segundo o DataSebrae. Em 2025 foram mais de 56 mil formalizações, contra 38,8 mil em 2023 e 42,8 mil em 2024. E esse não é um número frio. É a rua tentando virar empresa, ainda que pequena. E eventos populares de massa aceleram essa decisão quando a demanda explode em poucos dias.
O Brasil inteiro se prepara nos meses anteriores para esse choque de demanda. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) projetou para o Carnaval de 2026 um faturamento do turismo de R$ 14,48 bilhões e a criação de 39,2 mil vagas temporárias, com maior peso em bares e restaurantes, seguido por transporte e hospedagem. Quando um feriado se comporta como uma indústria sazonal, a cidade que o recebe precisa de governança, não apenas de programação cultural.
Situando em Florianópolis, esse impacto aparece em números que tiram o debate do achismo. No Carnaval de 2025, as festividades injetaram cerca de R$ 510 milhões na economia de Santa Catarina, segundo a CNC. Ainda de acordo com a mesma fonte, Floripa recebeu cerca de 2 milhões de visitantes. E foram criados 1,9 mil postos de trabalho formais e temporários diretamente ligados às atividades do Carnaval, segundo o Caged. Esses números não são só motivo de orgulho. São escala.
Carnaval não é apenas um acontecimento cultural. Ou uma mera festa popular. Não estamos falando apenas, e somente apenas, de um amontoado espontâneo de gente na rua. Há arenas montadas, blocos de samba, equipes escaladas, rotas traçadas, segurança, limpeza e logística trabalhando para que a cidade não colapse sob o próprio sucesso. Quando a programação se espalha por nove arenas e mobiliza milhares de profissionais, a festa passa a ter a mesma natureza de qualquer atividade econômica concentrada. Exige regra clara, coordenação firme e responsabilidade pública. Sem isso, o que era festa vira atrito. E a cidade paga a conta.
Há ingenuidade formal em perguntar se a maior festa popular do país movimenta a economia. Movimenta das cidades e do país todo. A pergunta é, no caso de Floripa, se sabemos transformar esse movimento em estrutura. Uma festa pode ser apenas entretenimento que passa, ou pode ser um instrumento de organização econômica temporária. Tudo depende de como a cidade enxerga quem faz a festa acontecer. Se o ambulante é tratado como problema, a informalidade vira regra, o conflito com moradores e comércio cresce, e a arrecadação evapora. Peguemos o ambulante como exemplo. Ao ser tratado como parte legítima da cadeia, a cidade pode construir previsibilidade, licenciamento claro, áreas definidas, regra de higiene e descarte, fiscalização que orienta antes de punir e integração com a operação oficial.
Aqui entramos num tema que nossa cidade gosta de repetir, mas não são todos os “passistas” dessa escola de samba chamada Floripa, que desejam ver como política pública cotidiana. Nossa capital se posiciona como ilha do silício, um polo de tecnologia e inovação. Essa identidade deve ir além da passarela das startups. Precisa chegar no chão da cidade real. Precisamos encarar o Carnaval como um laboratório perfeito para alavancar ideias do uso da tecnologia para criar soluções práticas. Em poucos dias, há fluxo concentrado de pessoas, milhares de transações financeiras pequenas, pressão por segurança, logística, limpeza e ordenamento. É o cenário ideal para usar dados e tecnologia como infraestrutura invisível de ordem e de renda melhor. Ferramentas simples podem apoiar credenciamento, mapa de pontos autorizados, informação de rotas, alertas operacionais, orientação de descarte de resíduos e meios de pagamento. Reduzindo fricção, melhoria na experiência do morador e do visitante e, principalmente, criando trilha para que mais gente atravesse a ponte da informalidade para a formalização.
O prêmio aqui é legado. O maior ganho do Carnaval não é o dinheiro de poucos dias. Mas o que a cidade faz com esse dinheiro e com a experiência que deixa na memória de todos. Podemos usar esse momento de concentração econômica para mapear microempreendedores, orientar e incentivar formalização, conectar microfornecedores a hotéis e bares, estimular compras locais e medir dados para planejar o próximo ano com mais precisão. E assim, a festa vira plataforma de crescimento. Quando isso não acontece, ela vira apenas um intervalo intenso seguido de ressaca econômica. E quebra de imagem.
Na quarta-feira de cinzas, a cidade volta ao ritmo normal e o assunto tende a ir junto com a purpurina pelos ralos. O erro reside aqui. Se existe um símbolo moderno de economia urbana, é o vendedor de rua que vira MEI. Ele está dizendo que quer previsibilidade, quer crescer, quer parar de viver apenas do acaso de uma festa do calendário anual. O dado nacional mostra que esse impulso está aumentando. O Carnaval expõe a demanda que torna isso possível. A responsabilidade de Florianópolis, assim como de qualuqer outra cidade, é simples e relevante. Governar o fluxo para que a cidade ganhe agora e ganhe depois. A festa passa. A escolha de cidade que queremos fica.
Jogo que segue…
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO da GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias
Folha de Florianópolis
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